Não se entende a Rússia com a razão, pelo jornalista Sandro Fernandes

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Não se entende a Rússia com a razão, pelo jornalista Sandro Fernandes, na Coluna do Clube do Bolinha.

“Não se entende a Rússia com a razão / não se mede com medidas comuns / Ela tem forma própria / Na Rússia pode-se apenas acreditar”, versos do poeta russo Fyodor Tyutchev.

Visitei Moscou pela primeira vez em 2008, bem no meio do congelante inverno russo. Fui com mais três amigos – um brasileiro, um francês e um inglês.

Lembro bem que os dois amigos europeus, em cada esquina, diziam: “Nossa! Olhem isso!”, “Caramba! Olhem aquilo”. Tudo era motivo de surpresa pros amigos do Velho Continente. Pra mim e pro outro amigo brasileiro, a frase mais repetida era: “Igualzinho ao Brasil”. Tudo nos fazia lembrar o país tupiniquim – das filas no banco ao transporte alternativo (van/kombi/perua se chamam marshrutka, aqui).

Depois de uma semana em Moscou, lembro ter dito: “Um dia vou morar nesta cidade”. Menos de um ano mais tarde, lá estava eu, no aeroporto de Madri, dando adeus aos meus quatro anos na capital espanhola e me mudando de mala e cuia pra Rússia. Fui parar em Moscou por amor (lembram o “amigo francês?”). O amor acabou, arrumei um outro amor e acabei me apaixonando pela cidade. E lá se vão quase seis anos de muito aprendizado…

Na Rússia, eu aprendi que “vodka com algo” é pecado grave. Vodka a gente toma pura. E depois, comemos algo e/ou viramos um copinho de suco.

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Na Rússia, eu aprendi o que significa frio. Lembro uma situação em que eu deixei a cerveja pra gelar na varanda enquanto eu tomava banho, como eu fazia na Espanha. Que inocência… Quando a temperatura exterior é de -20°C, o resultado não é uma cerveja estupidamente gelada. O resultado é cerveja congelada. Parece óbvio, mas não quando isso nunca havia feito parte da nossa vida.

Na Rússia, eu aprendi que o conceito de bom gosto é mais relativo do que eu imaginava. Papel de parede na casa toda? Por que não? E se o papel de parede for diferente em cada cômodo? Melhor ainda. E se o papel de parede tiver textura e brilho? Sensacional. E se colocarem um tapete pendurado na parede? Aí fica perfeito.

Na Rússia, eu aprendi que o conceito de comida apetitosa também é muito relativo. Já pensou um pastel de repolho? E gelatina de carne? E se absolutamente todos os pratos viessem com endro (também conhecido como aneto ou dill)? Não sabe o que é isso? Eu também não sabia antes de me mudar para a Rússia. É uma erva. Agora eu uso endro todos os dias, na expressão “без укропа, пожалуйста (sem endro, por favor).

Na Rússia, eu comprovei que uma mentira contada várias vezes vira uma verdade – basta assistir à TV russa.

Na Rússia, eu aprendi que a burocracia brasileira nem é tão ruim. Aqui, até mesmo turista tem que se registrar num órgão governamental dizendo onde se hospeda. E depois exigem este documento em algum lugar? Não. Ora bolas.

Na Rússia, eu aprendi que a expressão “sangue latino” poderia muito bem se chamar “sangue russo”. Eu, que  achava que os russos fossem como os povos do Norte, acabei caindo num país que parece uma eterna novela. Isso aqui é “Santa Barbara”, como eles falam, em referência a uma novela americana da década de 80. Os russos são intensos, ciumentos, dramáticos, ciumentos, passionais… Já falei que são ciumentos? Todos eles parecem ter um livro de Dostoiévski dentro de si.

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Na Rússia, eu descobri que tenho urgentemente que assistir à novela Escrava Isaura. Sucesso por aqui, não tem conversa com brasileiro que não passe por este tema.

Na Rússia  aprendi que a corrupção não foi inventada no Brasil (ui, criei polêmica petralha x coxinha agora). Corrupção aqui envolve o dia a dia de um russo de uma maneira que nem mesmo o Brasil varonil conseguiria imaginar. Quer passar numa prova da faculdade? Todo mundo sabe quanto pagar e a quem pagar.

Na Rússia, eu percebi que  Brasil nem é tão grande. O território russo é exatamente o dobro do território brasileiro (isso sem contar a Crimeia anexada). E quando um russo fala que não mora longe de Moscou, você pode esperar mil km e 13 horas de viagem de trem. Logo ali.

Na Rússia, eu aprendi que é possível fazer uma revolução na educação. Vide a Rússia antes e depois da revolução (de 1917, com todos os seus poréns). Uma vez, fui tentar explicar a palavra “analfabetismo” pr’um russo. Que sufoco. “Alguém que não sabe ler e escrever? Como assim?”. Isso é praticamente inexistente na Rússia – ainda legado da União Soviética. Infelizmente, o governo Putin tem permitido a precarização dos sistemas de saúde e educação.

Na Rússia, aprendi que o direito das minorias pode ser usado cinicamente pelo governo de maneira meramente política. A recente lei anti-propaganda gay na Russia, por exemplo, que a mídia ocidental (com razão) tanto fala, é mais bem uma lei anti-Ocidente. Só que a população, no final das contas, acaba ficando cada vez mais intolerante.

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Na Rússia, eu aprendi que as estações do ano não começam no mesmo dia em todo o mundo. O verão começa dia 21 de dezembro no hemisfério sul e dia 21 de junho no hemisfério norte, correto? Nem sempre. Na Rússia, começa oficialmente no dia 1° de junho – com o inverno, consequentemente, começando dia 1° de dezembro.

Na Rússia, eu aprendi que patriotismo pode ser muito perigoso. Apoiado no discurso de defesa da (Mãe-)Pátria, é muito fácil manipular toda uma população, principalmente quando você tem a mídia ao seu favor.

Na Rússia, eu aprendi a valorizar coisas simples, como a luz do sol. Como passamos tantos meses do ano com o céu cinza, qualquer raio de sol já me faz abrir o sorriso mais sincero do mundo.

Na Rússia, aprendi que o Brasil nem é tão supersticioso. Bater na madeira e desvirar o chinelo? Isso é fichinha. Aqui, por exemplo, se alguém pisa o seu pé, você vai ser implorado pra pisar o pé da pessoa de volta. Tente não fazer isso e você entenderá a importância das superstições aqui na Rússia.

Na Rússia, eu aprendi que a gente só conhece bem um país indo e vendo com os próprios olhos. Generalizações só alimentam preconceitos. E preconceito sobre a Rússia é o que a gente mais tem. Nem tudo é tão bom como dizem. Mas nem tudo é tão ruim como dizem. Depois escrevo mais. Tenho que sair pra comprar caviar e dar comidinha pro meu urso de estimação. Skavurska

 

12 Comentários

  1. Adorei. Texto bem humorado, Feito pela otica de quem quer viver por muito tempo na Russia e que nao se incomoda com as idiossincracias de um povo movido pelos extremos da paixao. Ame ou odeie. Gostei muito e “quero mais”, Sandro.

  2. Texto sensacional Sandro! Amei.
    Aqui na Europa tenho algumas amigas russas e aprendi coisas bem interessantes com elas, mas não tanto quanto com o seu texto. Parabéns não só pelo texto como também por sobreviver ao inverno russo! 🙂

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