Inglaterra – Doutorado-sanduíche em Jornalismo

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Não foi uma viagem a turismo ou para morar por um longo tempo. Meu objetivo era passar seis meses em Birmingham, na Inglaterra (de setembro de 2016 a março de 2017), cursando meu doutorado-sanduíche em Jornalismo na Birmingham City University.

Como essa experiência tem algumas peculiaridades, creio que meu relato pode ajudar outras mulheres a viver esse momento da melhor forma possível.

1. A escolha do supervisor

No Brasil, os cursos de doutorado têm duração de 4 anos. Durante este tempo, é comum e também recomendável que o estudante passe um período (que pode variar de 3 meses a 1 ano) fazendo sua pesquisa numa instituição fora do país. Apesar de ser bolsista Capes, resolvi ir por conta própria porque na época não havia nenhum edital de doutorado-sanduíche aberto e as previsões não eram as melhores (#golpe, #ForaTemer).

Vendi meu apartamento e decidi investir parte do dinheiro nessa experiência. Não me arrependi. Com a questão financeira resolvida, parti para a escolha do país, da cidade e do professor que supervisionaria meu trabalho. Eu quis a Inglaterra desde o início, porque sou apaixonada pelo país e queria muito aperfeiçoar meu inglês. Em seguida, parti para a escolha do supervisor.

Na época eu não sabia que isso seria tão decisivo, então acho que acabei dando sorte também. É claro que é difícil ter um conhecimento profundo à distância, mas algumas características podem indicar uma boa escolha:

– Observe se o professor publica bastante, e não só em revistas científicas. No meu caso, eu já acompanhava as postagens do professor em seu blog e via que ele mantinha uma frequência grande de publicações. Isso quer dizer que ele é uma pessoa ativa, que está atento ao que acontece no mercado. Não é um daqueles pesquisadores que pararam no tempo, que pode até ter “nome”, mas pouco contribui para o campo.

– Pergunte-se se o supervisor teria interesse na sua pesquisa, porque se vocês não tiverem algum ponto de convergência, a experiência será bastante improdutiva. Meu supervisor pesquisa jornalismo de dados e eu, métricas. Ambos temos interesses em dados, em audiência, o que facilitou muito nosso diálogo e resultou na produção de um artigo científico em parceria. Faça o contato de forma cordial, mas objetiva, seja clara nas suas intenções e no que você pode oferecer.

2. A escolha da moradia

Com o aceite do supervisor, comecei o contato com o escritório internacional da universidade. Eles foram verdadeiros anjos e encaminharam tudo para que eu ficasse na acomodação da própria universidade. Eu tinha essa opção ou, claro, alugar algo por conta própria, com uma imobiliária.

Entrei num grupo do Facebook de aluguéis de casas e apartamentos em Birmingham e comecei a pesquisar preços. Tudo muito caro e muitas pessoas reclamando da burocracia. Depois que já estava lá várias amigas relataram a dificuldade que tiveram de alugar apartamento nesse esquema, justamente porque o contrato tem muitas exigências. Então, percebo que fiz a escolha correta pela acomodação da universidade, que também era paga (360 libras por mês, com tudo incluído, além de lavanderia e academia de graça), mas sem burocracia alguma.

Fiquei num flat para seis pessoas, com quartos individuais, cozinha e dois banheiros. Minha convivência com meus ‘flatmates’ foi muito boa, nós costumávamos nos reunir na cozinha à noite, para jantar. Certamente eles me ajudaram muito a não me sentir sozinha e me ensinaram muitas coisas sobre suas culturas e seus países.

3. As amizades

Eu fui completamente sozinha para Birmingham, não conhecia a cidade. Já tinha viajado sozinha para o exterior, morei em várias cidades diferentes no Brasil. Isso com certeza me ajudou e posso dizer que sou uma pessoa de mente aberta e sociável. E creio que essa é a melhor forma para você fazer bons amigos: estar despida de pré-conceitos e querer viver experiências únicas.

Logo que cheguei na cidade, meu primeiro contato foi com os alunos da universidade. Pensei que logo faria amizade com eles, mas depois vi que não seria bem assim. Como eu fui uma espécie de monitora do meu supervisor, eu participava das aulas do mestrado, cujos alunos são muito novos, na casa dos 20 anos. Além disso, tenho que reforçar um estereótipo dos ingleses: eles são muito gentis e educados, mas não são muito abertos a amizades, daquelas de ir pro bar depois da aula, tão comum por aqui. Então, logo vi que eles não seriam meus amigos mais próximos.

Foi aí que senti uma necessidade enorme de me ‘juntar’ com os brasileiros. Jamais imaginei que isso fosse acontecer. Na verdade eu pensava que nem encontraria brasileiros em Birmingham. Tolinha, né? Esse era inclusive o nome do grupo no Facebook, onde encontrei os que mais tarde seriam meus melhores amigos.

Outro ponto alto da minha experiência foi essa ‘tribo do forró’ em Birmingham. Eles organizam o Café Forró sempre no último sábado de cada mês, com aulas e banda ao vivo em Moseley, melhor bairro de Birmingham, na minha opinião. Como ia todo mês, já conhecia as pessoas e me sentia muito à vontade. Não há nada melhor do que ouvir música brasileira quando se está longe de casa.

Outra forma de matar a saudade era no Viva Brazil, restaurante brasileiro em Birmingham. O chef de lá virou meu amigo e era onde amávamos ir para bater papo, tomar caipirinha e fazer o ‘esquenta’ antes de curtir a noite da cidade. E assim fui construindo minha rede de amigos, muitos brasileiros, com quem dividi alegrias, angústias e noites inesquecíveis nos pubs ingleses.

4. As oportunidades profissionais

A minha rotina na universidade era muito tranquila e me dava bastante liberdade para fazer o que era mais interessante para minha pesquisa. Como disse, participava das aulas do mestrado às sextas-feiras, mas me envolvi em muitas outras atividades por causa do meu supervisor (taí mais um motivo para escolher bem).

Ajudei a organizar eventos, fui a duas conferências na BBC de Londres, fiz um curso de Analytics com o professor de outra universidade, participei de hackdays, dei aulas. Em todas essas oportunidades eu produzia relatos para o site do grupo de pesquisa da minha universidade no Brasil, o que me fez manter contato constante com meu programa e meu orientador.

Outro detalhe muito importante foi o aumento da minha rede de contatos profissionais, principalmente pelo Twitter. Passei a me comunicar muito em inglês nas redes sociais, justamente por causa dessa ‘audiência’ que comecei a construir. Isso é fundamental quando penso na minha carreira profissional e nas oportunidades que podem se abrir para mim em outros países.

5. As viagens

Seis meses voam! Tinha planos de fazer uma viagem para o leste europeu, mas não consegui. Como deixei meu trabalho de campo para o final (queria estar com o inglês 100%, pois faria muitas entrevistas), o tempo ficou bastante apertado.

Mas fiz viagens curtas muito interessantes. Além de ter ido muitas vezes em Londres, conheci a Stratford Upon-Avon (a cidade onde Shakespeare nasceu), a região de Cotswolds, Cardiff (no País de Gales) e Edinburgh (na Escócia).

Fora do Reino Unido fui somente para Amsterdã, na Holanda. Viajei muito de trem e sempre recomendo, é uma delícia. Mas se você for no inverno, como eu, esteja preparada para passar muito frio nessas viagens. Nada que um bom casaco comprado nas lojas de “charity” (caridade) não resolva, mas demora até acostumar a vestir mil camadas de roupa ou a ver o sol se pôr às três e meia da tarde.

Ah! Uma dica preciosa: Vá ao cinema. Jamais vou esquecer minhas sextas à tarde no Odeon da New Street. Nem preciso enumerar os benefícios, mas posso resumir dizendo que é uma forma simples e barata de fazer bem a si mesma.

Dinheiro

Leve o que puder em espécie e depois utilize o TransferWise, que tem taxas mais baratas que os bancos comuns.

 Transporte

Compre o TravelCard mensal se você vai usar bastante o ônibus. Eu pagava 60 libras por mês, mas podia viajar quantas vezes quisesse. À noite, use o Uber, é bastante confiável e muito mais barato que os táxis.

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