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Gana – Sobre a bolha e socialização

Falando com um amigo esta semana, lembrei-me de certa dificuldade que tive ao mudar de Roma para Gana. Ele também me disse o mesmo, é sempre mais difícil desapegar de tanta beleza. Também, pudera, ninguém resiste aos teatros, museus, bares, restaurantes, praças e parques romanos.

Mas, para a minha surpresa, depois de quase dois anos morando em Acra, posso dizer que, apesar das limitações e da falta de diversidade, podemos nos divertir tanto quanto ou até mais por aqui.

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Domingo de futebol no Accra Sports Stadium, assistindo Gana x Mauritius para qualificações ao Campeonato Africano das Nações 2017. Uma das melhores maneiras de entender a paixão dos ganenses pelo esporte e conviver como uma única voz a favor dos Black Stars. 

Outra paixão nacional é a música. Já começo com referências de inspiração. Aqui vemos grandes cantores em um vídeo que retrata a beleza local. We are one Africa: Davido, Tiwa Savage, Sarkodie, Lola Rae, Africa Rising.

Para quem não conhece, um dos ritmos obrigatórios em Gana é o azonto, que mistura movimentos de joelhos e cintura. A dança do azonto tem origem na dança tradicional Kpanlogo, típica de comunidades indígenas de Acra. Algumas referências para quem se interessa: Sarkodie, Fuse ODG e Wizkid.

E a minha favorita. Johnny, da Yemi Alade:

Para curtir um azonto e dançar salsa é só bater ponto toda quarta-feira no Afrikiko Leisure Center. Dançar é de graça e aberto para todos os níveis. Não sabe azonto, improvisa um samba-axé que você vai ser feliz. Ou então, acompanhe a coreografia, um dos momentos mais divertidos da noite.

Coreografias clássicas toda quarta-feira no Afrikiko, ambiente super democrático com todos os níveis de dançarinos. Vídeo do querido amigo Julio Worman.

Eu morei em Brasília por muitos anos e sempre curti o Café Balaio, na Asa Norte. Fiquei feliz de encontrar o “Balaio” de Acra, o Republic. É uma cena mais alternativa e com shows ao vivo, interação ao ar livre e bebidas feitas com vinho de palma local. Aqueles que gostam de baladas mais internacionais curtem o Firefly; aliás, um amigo cujo-nome-não-cito bate ponto lá toda sexta – mas não é meu favorito, definitivamente. Aliança Francesa é seguramente uma ótima opção cultural, com várias apresentações musicais e artísticas ao longo do ano, além de ser um espaço aberto bem agradável. Curte jazz? +233 é certamente o lugar. Tem vários outros, vale a pena explorar.

Dois locais que levarei para sempre em minha memória como os mais divertidos: Labadi beach e Epo Spot. O primeiro, praia lotada aos domingos, música alta competindo entre os bares, a galera envolvida em competições de dança, andando a cavalo (!) e curtindo a praia. O segundo é destino certo em dia de futebol, copa do mundo ou de madrugada se tiver com fome depois da balada. Em comum, muito mas muito barulho – imagine várias caixas acústicas competindo entre si ao som de azonto, que por si só possui uma batida bem forte. Acho que são bons locais para entender um pouco mais do estilo de vida ganense, além da relativa segurança que oferecem.

Sobre a bolha

Como em qualquer processo de adaptação a uma nova vivência no exterior, a socialização leva algum tempo – e em geral está ótima quando você está indo embora. Em alguns lugares é mais fácil do que em outros. Em Acra é muito tranquilo, todo mundo quer fazer novos amigos – e você vai cruzar com rostos familiares frequentemente, vai dividir um táxi com recém-chegados e convidar para um churrasco no domingo (sim, já fiz isso), vai ser convidado para uma festa de aniversário de alguém que você nunca viu (mas tá valendo, é o programa do fim de semana) e assim ampliando sua rede. Acra tem ares de cidade pequena e, portanto, as dinâmicas sociais também são similares. Todos se conhecem. Em geral, dentro da bolha expat.

Ainda existe, no entanto, uma barreira grande entre o expat e o ganense. Não é muito fácil integrar-se às dinâmicas mais locais. E inevitavelmente aqui, nós, expats, somos classe alta, média-alta, elite, burguesia, nobreza etc. Comemos em restaurantes de grã-fino (tá bom, às vezes a gente vai naquele local, de carinha média e limpinho, ali em Osu), gastamos o salário de um funcionário de banco naquele jantarzinho no restaurante francês que abriu – mas que não custa nada porque, afinal, é bom variar de vez em quando. Ou seja, frequentamos a média sociedade ganense (certeza de que alta é bem mais alta) e como tal, muitos dos ganenses que conhecemos estão em uma situação econômica muito melhor do que a maioria e muitos estão também retornando a Gana após crescerem na Europa ou EUA.

Esse conflito faz nos refletir sempre sobre a desigualdade histórica e a inversão de papéis, na esperança de buscar um maior equilíbrio entre dois mundos tão distintos. Mundos esses que vão além do dualismo expat x local, e que confrontam quem somos no nosso país de origem a quem somos em um país ainda mais desigual. Porque aqui não tem classe média, não tem preços razoáveis, não tem níveis de moradia mais ou menos. Falamos de extremos e somos os extremos – os pobres e os ricos – ainda que não queiramos admiti-lo…

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1 comentário

Lorena Novembro 1, 2015 at 1:11 pm

Olá xará, como vai? Estava aguardando ansiosamente por uma nova postagem sua!
Esse ano é meu ano de vestibular. No entanto, ainda estou pensando no que prestar, sendo uma das minhas opções RI, mas ainda tenho muitas dúvidas sobre o curso. Vc poderia me ajudar?
Beijos,
Lorena.

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