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Que saudades de um tanque

Ai que saudades de um tanque!

Estou vivendo fora do Brasil há quase 5 anos, tendo passado os primeiros dois anos na Itália e há quase três anos na França – estou em Lyon desde o início de 2016. Durante esse tempo todo me deparei em vários momentos tendo saudades de coisas muito triviais, o que jamais aconteceria se estivesse ainda no Brasil.

Por exemplo, saudades de uma boa vassoura de piaçava.

Pode parecer brincadeira, mas não há nada melhor que uma boa vassoura de piaçava, que aguenta todo e qualquer tipo de limpeza (com ou sem água) e permanece sempre ali, intacta, perfeita, digna, respeitosa, como uma senhora de grande experiência que já passou por muita coisa na vida. É praticamente impossível encontrar uma vassoura de piaçava na Europa (ao menos na França e na Itália). Um dia desses eu achei uma aqui em Lyon, mas ela custava mais de 50 euros (cerca de 230 reais!) Impossível.

Nessa lista da saudade das coisas triviais, ninguém supera o tanque de lavar. Parece brincadeira, mas eu sinto mesmo falta de um bom e simples tanque! Relegado à parte menos nobre dos lares brasileiros, eu juro que dava tudo o que tenho (ou quase) para ter um pequeno tanque de lavar, onde eu pudesse limpar panos de chão e de prato, os banheirinhos dos gatos (tenho 2 gatos e 2 banheirinhos) e tudo o mais que não ouso meter dentro da máquina de lavar roupas. E haja posts nas redes sociais – meus e de outras internautas – perguntando como as europeias fazem para lavar essas coisas.

Mas o fato é que há séculos e séculos elas se arranjam sem esses “itens triviais” e todos vivem muito bem, e em saúde. E isso me faz pensar. Quantos hábitos diferentes existem por aqui – e em todas as partes do mundo – e quão aberta estou eu a experimentá-los? Por que só o meu jeito de fazer as coisas pode ser o melhor? Obviamente isso não se limita a situações de higiene, mas a qualquer domínio da vida.

Leia também: Tudo que você precisa saber para morar na França

Há pouco tempo fui ao médico aqui na França, pois estava com uma alergia que me provocava coceiras no corpo. Ele me perguntou quantas vezes na semana eu tomava banho. Ao responder que entrava na ducha uma vez ao dia, ele me recriminou: o ideal eram duas ou três vezes na semana, a fim de não remover a camada protetora da pele. Banho demais (uma vez ao dia era demais, segundo ele!) só poderia me fazer mal! Na mesma hora retruquei, dizendo que não conseguiria jamais deixar de tomar ao menos um banho por dia, e ele deu de ombros. Esse novo hábito não me permiti tentar mas, ao menos, a alergia foi embora.

Mas quando penso em outras coisas, vejo que realmente não sou mais a pessoa que deixou o Brasil há cinco anos. Decidi não mais ter carro, e ando de transportes coletivos pra cima e pra baixo muito bem. Passei a comer muito mais alimentos orgânicos que antes (que aqui se chamam “bio”), e dificilmente encho meu prato com uns cinco ou seis itens diferentes como fazia no Brasil (sobretudo quando almoçava em restaurantes por quilo): geralmente no meu prato atual tenho uma proteína e um ou dois legumes e já fico bem saciada e alimentada com isso.

No Brasil, sempre contei com a ajuda de uma profissional de limpeza durante a semana, para colocar a casa em ordem. Por aqui isso também é possível mas, talvez por ser comparativamente mais caro, aos poucos isso foi sendo deixado de lado. E não é que hoje me sinto muito melhor ao fazer toda a faxina apenas eu e meu marido? Mesmo com nossas agendas profissionais bem apertadas.

Outro hábito internalizado foi o de diminuir o consumo de tudo. Hoje em dia vivo com menos coisas e só compro algo novo quando é para substituir algo. Em contrapartida, faço muito mais programas ao ar livre ou gastronômicos.

Há, também, o fato de você ser uma estrangeira – e toda hora ter que responder à pergunta: “esse lindo sotaque….ele vem de onde?!” – mas estar vivendo em sua nova casa (pra sempre? Não sei, mas não é isso o que importa agora). Há que se ter um belo jogo de cintura – ou de “mindset” – pra evitar a pegadinha tentadora de colocar sua própria vida “entre parêntesis” (como abordei em um artigo anterior) e viver 100% no presente.

Enfim, as saudades do tanque de lavar roupas têm me feito pensar em quanto eu me permito testar novas formas de viver, de pensar e de sentir. Interpretar o mundo de um modo que eu não fazia antes e, assim, descobrir hábitos e esquemas de pensamento que podem me ser muito úteis. Afinal, já dizia Darwin (embora muitos acreditem que a frase não seja dele): “Não é o mais forte que sobrevive, mas o que melhor se adapta às mudanças.”

E você? Quais são os hábitos novos que interiorizou vivendo fora do Brasil? Adoraria saber sobre sua experiência. Poderia compartilhá-la?

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