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Gana

Gana – Impressões de uma obroni em Acra

Hey, Obroni!

E assim começou a minha primeira jornada de vivência em um país do continente africano. Aterrissei em janeiro de 2014 em Acra, capital do Gana, com muitas expectativas nas três malas com roupas, sapatos, remédios, repelentes e (muitos!) absorventes para uma missão de um ano e meio.

A escolha por Gana não foi difícil. Na verdade, pela sua relativa estabilidade e segurança, o país é um bom destino para principiantes no continente africano. No meu caso, Acra tornou-se o destino certo por sediar o Escritório Regional para a África da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Naturalmente, para quem lida com cooperação para o desenvolvimento, a proximidade com os projetos de campo torna-se essencial para entender as dinâmicas locais, os desafios dos países e os elementos socioeconômicos que influenciam um determinado fenômeno. Por isso, me mudar para Gana foi como uma brisa de energia pessoal e profissional.

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Gana, conhecida nos tempos de colonização inglesa como Golden Coast (Costa do Ouro), tornou-se independente do Reino Unido em 1957, tendo sido a primeira nação africana a fazê-lo. País de mais de 25 milhões de habitantes, localiza-se na África Ocidental. Vizinho de Togo, Costa do Marfim, Burkina Faso e a duas horas de voo de São Tomé e Príncipe, possui clima equatorial que sofre influência do Golfo da Guiné – e isso você percebe já na saída do avião, no Aeroporto Internacional de Kotoka, pois a sensação é de entrar numa bolha de ar quente e úmido com mais de 30 graus, mesmo à noite.

Com o clima quente surgem também problemas de saúde pública, como um quadro de malária endêmica. De acordo com a Organização Mundial da Saúde a malária mata todos os anos cerca de 580 mil pessoas, infectando quase 200 milhões por meio da picada do mosquito Anopheles fêmea. E esse foi o meu maior medo na minha chegada, a ponto de transformar os repelentes em creme hidratante diário nos primeiros meses – felizmente, com o tempo, aprendemos a lidar de forma mais razoável com isso.

Desmistificando

Já tenho minha lista de favoritos em Gana e aos poucos falarei mais sobre eles por aqui. É incrível perceber durante uma refeição tanta similaridade com a comida brasileira ao saborear um delicioso red red ou kenkey. É divertido se arriscar dançando azonto todas as quartas-feiras no Afrikiko. Para recarregar as energias, nada melhor que visitar as praias da costa ocidental (próprias para banho). E inevitavelmente adotar a moda local com os beads ou os símbolos nacionais, como o kente.

Praia de Akwiida, costa oeste de Gana.
Praia de Akwiida, costa oeste de Gana.

 

Tecido Kente, muito utilizado pelo povo Ashanti em festividades. Na foto, aquisições pessoais da associação de tecelães de Bonwire, vilarejo onde foi criado o Kente.
Tecido Kente, muito utilizado pelo povo Ashanti em festividades. Na foto, aquisições pessoais da associação de tecelães de Bonwire, vilarejo onde foi criado o Kente.
Loja de beads na indústria de produção do povo Krobo. Beads são feitos de vidro reciclado, seguindo uma refinada técnica manual de fusão e pintura.
Loja de beads na indústria de produção do povo Krobo. Beads são feitos de vidro reciclado, seguindo uma refinada técnica manual de fusão e pintura.

Sobre ser Obroni

Comecei este post com uma frase muito comum aqui em Gana. Obroni significa estrangeiro na língua local, Twi, e na maioria das vezes tem relação direta com o “ser branco”. Para quem se preocupa com o uso cuidadoso das palavras, em um primeiro momento torna-se muito desconfortável ser chamado de Obroni enquanto caminhamos na rua. Com o tempo, no entanto, aprendemos a perceber o valor do cumprimento e o seu papel de aproximação entre culturas e realidades tão distintas.

Não é fácil integrar-se em Gana, principalmente sendo mulher e solteira. Ruídos de comunicação, a idealização do estrangeiro e códigos sociais diferentes nos fazem construir com cuidado as relações com o outro. Como máxima de tranquilidade e teste de paciência, carrego sempre comigo minha aliança de casamento, gentilmente cedida por uma amiga. Busco relatar aos taxistas – companheiros diários de jornada – o quão feliz estou com minha família de dois filhos e marido. Podem até achar exagero meu, mas lhes garanto que já me salvei de insistentes e ousadas cantadas só por mencionar essa historinha esfarrapada.

Sobre percepções

Morar em um país diferente é muito mais que falar uma língua diversa da sua, fazer novos amigos, adotar novos estilos de cabelo e roupa e conhecer outros padrões de gastronomia; é também entender a sua história. Um dos períodos mais marcantes que vivi em Gana foi a visita ao Castelo de Cape Coast, hoje museu da memória para um dos períodos mais sombrios da história que liga o Brasil e a África.

Assim como na ilha de Goré, no Senegal, o Castelo de Cape Coast abriga a porta do não-retorno, por onde os locais capturados eram embarcados para o Novo Mundo como escravos. Uma vez cruzada a “porta”, não mais seriam homens, mulheres, membros da comunidade, pessoas com uma história e família, mas objetos, propriedade daqueles que um dia acreditaram ser porta-vozes da civilização. Não há palavras para descrever o quão devastador foi pra mim saber que naqueles porões úmidos e sem janelas, homens e mulheres eram “ amontoados”, violados, sujeitos à fome e sede, à violência, todos os dias. Por séculos, não mais pessoas, mas escravos aguardavam a “porta”.

Porta do não-retorno do Castelo de Cape Coast.
Porta do não-retorno do Castelo de Cape Coast.
Farol de Cape 3 Points, o ponto mais ao sul de Gana, com latitude 0, longitude 0 e altitude 0, portanto perto de lugar nenhum
Farol de Cape 3 Points, o ponto mais ao sul de Gana, com latitude 0, longitude 0 e altitude 0, portanto perto de lugar nenhum

Essa memória me ajuda a compreender que todos os dias, aqui, sou uma visitante. Uma visitante que quer valorizar as potencialidades e buscar enxergar Gana na sua beleza. É esta beleza que buscarei mostrar nos meus textos aqui no Brasileiras pelo Mundo. Sigo nesta terra há um ano e meio, cheia de descobertas inusitadas e de quebra de estereótipos, mas acima de tudo construindo um crescente respeito pela cultura local e por este povo tão querido e resiliente.

Espero que tenham gostado desse pedacinho da minha experiência ganense e que curtam as próximas histórias!

 

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19 comentários

Claudinha Julho 2, 2015 at 9:39 am

Adorei seu post, Lorena! Muito bom! Continue contando suas experiências! 🙂

Resposta
Lore Julho 7, 2015 at 6:23 pm

obrigada! foi um desafio o primeiro post 🙂 mas tenho muitas outras histórias para os próximos. continue acompanhando!

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Thais Cunha Julho 4, 2015 at 2:28 am

Achei que eu era a única doida que carregava quilos de absorventes na mala!! Adorei!!

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Lorena Braz Julho 7, 2015 at 6:27 pm

hahaha pois é Thais. logo antes de viajar eu não tinha a menor idéia do que encontraria, principalmente em termos de toiletries. A minha mãe é testemunha da quantidade de coisas que eu trouxe na mala entre sabonetes, desodorantes, remédios. e ainda hoje, assim que tenho oportunidade, recarrego o estoque. da última vez que um amigo veio me visitar, os itens obrigatórios foram desodorante, escova de dentes e lapis de olho! mais pacotes de absorventes eu trouxe da minha recente viagem da semana passada. so depois de passar cinco meses no meio do nada, meu amigo entendeu meu pedido 🙂

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Igor Braz Julho 4, 2015 at 6:10 pm

É sempre bom conhecer um pouco mais da rotina dessa minha irmã desbravadora. Muito bom o artigo 😉

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Lorena Braz Julho 7, 2015 at 6:28 pm

que bom que gostou cabeça. siga as próximas, os temas são bem legais 😉

Resposta
Lorena Braz Julho 7, 2015 at 6:29 pm

que bom que gostou cabeça. siga as próximas, os temas são bem legais.

Resposta
Erika Martins Carneiro Julho 6, 2015 at 2:42 am

Obrigada, Lorena, por esse texto tão sedutor! Dá vontade de saber mais! E eu também carrego um monte de absorventes para onde quer que eu vá, hehe, que bom que somos muitas assim.

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Lorena Braz Julho 7, 2015 at 6:30 pm

obrigada Erika. só nós mulheres para entendermos o quão essenciais são essas coisas!

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Luana Bacci Agosto 25, 2015 at 12:01 pm

Oi Lorena, acabei de voltar de uma viagem a Tanzania, minha primeira ida a Africa. Estou ainda digerindo tudo que vi por la e logico que estou ansiosa pra ler sobre a sua experiencia.

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Solange monte Julho 24, 2016 at 10:48 am

Lorena estou pensando em explorar mais essas cidades d África pois trabalho com turismo exatamente conhecer coisas diferentes disque já é comum. Vou te passar me e-mail assim te explico melhor

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Maria Antônia da Silva Agosto 7, 2016 at 9:55 pm

Oi, Lorena! Sou brasileira e sou noiva de um ganês. Aprendi muito sobre Gana com um brasileiro, professor de Português que foi lecionar a serviço da Embaixada. Dê uma olhada no blog dele. http://schaumloeffel.net/blogs_antigos/ghana/ghana.htm

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Julia Dezembro 5, 2016 at 5:13 pm

Olá, Lorena, adorei o texto! Estou pensando em ir à Gana em fevereiro de 2018 e até começar a ler alguns textos de outros blogueiros nunca tinha ouvido falar do Hamattan. Vi que você chegou em janeiro e é mais ou menos nessa época que ele ocorre. Vc acha que isso prejudica muito a viagem? Ficaria somente o mês de fevereiro e talvez um pouco de janeiro. Agora estou meio com um pé atrás apesar de estar adorando os relatos do país.

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Ann Moeller Dezembro 6, 2016 at 10:20 am

Ola Julia, A Lorena não colabora mais com o BPM e já não mora mais no Gana. Equipe BPM

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Renata Lumi Novembro 19, 2017 at 2:28 pm

Oi Lorena!
Gostei muito do seu relato! Vou visitar Gana em fevereiro para um trabalho voluntário. Provavelmente terei um dia livre em Accra e gostaria de saber como você foi para o Castelo de Cape Coast. Foi sozinha? Algum guia turístico/excursão de 1 dia?

Agradeço muito se tiver qualquer ajuda ou sugestão!
Obrigada!
Renata

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Liliane Oliveira Novembro 19, 2017 at 4:24 pm

Olá Renata,
A Lorena Braz parou de colaborar conosco e, infelizmente, não temos outra colunista morando no país.
Obrigada,
Edição BPM

Resposta
Humberto freitas Janeiro 28, 2018 at 10:01 pm

Estou a pensar visitar o gana. Alguém sabe se é possível o visto no aeroporto de accra? Pelo o que lê sim , mas vi um português a dizer que foi com a intenção de pedir o visto no aeroporto e acabou preso

Resposta
Liliane Oliveira Janeiro 29, 2018 at 2:22 pm

Olá Humberto,
A Lorena Braz parou de colaborar conosco e, infelizmente, não temos outra colunista morando no país.
Obrigada,
Edição BPM

Resposta
Marcelo Lopes Dezembro 21, 2018 at 1:17 pm

Parabéns! como importante conhecer e desvendar outras culturas. O “leque” de possibilidades do ser humano é imenso! Inexplicável as pessoas que pensam ser “absolutas” em alguma coisa …

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