O sonho de morar fora do Brasil

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Eu, que pouquíssimas vezes saí do Estado onde nasci, um dia me vi fazendo as malas e partindo para a Inglaterra, sem ter a menor noção do que estava a minha espera.

Escrevendo esse texto me vem a lembrança de uma das várias conversas que tive com meu companheiro sobre o nosso latente desejo de residir num outro país. Desejávamos muito passar pela experiência de conhecer de maneira profunda uma outra cultura e sabíamos que isso só seria possível residindo por um tempo.

Nessa conversa divagamos sobre os vários países que achávamos interessantes conhecer, e num dado momento nos pegamos encantados com a ideia de residir na Inglaterra, berço das nossas bandas de rock favoritas, território habitado pelos Celtas, repleto de castelos da era medieval, cenário da revolução industrial, dentre tantas outras riquezas históricas.

Hoje, olhando para trás vejo que essa conversa foi como uma semente lançada ao universo. O sonho de morar fora do Brasil, para nós, um típico casal com filho pequeno que trabalha muito e a grana mal dá pra pagar as contas no final do mês, é um sonho praticamente impossível, porém essa pequena semente germinou e brotou em nós como um desejo cada vez mais concreto.

Meu marido em meados de 2005 havia feito o pedido de reconhecimento de sua cidadania italiana e em 2015 (pois é…10 anos depois!) ele foi chamado ao consulado italiano de nossa cidade para que o processo de reconhecimento fosse executado.

Como disse anteriormente, a grana era curta e embora esse processo de reconhecimento em si não seja pago existem os custos quanto a obtenção dos documentos que são solicitados para o reconhecimento da cidadania. Esses documentos são basicamente as certidões que irão comprovar que um dado antepassado migrou da Itália para o Brasil. Portanto, é preciso ter todas as certidões (nascimento, óbito, casamento, divórcio) daquele que migrou e de toda a sua linhagem até chegar na pessoa que solicita o reconhecimento da cidadania, sendo que tais certidões devem estar traduzidas e juramentadas.

Esse serviço de tradução juramentada é feito por profissionais específicos e possui um custo considerável (em torno de uns 4 mil reais), e para arcar com esses custos na época tivemos que fazer um pequeno empréstimo no banco.

Esse processo de juntar toda a documentação necessária foi um tanto quanto penoso, pois tivemos que descobrir sozinhos como tudo deveria ser feito (A Ann já escreveu um pouco do que é preciso saber para morar na Inglaterra, se você tiver curiosidade clique aqui). Confesso que essa empreitada foi feita em sua maior parte pelo meu marido, que se dedicou com todo afinco para que dentro do prazo estipulado pelo consulado estivéssemos com tudo em mãos.
Após o reconhecimento da cidadania solicitamos o reconhecimento da cidadania do nosso filho e esse processo foi ágil, felizmente.

De passaporte em mãos, respiramos fundo e nos perguntamos: E agora? Paramos por aqui ou vamos até o fim?

Era o começo do ano de 2016 e anunciamos pelo Facebook que todos os nossos bens estavam à venda. Sim, só tinha um jeito de viver o sonho de morar fora do Brasil e esse jeito seria vendendo tudo o que tínhamos (o que compreendia os nossos poucos móveis e um carro popular) para arcar com os custos de nossa migração.

Partimos para uma campanha intensa e muitos amigos nos ajudaram comprando algo, de modo que em julho de 2016 havíamos vendido tudo, inclusive o carro. Como o apartamento em que morávamos era alugado, após a venda dos móveis devolvemos o mesmo à imobiliária e fomos morar na casa de uma tia que nos acolheu com muito carinho. Me recordo da sensação de quando estava pintando o apartamento para entregar para a imobiliária, senti um misto de alegria e medo, pois já não tinha como voltar atrás. Aquela aventura radical era pra valer!

Em agosto de 2016 meu marido viajou para Inglaterra. Decidimos que seria melhor ele viajar primeiro, e essa decisão foi tomada por três motivos:

1- Seria mais econômico, pois sozinho ele poderia alugar apenas um quarto inicialmente.

2- Temos um filho pequeno, então seria ruim expor ele a esse estágio inicial que é um tanto quanto estressante (final, a chegada para quem migra com pouca grana se resume a procurar emprego, procurar casa, além é claro, de ter de enfrentar uma séria de burocracias (como por exemplo para a abertura de uma conta bancária).

3- Em 2016 eu comecei um mestrado no Brasil, e não queria abandonar o mesmo.

Seguiram-se quase 5 meses e posso dizer que só foi possível lidar com todos os meus compromissos no Brasil por que pude contar com o apoio de nossos familiares. Durante esse período fui a São Paulo solicitar o meu visto e o mesmo foi concedido com validade de 6 meses.

Dia 8 de dezembro foi a data que escolhemos para realizar o sonho de morar fora do Brasil com a minha ida e do nosso filho e eu confesso que a ficha só foi cair de fato umas duas semanas antes da minha ida. Nas duas semanas que antecederam minha viagem eu não conseguia me concentrar em nada no Brasil, era como se eu estivesse em dois lugares ao mesmo tempo, não estando de fato em lugar nenhum.

Leia: Tudo que você precisa saber para morar na Inglaterra

Minha mente estava permeada pelo imaginário de como seria essa nova fase. Apesar de aérea tentei nessas últimas semanas aproveitar ao máximo cada instante partilhado com as pessoas que gosto me empenhando para manter o meu astral o mais positivo possível, pois sentia em meu coração um grande pesar por ter que ficar distante das pessoas que tanto amo.

O grande dia chegou para eu realizar o sonho de morar fora do Brasil e durante a viagem eu percebi que a migração é como uma pequena morte, pois deixamos para trás as pessoas que amamos e partimos rumo ao desconhecido. Apesar do coração apertado pela saudade me sinto muito feliz e grata, afinal estamos vivendo o nosso sonho.

Quer saber como foi botar os pés aqui na ilha? Mês que vem eu conto!

4 Comentários

  1. Nossa, sua história é muito parecida com a minha. Meu marido também veio em agosto de 2016, mas eu só cheguei aqui em janeiro de 2017…fiquei boba de como foi parecido…bjos

  2. Ótimo texto, Monique!

    Me tire uma dúvida, você e seu filhinho só foram após seu marido conseguir um emprego? Ou não?
    Agradeço se puder me ajudar!

    Beijos!!

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