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Os armênios e os espaços públicos

Os armênios e os espaços públicos.

Desde que chegamos na Armênia, eu fiquei muito impressionada observando a relação dos armênios com os seus espaços públicos. Em Yerevan, que é a capital e maior cidade do país, os cidadãos têm um jeito muito interessante de ocupar praças e ruas, e isso fica ainda mais evidente quando o inverno vai embora e o clima de primavera toma conta da cidade. Isso não significa que no inverno o povo simplesmente se recolha: a menos que esteja nevando muito, todo mundo gosta de ir pra rua e ficar conversando, fumando, andando de hoverboard e ocupando os espaços que são deles de direito.

Antes de vir pra Yerevan, eu morei no Rio de Janeiro (onde nasci e cresci) e em Brasília (onde passei 2 anos da minha vida entre as idas e vindas semanais pro Rio, por conta dos estudos). No Rio, o medo da violência e a falta de segurança pública sempre me deixaram amedrontada de sair e ficar até tarde na rua, ou mesmo de andar tranquilamente durante o dia, porque os assaltos podem acontecer também enquanto o sol brilha. No Rio, a praia é de fato um ponto de encontro que reúne muita gente, mas não dá pra cruzar a cidade inteira a pé com tranquilidade (em muitos sentidos) e nem mesmo curtir a praia sem se preocupar com um furto.

Em Brasília, eu sentia um pouco mais de liberdade porque me sentia um pouco mais segura do que no Rio, e podia até mesmo dirigir à noite sozinha caso fosse necessário (coisa inimaginável pra mim, no Rio), mas a capital federal não é exatamente uma cidade de fácil ocupação dos espaços públicos, já que há necessidade constante de pegarmos carros pra cruzar os eixos e tesourinhas. Talvez seja por isso que o Eixão fique tão cheio aos domingos, quando o tráfego de carros é interrompido para que as pessoas possam correr, andar de bicicleta e patins, e se divertir.

Você pode até estar me achando uma pessoa muito medrosa lendo estas linhas, e talvez eu até seja, embora eu prefira me definir como cuidadosa; a verdade é que eu não gosto de “dar sopa para o azar”, e eu aprendi a viver em vigilância constante. No Rio, a gente aprende a “não dar mole” desde pequeno, que é pra voltar pra casa com todos os documentos, com o celular, com o carro, a ter sempre em mãos o dinheiro do ladrão – mas, principalmente, voltar pra casa vivo.

Leia mais: Hábitos que adquiri na Estônia 

Já comentei por aqui que Yerevan é uma cidade extremamente segura, ao ponto de as pessoas contarem seu dinheiro no meio da rua, sem medo de serem assaltadas. É tão seguro que o documento amplamente aceito para abrir uma conta no banco ou contratar um plano de TV e internet por assinatura é o passaporte; você já se imaginou andando com seu passaporte o tempo inteiro na sua cidade? Pois é, eu não. Do mesmo modo que tudo isso me impressiona e eu ainda acho esquisito, percebo que gosto tanto de observar a relação dos armênios com os espaços públicos por ter morado nesses 2 lugares tão diferentes de Yerevan, que tinham suas restrições naturais à ocupação pública.

Yerevan é uma cidade cheia de praças e são esses os espaços públicos onde as pessoas mais se concentram e se reúnem, principalmente nos dias de sol. A Praça da República, por exemplo, que fica com sua enorme fonte ligada desde o final da primavera até o começo do outono, vive lotada de pessoas que sentam nos seus bancos para botar a conversa em dia, fumar um cigarro, ou simplesmente observar o movimento. Já durante o inverno, a Praça da Liberdade e o parque do Lago do Cisnes se transformam no palco de uma enorme pista de patinação no gelo, que fica cheia de gente todos os dias da semana. Isso sem falar na Northern Avenue, que é uma rua exclusiva para pedestres e que sempre concentra muita gente, mas que fica agitada mesmo quando a noite cai, e também aos finais de semana.

O mesmo acontece em Gyumri, que é a 2ª maior cidade da Armênia: fomos visitar a cidade num sábado de inverno e, mesmo com a neve que insistia em cair e pintar a cidade de branco, os calçadões e praças estavam lotados de gente aproveitando o dia.

Além dessa ocupação dos espaços públicos como praças e parques, desde o começo da primavera até o final do outono (praticamente) todos os restaurantes, bares e cafés da cidade montam suas mesinhas nas áreas externas e calçadas, e ficam lotados. Do final do mês de abril até o começo do mês de outubro, é raro que alguém escolha ficar do lado de dentro de um restaurante ou café, se houver a opção de sentar-se às mesas externas, super agradáveis. Mesmo com 42ºC no meio do verão, é sob o sol e aproveitando o calor que os armênios querem ficar!

Na Armênia, é sempre fácil encontrar atividades culturais por preços muito acessíveis, ou até mesmo gratuitas. Naturalmente, os eventos, concertos e balés na Ópera estão sempre lotados, mas a diversão não se limita ao espetáculo: quando as apresentações acabam, as ruas viram uma verdadeira festa, com todas as pessoas aproveitando pra continuar a diversão noite a dentro.

Pra mim, tem sido muito interessante observar todas essas coisas. Eu sei que não vou morar aqui pra sempre, e não sei pra onde vou depois, mas tenho certeza de que há poucas capitais no mundo em que é possível viver num ritmo tão tranquilo (mas também festeiro), caloroso e seguro como Yerevan. É por isso que eu aproveito bem feliz enquanto cá estou!

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