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5 diferenças entre morar no Japão e nos Estados Unidos

5 diferenças entre morar no Japão e nos Estados Unidos

Quando deixei Belo Horizonte e me mudei para Tóquio, em 2004, eu vivia de olhos arregalados. Era tanta coisa para admirar, entender, absorver, que demorei a sentir saudades do Brasil.

Treze anos depois, em março deste ano, lá estava eu dando adeus ao Japão e chegando, de mala e cuia, aos EUA. E adivinhem? Eu me sinto daquele jeitinho de quando desembarquei na capital japonesa! Tudo voltou a ser novidade e tenho de reaprender as coisas mais básicas do cotidiano.

Se já estou com saudades do Japão? Ainda não! Mas isso não significa que eu goste mais daqui. Ou de lá. Ou do Brasil. Comparo sim, não tem jeito, mas adoro os três países e procuro desfrutar o que cada um tem de melhor.

Neste post, a convite do BPM, conto as diferenças que mais me chamaram a atenção até agora entre morar no Japão e nos EUA. Não se esqueçam de que ainda estou em “lua-de- mel” com a terra do Tio Trump, e de que o meu “casamento” com o Japão beirava a treze anos de relacionamento.

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1 – Diversidade

Esta é, talvez, a diferença que mais me encanta! Confesso que adorava me sentir especial no Japão. Graças aos meus traços ocidentais, era nítida a minha condição de forasteira e isso me dava alguns privilégios. Por exemplo, embarcar no trem-bala errado, e depois de uma hora e meia de viagem, desembarcar e pegar outro para o destino correto, sem ter de comprar uma nova passagem.

Minha autoestima subia até as nuvens quando os japoneses perguntavam se eu era modelo, só pelo fato de eu ser “alta” (isso quando eu ainda era jovem e magra). Eles viviam elogiando o meu nariz (que nunca havia sido elogiado até então), os meus olhos “grandes”, as minhas pernas longas e dizendo que eu era bonita.

Descobri depois que, para eles, os ocidentais são quase todos iguais e bonitos. Eu quase sempre me destacava na multidão, pois até os meus amigos e colegas de trabalho brasileiros tinham cara de japonês. As pessoas se interessavam pela minha vida, às vezes me cansava contar pela enésima vez de onde sou, o que eu fazia no Japão, como eu havia aprendido a falar japonês e por aí vai.

Aqui, esse “brilho” se apagou. Sou uma pessoa qualquer, apenas uma entre milhões de imigrantes. Passo despercebida, a menos que eu abra a boca e revele o meu sotaque brasileiro, claro. Apesar de saber que não sou mais “especial”, estou muito feliz com a diversidade daqui.

Se por um lado, os japoneses me achavam bonita e diferente, no Japão eu não encontrava facilmente roupas e calçados do meu tamanho, nem do meu estilo. Os cabeleireiros não sabiam lidar com os meus cabelos, as manicures ficavam decepcionadas porque eu preferia um esmalte básico a unhas decoradas com penduricalhos, e as minhas amigas locais achavam estranho eu não depilar os braços (não estou falando de axilas, mas de antebraços). Parece futilidade, eu sei, mas o fato é que eu não me encaixava no padrão daquela sociedade tão homogênea e isso dificultava o meu dia-a-dia. Pouco mais de 1% da população do Japão é formada por estrangeiros e boa parte dos imigrantes são asiáticos.

Temos de adaptar não apenas o nosso comportamento – falar baixinho, para citar um exemplo –, mas também os nossos gostos que costumam ser totalmente diferentes. Que o diga a comida! Às vezes, dava vontade de chorar ao procurar um simples pão. As “atrações” da padaria eram pão com recheio de espaguete ou de curry, uma batata cozida inteira sem sal dentro do pão e outros ingredientes como feijão doce e ovas de peixe.

Nos EUA, mais de 13% da população é imigrante. Aliás, como todo mundo sabe, os próprios americanos são descendentes das mais variadas nacionalidades. Existe todo tipo de gente e, consequentemente, roupas e calçados de todos os tamanhos e estilos. Cabelos de todos os tipos. Gostos dos mais variados. Voltei a ser normal, ufa! E o mais importante: o governo e a sociedade estão acostumados a lidar com estrangeiros. Fiquei surpresa e encantada ao receber junto com o meu visto de residente, num português muito bem escrito, o chamado “Bem-vindo aos Estados Unidos – Guia para Novos Imigrantes”. Não me lembro de ter visto algo do tipo no Japão.

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Existem os racistas e os nacionalistas radicais, sim, como em praticamente todo lugar, mas ser imigrante é a coisa mais normal do mundo aqui. Sei que para trabalhar no governo é preciso ser americano, mas não acredito que haja tantas restrições como no Japão, onde muitas imobiliárias simplesmente não alugam imóveis para estrangeiros. Um país onde ainda existem estabelecimentos comerciais que só aceitam clientes/hóspedes japoneses.

Lembrando a minha condição de recém-chegada e o fato de eu conhecer apenas um pedacinho deste país gigantesco, não ouso afirmar que isso não aconteça em terras americanas, ainda mais na “Era Trump”. Mas, só o fato de se tratar de uma sociedade heterogênea, acredito, faz com que as pessoas sejam mais acostumadas e tolerantes às diferenças. E, pelo que parece, elas não ficam caladas ao sentirem-se lesadas apenas por serem quem elas são.

2 – Comportamento

Depois de tantos anos, acabei me acostumando ao jeito japonês de ser. Dificilmente, eles puxam papo com estranhos, pedem informação ou fazem aqueles comentários típicos de elevador. Nem mesmo num bar! Nas ruas e no metrô de Tóquio, o que mais me estressava era as pessoas sequer pedirem licença para passar ou se desculparem quando esbarravam nos outros. Obviamente, há exceções. E nas cidades pequenas, como de costume, as pessoas são mais faladeiras. Mesmo assim, o choque é grande.

Aqui, vira e mexe, alguém fala “tenha um bom dia”, comenta sobre o tempo, pede informação… No começo, eu tomava um susto e mal conseguia responder. Outro dia, um senhor no supermercado me perguntou se eu sabia onde estava a carne de búfalo. Pensei: “Nem sabia que se comia carne de búfalo!” Mas disfarcei minha cara de mal informada e tentei ajudá-lo.

As mulheres vivem elogiando meus vestidinhos brasileiros. Até quando passei pelo detector de metais, no aeroporto, a oficial da imigração comentou: “A propósito, seu vestido é lindo”. Na fila de um museu em Washington, depois de duas horas de espera, todo mundo parecia amigo. Até eu fiz “amizade”. Nos supermercados e farmácias, os atendentes perguntam se encontramos tudo o que procurávamos e nos desejam um bom dia ou uma boa noite. Nada disso é comum no Japão. Por isso, me traz tanta alegria e me remete ao Brasil. Sinto que estou voltando a ser quem eu era lá em Beagá: uma pessoa que adora bater papo.

3 – Tamanho

Quando pisei nos EUA pela primeira vez, em 2010, vindo do Japão, tomei aquele susto: meu Deus, como as ruas são largas! Tem calçada (no Japão, muitas vezes não tem)! As porções de comida são enormes! Eram exclamações o tempo todo. Eu estava em Nova York e dois episódios me marcaram. Minha primeira refeição foi um macarrão que, juro, levei três dias para comer! Minha anfitriã explicou que eu não precisava comer tudo no restaurante e podia levar o resto para casa – coisa que ninguém faz no Japão. Levei. Comi no dia seguinte. Sobrou. Comi mais um pouco no terceiro dia. Sobrou. Joguei o resto no lixo. Estava uma delícia, mas eu não queria passar a viagem inteira comendo o mesmo prato.

No segundo episódio, eu estava sozinha. Pedi uma fatia de pizza e um refrigerante pequeno. Quando recebi aquele copo enorme, fiquei chateada. Era a prova de que meu inglês estava ruim ao ponto da moça não me entender. Voltei lá e expliquei: “Desculpa, eu pedi um refrigerante pequeno”. Ela respondeu: “Este é o pequeno”.

Leia também: como é trabalhar numa fábrica japonesa

Hoje, meu susto é no supermercado. Quero comprar poucas unidades, mas eles vendem praticamente tudo em pacotes generosos. O pão-de-fôrma tem 15 fatias e tive de aprender a deixá-lo na geladeira para não jogar a metade no lixo. No Japão são, no máximo, oito fatias. Lá tem de seis e até de três. Aqui, é mais econômico comprar 50 asinhas de frango, do que dez. Então o jeito é congelar. No Japão, eu reclamava do contrário: as embalagens de carne, por exemplo, eram pequenas demais. Eles vendem banana em unidade (ou pencas com poucas bananas), os copinhos de iogurte são literalmente “inhos”. Entendo que para quem mora sozinho, o jeito japonês de vender é conveniente. E acabei me adaptando a ele. Agora, eu entendo que o jeito americano é mais prático e econômico e estou aprendendo a tirar proveito dele.

4 – Espaço

No Japão, morei durante dois anos numa quitinete de 19 metros quadrados. Até eu me acostumar àquele espaço tão limitado, meus joelhos viviam roxos, de tanto trombar na mesa, e era comum eu bater a cabeça na porta do armário da cozinha. Aliás, na cozinha e no banheiro não caberia uma pessoa muito alta ou obesa. Eu, com meu 1,70m de altura, já me sentia grande demais lá. Era tudo muito fofo, eu adorava. Só faltava espaço. Mas gosto de ressaltar que nem todos os japoneses moram em cubículos. Eu mesma morei num apartamento de 59 metros quadrados (o que eu considerava grande) e num de três quatros e mais ou menos 100 metros quadrados. Tenho amigos toquiotas morando em apartamentos lindos e bem maiores, mas ainda assim são “apertados” se comparados às medidas americanas.

Os cômodos daqui em geral são mais espaçosos, e a gente sente a diferença especialmente na cozinha e no banheiro. Ah, e nos closets, que são raros no Japão. Que maravilha ter mais espaço para guardar roupas e sapatos! Não estou falando de milionários, obviamente. Há mansões no Japão, sim, e nem todas as construções lá são pequenas. O maior planetário do mundo, por exemplo, fica na cidade de Nagoya. Mas, no geral, tudo aqui é maior e mais espaçoso. Seja para quem dirige ou anda a pé. Seja para quem mora na cidade grande ou no interior. E sinto um conforto maior agora, ao me deparar o tempo todo com ruas largas, estacionamentos espaçosos, elevadores grandes, cozinhas com ilha e outras tantas coisas.

5 – Oportunidades

Tive a impressão de que aqui existem mais oportunidades de estudo e aperfeiçoamento profissional. Talvez, especialmente, pelo fato do idioma ser mais fácil – no meu caso e, arrisco a dizer, no de muitos outros brasileiros. Mesmo os meus amigos que dominam o japonês costumam achar mais fácil usar o inglês na hora de estudar ou trabalhar. Afinal, falar é uma coisa, escrever e ler aqueles ideogramas complexos é bem diferente.

Na minha área, por exemplo, encontrei várias coisas que eu nunca vi no Japão. Aqui, tem associação de professores de português, congressos, workshops e consegui ser contemplada com uma bolsa Integral da Universidade Estadual de San Diego para um treinamento específico para professores de línguas estrangeiras. São apenas 15 dias de curso, mas é totalmente gratuito e a Universidade ainda paga o transporte (de qualquer
ponto do país), hospedagem e refeições.

Leia sobre: Dá para morar no Japão sem saber japonês?

Uma ex-colega jornalista está escrevendo para o New York Times! Acho tudo isso muito animador e não me lembro de ter visto coisas parecidas no Japão. Sei das bolsas oferecidas pelo governo japonês, mas ainda assim, tenho a impressão de que aqui terei mais oportunidades. Bati um papo com um amigo ilustrador e designer gráfico que também morou no Japão e agora está aqui nos EUA para saber se eu estava certa. Ele, que fala japonês avançado (o meu é intermediário), pensa como eu: “O mercado fomenta inovação e aqui se encontram não só ótimas escolas, mas também materiais e ferramentas para se construir o que deseja. Para qualquer ramo profissional há uma comunidade disposta a encorajar e inspirar os iniciantes. Esta é a razão pela qual vim pra cá.”

Mas meu amigo também é recém-chegado e combinamos de voltar a falar deste assunto daqui a um ano. Será que mudaremos de ideia?

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14 comentários

Denise M Leme Julho 4, 2017 at 1:38 am

Histórias muito parecidas com as da minha família. Moramos na China por quase 12 anos e recentemente nos mudamos para os Estados Unidos. Interessante q temos percepção bem parecida sobre a Ásia e a América mesmo que o Japão e a China sejam bastante (muuuuito, na realidade) diferentes ainda me identifiquei muito com essa matéria. Ótima mesmo!!!

Resposta
Karina Almeida Julho 11, 2017 at 3:24 pm

Que bacana, Denise! Adorei saber que temos uma experiência parecida! E que você gostou do meu relato! Muito brigada!

Agora estou em dúvida se foi você quem deixou um comentário no Facebook ou se tem mais uma pessoa que morou na China e se mudou para os EUA e se identificou com o meu texto. Será? :p

Resposta
Bruno Jun Julho 5, 2017 at 12:00 am

Te acompanhava na Alternativa JP. Muito boa a sua matéria aqui, bem que eu estava sentido algo familiar no texto rsrs.

Resposta
Karina Almeida Julho 11, 2017 at 3:25 pm

Haha… Que legal! É sempre bom reencontrar os leitores! Obrigada 🙂

Resposta
Mariana Imperio Julho 5, 2017 at 2:08 pm

Gostei muito do seu texto. Espero que tenham mais textos contando sobre a vida onde está morando agora.

Resposta
Karina Almeida Julho 11, 2017 at 3:27 pm

Que bom! Muito obrigada 🙂
Já estou preparando mais um texto para postar aqui e estou sempre no Facebook e no Instagram, na Minha América e no Meu Japão. Passa lá:
http://www.facebook.com/blogmeujapao
http://www.facebook.com/minhaamerica
Instagram: @meujapao_minhaamerica

Resposta
Raquel Wan Julho 5, 2017 at 9:01 pm

É maravilhoso poder colecionar essas experiências em lugares tão diferentes, colher o melhor que há aqui e ali, aprender a se adaptar e a se readaptar. Tenho certeza de que você será muito feliz aí, como também foi no Japão! Com Trump ou sem Trump.

Resposta
Karina Almeida Julho 11, 2017 at 3:28 pm

Rakeru-san! Que saudade! E que honra ter um comentário seu aqui! Amei! Muito obrigada!
Quem sabe você vem me visitar? Agora está mais perto! Um beijo bem grande!

Resposta
Eric Ohtake Julho 14, 2017 at 5:39 am

Karina, como sempre, excelente texto e perspectiva. Eu endosso tudo o que falou sobre o Japão e após 3 anos vivendo aqui, muitas das coisas que você já falava há alguns anos nos blogs, faz muito sentido pra mim agora. Espaço e comportamento são hoje as pedras no meu sapato, mesmo que existam milhares de outras coisas que adoro por aqui. Visitar os EUA depois de viver aqui tem se demonstrado sempre um contraste positivo e agradável. Como é bom ter outro ser humano interagindo com você no dia a dia por livre e espontânea vontade! Muita sorte e sucesso por aí!

Resposta
Alice Agosto 28, 2017 at 9:59 pm

Nossa assustei de tão parecidas nossas histórias! O japão foi uma ótima fase na minha vida, mas assim também agradeço por experimentar o oposto, como na Itália as pessoas podem ser abertas, extrovertidas.

Resposta
Lil Kan (Gustavo Roque) Março 27, 2018 at 7:11 pm

Eu vi esse post em meu trabalho, enquanto tinha um horário livre. Já pensei em ir aos EUA, mas JP me chama bastante a atenção. Com já, meus 17 anos de idade, quero aprender na íntegra sobre a cultura Japonesa.
Poderiam me dizer se aí no Japão, aceitam estudantes e, se caso tiver uma boa formação, poderiam nos naturalizar? Gostaria muito de ter um visto neste país, e se possível, morar lá.
Desde já agradeço,
e muito obrigado por tudo.

Resposta
Liliane Oliveira Março 28, 2018 at 1:42 am

Olá Gustavo,
A Karina Almeida parou de colaborar conosco, mas temos outras colunistas no Japão que talvez possam te ajudar.
Você pode entrar em contato com elas deixando um comentário em um dos textos publicados mais recentemente no site.
Obrigada,
Edição BPM

Resposta
Bárbara Dezembro 7, 2018 at 1:46 pm

Oie! Tudo bem? Me mudei esse ano para o Japão (primeiro por 3 meses, e agora por mais 5) e ler seu relato foi como se fosse eu mesma descrevendo! Muito legal o seu post, adorei! Beijos

Resposta
Lourenço Marinho Janeiro 22, 2019 at 6:48 pm

久しぶり! Eu morei no Japão praticamente na mesma época em que você morou por lá também, e adorava ler suas matérias, um dia desses eu pensava ” por onde anda a jornalista que escrevia sobre o Japão? RS como sempre você arrasa. Obrigado .

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