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Despedindo-me de El Salvador

Despedindo-me de El Salvador.

Sempre soubemos que esse dia iria chegar, a possível volta ao Brasil se tornou realidade. A vida quis que regressássemos. Esse fato muda algumas coisas importantes, a primeira delas é deixarmos de ser expatriados. Implica em mudanças culturais, financeiras e principalmente emocionais.

Teremos que enfrentar vários desafios e o principal deles é que nosso filho que foi alfabetizado em espanhol terá que se adaptar ao colégio em português. Apesar de nossa preocupação número um ser essa, a experiência nos mostrou nas outras mudanças que em geral as crianças e adolescentes se adaptam muito mais fácil que nós adultos. Existem muitos outros desafios e é relevante aqui assinalar que não voltaremos para o nosso estado de origem, ficaremos mais perto da família, mas não como era antes de sairmos do país. Já é um alívio bastante importante, mas também teremos que nos adaptar num local novo.

Leia também: O que mais gosto em El Salvador

Em meio a todos esses novos desafios, o primeiro a ser efetivamente encarado é deixar o país que nos acolheu com tanto carinho e que possui tantas coisas que gostamos. Deixar El Salvador com seu verde exuberante, seu sol deslumbrante, que aquece a vida da gente num ritmo menos acelerado, mais lento e dessa forma mais presente no nosso dia a dia.

Deixar as amizades que fizemos e com as quais nos relacionamos diariamente, deixar as deliciosas pupusas e os cafés da manhã típicos que tanto nos encantaram, deixar expressões tão familiares salvadorenhas como o Fíjese que... e Cabal (respectivamente “Veja bem….” e “Exatamente”), deixar o carrinho da verdura que vem semanalmente na sua porta trazer seu pedido,  deixar o dia a dia em espanhol (“espanglish” em geral) e voltar para o nosso saudoso português.

Deixar o pôr do sol cor de rosa que tanto nos encantou, deixar a proximidade com a praia e a montanha, com os vulcões e a presença de alguns terremotos, aos quais já até nos acostumamos, deixar a vaga de colunista de El Salvador aqui no Brasileiras pelo Mundo e deixar uma tranquilidade e um aconchego que nunca havíamos experimentado. As cidades do Brasil não costumam ter esse perfil… então novamente teremos que nos adaptar.

Imagem ilustrativa – arquivo pessoal

Deixar o querido Hospital de Divina Providencia que tanto me ensinou e onde pude colaborar como voluntária.  Através desse trabalho pude conhecer e realmente me envolver com a cultura salvadorenha, entender o real significado de uma piñata nos aniversários, que basicamente é aquele momento especial onde todos, idosos ou crianças, se atiram literalmente no chão para buscar a sua guloseima favorita, aquele momento que traz aos olhos de todo salvadorenho um brilho especial.

Entender a importância de jogar loteria para eles (para nós é basicamente um bingo, mas com figuras) onde estão elencados nomes e tradições que são parte do dia a dia deles, entender a importância da música e da dança nessa cultura tão alegre quanto a nossa. Em tese aí eu deveria colaborar ajudando com o lanche e organizar as duas horas de entretenimento para pacientes em cuidados paliativos, mas foi muito mais que isso, encontrei uma gratificante viagem de conhecimento de sua cultura e troca de carinho e amizade.

A expatriação nos traz muitos desafios, mas deixar a família é o mais dolorido. Cada data especial que não vivemos ou compartilhamos junto com eles é um golpe no coração e cala fundo na alma. Com essa volta poderemos regressar a participar desses momentos com planejamento, esse fato cai como um bálsamo sobre a nossa alma.

Andei lendo alguns textos sobre voltar para o seu país e o principal ponto abordado é que, com a volta, nós nos damos conta que não somos mais os mesmos que saíram de nosso país antes da expatriação e isso gera em nós, que regressamos, um sentimento de não pertencimento ao local para o qual voltamos. Esse fato gera um aumento no tempo da adaptação quando se volta para casa. Voltamos, mas somos diferentes da versão original antes da expatriação, porque o desafio de adaptar-se a uma nova cultura nos transforma como seres humanos. Creio que o segredo é aceitar e entender que, apesar e parecer simples regressar, nada será igual ao que era antes.

Dentro desse contexto saliento que novamente devemos estar abertos a mudança de modo a recebê-la e adaptar-nos novamente ao novo lugar. Sempre é fascinante receber uma nova oportunidade de crescimento como essa e sou grata por isso. Todas as vezes que encontramos algo ou alguém em nossas vidas deixamos marcas e também as levamos. Saímos diferentes e transformados, cabe a nós aproveitarmos tudo o que pudermos de positivo para continuarmos nos desenvolvendo como seres humanos.

De El Salvador ganhamos amigos para a vida e principalmente uma perspectiva de que tudo pode ser vivido sem pressa, que a vida pode ter seu ritmo sem estarmos tão agitados com o ritmo que a cidade nos impõe. Com isso deixamos de aproveitar vários aspectos que se perdem com o passar corrido dos dias.

Serão muitas despedidas com brindes, choro, retrospectivas, amigos e colegas, seguramente virtuais devido à pandemia, onde pouco a pouco vamos nos despedindo dessa sensação de aconchego e estar em casa que tínhamos aqui, nos abrindo para mais uma experiência em um novo lugar.

Me despeço também de vocês, com saudades e com alegria/ansiedade de poder escrever um novo capítulo na nossa vida, principalmente agradecida com a vida por todas essas enriquecedoras oportunidades.

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