Educação Infantil na Escócia

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Uma das minhas primeiras preocupações quando cheguei na Escócia, era matricular meu filho de 3 anos e meio na escola.

Crianças a partir de 3 anos de idade podem frequentar o jardim de infância das escolas públicas primárias (nursery), ou a partir de 2 anos e meio em casos especiais. Antes disso, se você tiver filho pequeno e quiser algum tipo de creche, tem que apelar para nurseries/escolinhas particulares ou para os famosos playgroups, mais informais. Alguns playgroups em Edimburgo são tão disputados que possuem fila de espera de anos, e as mães costumam inscrever-se assim que descobrem que estão grávidas.

Uma curiosidade é a curta duração da creche e pré-escola, de apenas 3 horas por dia. Para quem não tem família por perto, fica muito difícil coordenar trabalho e cuidados com os filhos. A maioria dos pais e mães que trabalham fora contam com ajuda de parentes ou complementam a escola com playgroups para conseguirem mais horas livres para trabalhar.

Outra alternativa é colocar a criança em uma creche particular, onde se paga (caro) por hora.

Todas, públicas ou particulares, seguem o mesmo padrão: salas divididas em áreas de temas/descobertas e livre-brincar.

Não há muita rotina, as crianças fazem o que querem dentro da sala, em um esquema que me lembra muito o das escolas Waldorf no Brasil. Uma das professoras me disse que, antigamente, cada escolinha definia o seu jeito, mas que agora todas devem seguir o Currículo para Excelência, implementado pelo governo e que define como deve ser a educação dos 3 aos 18 anos.

Para os pequenos significa livre-brincar, rotina desestruturada, máximo de tempo ao ar livre e aprendizado ativo, ou seja, através do brincar e direcionado pelos interesses de cada criança. Não existem tarefas durante os anos pré-escolares, e o dia-a-dia das crianças é basicamente brincar livremente. As professoras não passam lições, apenas estimulam a curiosidade da criança com coisas que percebem ser do interesse dela.

 

O que me surpreendeu, na escola do meu filho, foi o esquema de adaptação: as professoras marcam um horário e vêm na casa da criança brincar com ela, conversar, fazer amizade.

Assim, quando a criança chega na escolinha, já conhece as professoras e já as considera amigas. Não sei se são todas assim ou se esta escola consegue fazer isso por ter poucos alunos.

Durante a transição para a primeira série são organizadas visitas das futuras professoras à salinha da pré-escola, no final do ano escolar, para conhecerem seus futuros aluninhos e interagirem com eles, que também passam um tempo brincando na futura sala de aula. Assim, quando vão para o primeiro dia de aula, já conhecem tanto o ambiente quanto as professoras, o que ajuda muito na adaptação.  Isso acontece mesmo quando a criança for mudar de escola. As professoras vêm lá da outra escola visitar e recebem a visita da criança também.

A rotina desestruturada foi uma das coisas que meu filho estranhou. Ele estava acostumado, no Brasil, a ter uma rotina na escolinha: tinha hora para tudo e as professoras estavam sempre junto, direcionando as atividades, interagindo e brincando junto. Na nova escolinha escocesa, cada um chega e se ocupa livremente com uma das inúmeras atividades disponíveis, espalhadas pelo espaço, e as professoras não interferem muito. Exceto nas horas de ler um livro, de coordenar o lanchinho ou de propor uma brincadeira específica, elas ficam mais afastadas, fazendo anotações, batendo fotos, observando as crianças.

Na lista de coisas para levar diariamente, ou deixar lá, algo diferente do Brasil: sapatos para usar na sala. As crianças não usam o mesmo sapato dentro e fora da sala. Assim que chegam na escola, elas precisam trocá-los por sapatos mais macios, quase umas pantufas. E quando vão para o jardim, elas trocam por tênis ou botas.

Outro item indispensável: roupas de chuva e botas. Porque não importa a chuva ou o vento forte (e que vento!), as crianças brincam fora todos os dias, pelo máximo de tempo possível. Elas também têm excursões regulares à praia, ao bosque, a qualquer lugar de natureza, onde fazem caminhadas, lanches ao ar livre e brincadeiras. Isso de ter bastante contato com a natureza faz parte do Currículo para Excelência e todas as escolas do país seguem.

Algo interessante é que a escola pública é tratada como tal, ou seja, como das pessoas, e não como do governo. Existe todo um envolvimento da comunidade, e os pais são incentivados a participar como voluntários, ajudando a cuidar da biblioteca, a preparar os lanches e coisas assim.

Periodicamente são organizados mutirões para cuidar da escola. Os alunos mais velhos pintam as paredes, cuidam da horta, entre outros. Os alunos pequenos, como os da nursery do meu filho, saem com as professoras em excursão à praia enquanto pais e mães voluntários fazem trabalhos de manutenção. E não é por falta de verba, como pensaríamos no Brasil. Faz parte da mentalidade escocesa não gastar com o que se pode fazer por conta.

Além disso, as crianças cuidam melhor da escola quando ajudam na manutenção da mesma. E também é uma maneira bacana de as famílias se conhecerem melhor.

Eu me surpreendi positivamente com a pré-escola daqui. É tudo muito simples, mas muito acolhedor. Adoro saber que meu filho passa muitas horas ao ar livre quando está na escola.

Uma consequência disso é que ele não aceita mais ficar dentro de casa só porque está chovendo, ou ventando ou nevando…

E a mamãe aqui está sendo obrigada a se adaptar ao modo de vida escocês, que consiste em viver feliz no vento, basicamente. E na chuva. Mas, disso eu falo outra hora!

3 Comentários

  1. olá,
    adorei seu post, acabei de chegar em Glasgow e procuro um jardim de infância para minha filha. você pode dar algumas dicas de como você fez para conseguir uma ( sites , tec etc). bjs obrigada

  2. Parabéns pelo post, Anelise.

    Estou prestes a ser transferido para Aberdeen e tem um tema que me tira um pouco o sono: Educação.

    Minha filha tem 7 anos e está no espectro autista. Como funciona a educação na Escócia? Aí é praticada a educação inclusiva, onde alunos com necessidades especiais estudam em classes regulares com os demais alunos?

    Ou existem escolas específicas para crianças com necessidades especiais?

    Se sim, essas escolas são públicas também?

    Abraço.

    • Olá Bruno!
      A Anelise Kaminski parou de colaborar conosco, mas temos outras colunistas na Escócia.
      Você pode entrar em contato com elas deixando um comentário em um dos textos publicados mais recentemente no site.
      Obrigada,
      Edição BPM

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