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Dinamarca

Uma casa dinamarquesa e os perigos da onda hygge

O conceito dinamarquês do hygge ultrapassou os limites deste pequeno país e se tornou uma trend internacional nos últimos anos. Pelo menos uma dezena de livros foram publicados sobre o tema e uma série de produtos foram lançados na esteira dessa febre.
A ideia de ter um cantinho aconchegante, com almofadas e mantas fofinhas sob iluminação suave e acolhedora ganhou minha simpatia de cara. Não é pra menos.
Durante o longo e escuro inverno, quando a temperatura cai e a noite começa a encobrir o dia por volta de 3 da tarde, é irresistível vislumbrar com certa inveja os convidativos interiores das casas. Parece até que as enormes janelas tão típicas daqui, quase sempre sem cortinas, foram feitas exatamente pra isso: mostrar o design dinamarquês, com suas paredes brancas iluminadas pelo tom amarelado e tremulante da luz das velas.
Se tudo isso já não fosse tentador o bastante, ultimamente a mensagem que nós estrangeiros recebemos, implícita ou explicitamente, é que, para fazermos de fato parte da Dinamarca, precisamos nos integrar à cultura dinamarquesa. E para uma família como a minha, que não come porco, que melhor maneira de integração senão reproduzir em casa nossa própria versão hygge ?
Obviamente não há hygge sem velas. E, dentro de pouco tempo, estávamos os três aqui em casa totalmente convertidos à nova mania. Começamos com umas poucas daquelas velas pequenininhas, em inglês chamadas tea light candle, e em pouco tempo nossos jantares de inverno, mesmo nos dias de semana, passaram a ser iluminados por longas e belas velas. Hygge de raiz, pra ninguém botar defeito!

Leia também: Hygge, um estilo de vida na Dinamarca

O problema é que enquanto nos orgulhávamos da nossa super hyggelige iluminação de vela, descobrimos que o preço a ser pago pelo novo estilo é muito alto. As partículas liberadas durante a queima de velas dentro de casa são altamente poluentes. A concentração dessas partículas – quase invisíveis – em um clima úmido, e em áreas com pouca circulação de ar fresco, leva a um ambiente interno de má qualidade, ou seja, ar poluído que será respirado por todos os moradores e visitantes.

Velas e números

Para se ter uma ideia, um estudo de 2014 (YouGov for Bolius) apontou que 39% dos dinamarqueses acendem velas diária, ou quase diariamente, e um igual número de respondentes disseram acreditar que o acendimento de velas não causa problemas de saúde. Mesmo quem não queima uma velinha todo dia, faz isso ocasionalmente. Afinal, somente 7% dos entrevistados afirmaram nunca terem acendido vela em casa.
Falar de poluição interna e ainda mais causada por velas pode parecer o supra- sumo da frescura, certo? Mas não é. Sobretudo se considerarmos que, no inverno, tendemos a passar longas horas justamente fechados dentro de casa e raramente abrindo janelas para evitar o ar gélido que vem de fora.
Dependendo da vulnerabilidade de cada um, os efeitos disso podem ser maiores ou menores, mas estudos dão conta que os tais poluentes que não vemos afetam a saúde dos pulmões e o sistema cardiovascular. No dia a dia, um ambiente interno poluído pode ser a causa de seu cansaço, dor de cabeça, alergias e pode até originar doenças mais sérias.

Todo tipo de vela faz mal?

Por algum tempo acreditava-se que velas de material natural, como as de cera e de soja, seriam proteção suficiente. Assim, evitando-se as mais comuns de parafina, um subproduto de petróleo, já seria o bastante. Hoje, porém, além do material da vela, questiona-se a qualidade do pavio e em que condições cada vela queima. Por exemplo, as que produzem mais fuligem emitem mais poluentes.
Idealmente, o pavio deve ser curto, produzir uma chama estável e, se possível, ser 100% algodão.
É verdade que as velas não são a única fonte de poluição interna de uma casa. A fumaça resultante da cozinha também traz riscos e, de novo, em vez de passar a comer nos restaurantes (caros demais para nossos recursos, pelo menos na Dinamarca), o ideal é vencer o medo do vento frio e abrir as janelas com frequência e bem mais do que a tímida frestinha a que nos acostumamos.
Para quem pensa que se trata apenas de paranoia de uma brasileira viciada em ler resultado de pesquisa médica, saiba que o tema vem sendo bastante discutido ultimamente e um dinamarquês, Lars Gunnarsen, professor e pesquisador do Danish Building Research Institute, alerta que o consumo de velas na Dinamarca é extremo dentro do contexto internacional e que representa fator considerável em problemas sérios de saúde.
Para ele, trata-se de um luxo e de uma tradição que podem ser facilmente abandonados.
Fiquei abatida com toda essa informação. Mas nem tudo está perdido. Quem não abre mão das velas, deveria usá-las com moderação, lembrando de ventilar a casa sempre, mesmo nos dias mais frios e preferencialmente usar acendedor automático em vez de fósforos para acendê-las. Outra alternativa para não estragar o clima hygge, é aderir às falsas velas movidas a baterias bem duradouras, que prometem uma imitação sutil, convincente e, melhor, sem fuligem.
De minha parte, vou minimizar os jantares à luz de vela. Às vezes desconfio que nunca vou ser uma dinamarquesa de verdade…

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