Clube do Bolinha – Tudo o que sonhares

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Quando a oportunidade de viver no “paraíso” apareceu, foi muito fácil dizer “eu topo”.  Estávamos eu e minha esposa embarcando de Nova Iorque para Honolulu de férias por uma semana quando a caminho do aeroporto recebi o e-mail confirmando uma entrevista de emprego. A mensagem vinha de uma empresa de software com sede no Havaí. Enviei meu currículo alguns dias antes, sem criar nenhuma expectativa. Após alguns anos em Nova Iorque, tínhamos saudades do calor e ainda sonhávamos em um dia morar numa ilha tropical. Florianópolis, nossa ilha da magia dos sub-trópicos, foi o mais próximo que chegamos do objetivo até então. Aquela semana de 2011 passou voando, mal tivemos tempo de recuperar o jet lag e já estávamos de volta para a realidade – gelada – nova-iorquina. Desta vez, no entanto, foi diferente: uma ligação confirmando a oferta de trabalho selou nosso destino para sempre.

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Mudar entre os extremos dos EUA foi uma tarefa árdua. Entre outras dificuldades, o Havaí é muito rigoroso com a entrada de animais, já que a ilha é livre de hidrofobia (raiva). Esposa e cachorrinha ficaram para trás até que fossem completados os 120 dias de quarentena, longos quatro meses. Morar no paraíso tem seus sacrifícios e literalmente um alto custo. Em certo momento estávamos alugando três apartamentos: o meu temporário em Waikiki, o definitivo para onde viriam nossos móveis e o que estávamos largando na área metropolitana da Big Apple.

Nos quatro anos seguintes trabalhei em Downtown Honolulu, centro financeiro e governamental do Havaí. Sempre vivemos na área mais turística da cidade, Waikiki e Ala Moana, o que facilitou muito o roteiro diário casa-trabalho-surfe-no-fim-de-tarde.

Fui poupado dos intensos congestionamentos que atingem grande parte da população, tal qual qualquer cidade grande americana com transporte público limitado e uma infinidade de automóveis. Passar horas dentro de um carro seria literalmente padecer no paraíso. Tive o privilégio de poder voltar à pé para casa.

Duas vezes por semana saía correndo do trabalho às 5 da tarde para ir remar em um clube de canoas havaianas (Outrigger Canoe). Foi de longe minha experiência havaiana mais significativa. Mais do que o surfe, mais que os shows de ukulele (uma espécie de cavaquinho), remar em canoas com os kama’ainas (locais) e havaianos me mostrou a essência do Aloha Spirit, a generosidade e o companheirismo que regem os ares e mares do Havaí. É algo que se entende mais fácil quando se pratica. Por esse motivo foi tão importantes transformar nossas sempre curtas férias em algo mais permanente.

Para quem como eu começou a surfar depois de adulto, por incrível que pareça, as praias do South Shore são cenário perfeito. Ondas consistentes e não tão grandes permite que surfistas não-profissionais também se divirtam com pouco risco na terra do surfe. Temperatura dentro e fora d’água próxima da perfeição. Dias de chuva e sol se misturando numa infinidade de arco-íris. As outras ilhas no entorno de Oahu, ilha em que vivemos, nos mostraram que há sempre lugares mais bonitos para se conhecer. Kauai, Maui e Big Island foram viagens inesquecíveis e fazem parte dos nossos sonhos diários. Tudo entretanto ao seu preço: um final de semana a dois (sem luxo!) custa facilmente mais de mil dólares.

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Honolulu conserva um visual antigo, valoriza o tempo que era independente dos EUA e se esforça para manter viva a língua e cultura havaianas. É uma cidade que recebe muito bem os cidadãos mais velhos, com clima ameno e gente hospitaleira. De longe é a cidade americana mais asiática, onde o japonês é segunda língua e o filipino, coreano e chinês se falam por toda a parte.

A saudades de casa sempre foi compensada com vídeos e ligações frequentes para a família, na maior parte morando no Brasil. O fuso horário havaiano atrás entre 7 ou 8 horas nos fez sentir um pouco no passado.

Honolulu é, no entanto, um dos pontos mais avançados e interconectados do mundo. Com grande presença militar e tecnológica, foi de lá que “escapou” Edward Snowden em 2013 para fazer parte da história. A distância e o custo da viagem, aliados a um apartamento pequeno, fizeram com que recebêssemos bem menos visitas se compararmos ao nosso sempre lotado sofá em NY.

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Depois de quase quatro anos achei que jamais sairia do Havaí. Mais difícil que conseguir emprego no “Paraíso” foi pedir as contas, deixar tudo para trás e começar de novo – novamente!  A zona de conforto já tinha sido alcançada há muito tempo, mas enquanto o mundo gira nossa vida dá voltas. Numa destas surgiu a vontade de reduzir as frequentes viagens HNL-LAX da esposa. Para isso precisaríamos nos mudar para a Califórnia.

Conseguir um trabalho em TI, “onde tudo acontece”, desta vez foi bem mais fácil e rápido; descobrimos que Los Angeles está mais no que efervescente na área e agora é a “Silicon Beach” a nossa praia. Difícil foi se acostumar com a ideia de desapegar de tudo o que foi conquistado. Andar nas ruas da cidade com remo ou com a prancha debaixo do braço seria coisa do passado. E assim, com o mesmo Aloha que chegamos, dissemos Aloha quando partimos. Mas partimos levando conosco inúmeras boas lembranças, anos de convivência com ótimos amigos e a certeza que o Paraíso na Terra existe – que um dia a gente volta. Aloha ‘Oe Hawai’i, a hui hou. 

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