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Ainda matam meninas na China?

Quando estava no Ensino Médio, tinha uma professora de Geografia que falava muito da China: “a economia que mais cresce no mundo”, “o país onde se matam bebês meninas”. Essa última frase ecoou dentro de mim por muito tempo. Como podem matar bebês por serem meninas? Para mim, que sempre quis ter uma menina era inaceitável. Levei isso comigo por anos e, quando soube que viria morar aqui, a palavra China era sempre seguida por essas duas frases que citei acima.

Morando aqui, comecei a compreender que muitas coisas que não faziam muito sentido para mim, talvez pudessem ser entendidas se eu encontrasse na história e nos costumes algo para justificar o porquê dessa ou daquela atitude. Sendo assim, a primeira história que fui tirar a limpo foi essa de matarem meninas. Li um texto da Chris, no seu blog China na Minha Vida, e lá ela falou sobre um livro que tratava do assunto, corri atrás do tal livro e, finalmente, achei nele muitas respostas.

O livro se chama “Mensagem de Uma Mãe Chinesa Desconhecida”, e ele traz a narrativa de uma jornalista que percorreu lugares remotos da China e recolheu histórias de mulheres que tiveram suas filhas mortas ou arrancadas delas, logo após o nascimento. Impossível ler cada um dos capítulos sem se emocionar, sem sentir um pouco da dor de cada mãe que teve sua filha arrancada de seus braços e levada.

Nesse texto, quero apenas fazer com que mais pessoas possam entender o que está por trás desse costume; entender que atrás de cada menina que foi levada ou morta, existe uma mãe ferida, que ainda chora e ainda nutre esperanças de reencontrá-la algum dia.

Vamos voltar um pouco no tempo, para entendermos de onde vem esse costume. O sistema de distribuição de terra nas aldeias chinesas na década de 1920 ainda seguia os mesmos padrões de 2000 anos atrás, ou seja, os oficiais encarregados não davam um pedaço de terra a mais, caso nascesse uma menina e, além disso, os grãos para plantio eram distribuídos de acordo com a quantidade de pessoas na família, sendo que meninas não contavam.

Logo, se você tivesse várias meninas, não teria terra, nem grãos suficientes para plantar, podendo morrer de fome. Um outro grande engano é achar que a política do “filho único” foi a responsável pela morte das meninas, quando, na verdade, isso já acontecia desde muito antes dessa política, que só começou a ser adotada no fim da década de 1970.

O que acontecia, então, era que existia uma grande expectativa em torno do nascimento para que chegasse um bebê do sexo masculino. A família geralmente se reunia e, enquanto a mulher dava à luz no quarto, os outros esperavam ansiosos pela descoberta do sexo. Cada vez que vinha uma menina, a sogra ou a parteira ou a própria mãe seriam as responsáveis por “resolver o bebê”, como assim chamavam. Uma vasilha com água era preparada para o momento do nascimento e, caso fosse um menino, a água seria usada para o primeiro banho e, se fosse uma menina, usavam a água para afogá-la.

Nem sempre essas meninas eram mortas. Acontecia de, algumas vezes, a mãe e o pai pagarem um dinheiro extra para a parteira, sem que os avós soubessem, para que ela levasse a recém-nascida para um orfanato, ou para outra cidade. Não bastasse tudo o que essas mães viviam pelo simples fato de darem à luz, de terem que abandonar ou matar suas meninas, toda a culpa era jogada sobre elas: as chamavam de inúteis, eram hostilizadas e por vezes abandonadas pelos maridos e deixadas ao léo. Muitas mulheres por não terem para onde ir, pois não poderiam voltar para a casa deu seus pais e serem uma vergonha para eles, e por não terem como se sustentar, acabavam cometendo suicídio.

Alguns casais ficavam se mudando de uma cidade para outra, na tentativa de fugirem do governo e do controle de natalidade que já havia se instalado, para que pudessem ficar tentando ter um menino e voltarem para casa orgulhando seus pais. Em meio a essas tentativas, as meninas que nasciam eram abandonadas nas cidades por onde passavam.

Mas, voltando à pergunta do início do texto, é com grande tristeza que digo que sim, ainda matam meninas chinesas. Acredito que não na mesmo proporção de antigamente, mas, sim, a prática ainda existe e, com toda certeza, assim como antigamente, no interior é mais comum.

Há algumas semanas conversávamos com um colega brasileiro que trabalha em uma fábrica chinesa, aqui em Ningbo, e ele disse que uma funcionária da fábrica abortou aos 7 meses de gestação, por saber que estava esperando uma menina e os sogros não aceitariam. Também já ouvi de uma mãe de aluno que já tinha duas meninas que se o terceiro não fosse menino, ela abortaria. É importante ressaltar que é proibido ao médico revelar o sexo do bebê por essas questões, porém, em alguns casos, dependendo do grau de proximidade do médico com a paciente, ele fala.

Na época das aulas de geografia eu sempre pensava que essas mães eram muito ruins, que não tinham coração, mas hoje consigo compreender que, por mais que seja um costume inaceitável, a maior parte dessas mães não fazia por maldade, ou por não amar suas filhas, mas porque elas não tinham outra opção. Ofereço, então, a minha empatia e preces a cada umas dessas mães chinesas desconhecidas.

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17 comentários

Rita de Cassia Arouca Junho 8, 2017 at 8:21 pm

uau, que chocante né! Sei também que há um comércio de bebês na china. A adoção internacional é muito comum e as taxas que os adotantes pagam para as agências chinesas é super alta. Gerando esse comércio de bebês. A parte boa é que a adoção de meninas é maior que meninos, sei que não e grande coisa mas pelo menos algumas dessas orfãs podem ter esperança em um futuro

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Ludmila Lima Junho 12, 2017 at 2:35 am

É bem por aí mesmo.Abraços

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Alessandro Junho 9, 2017 at 12:15 am

Assunto muito delicado porque cada civilização tem seus próprios costumes, ainda mais sendo a chinesa, com milênios de tradição.
Cabe as novas gerações o empenho em modificar velhos costumes através da educação das novas gerações que a cada dia surgem, modernizando a mentalidade de toda a população.

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Samara Cristina Junho 9, 2017 at 4:30 am

Eu até outro dia me perguntava será que na China matam meninas, também havia estudado n aula de geografia sobre esse assunto e fiquei encabulada com isso de como podem permitir isso,agora li esse artigo finalmente​ já sei o porquê,fico triste en saber que aínda existe isso.

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Ludmila Lima Junho 9, 2017 at 5:33 am

Sim, mas como disse em lugares mais remotos e não na mesma proporção como antigamente.

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Ludmila Lima Junho 9, 2017 at 5:32 am

Sim bem delicado Alessandro. Em relação a isso a mentalidade mudou bastante, mas em outros aspectos nem tanto, mesmo entre os mais jovens.

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Marcele Junho 9, 2017 at 9:47 am

Woww… muito muito triste!!

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Christine Junho 9, 2017 at 1:48 pm

Lu,
Parabéns pelo texto.
O livro de Pearl Buck, A boa terra, também mostra de forma clara essa realidade que você cita do passado chinês – a questão de só o menino dar aos pais o direito a uma gleba de terra. Vale lembrar que, segundo a tradição chinesa, as filhas quando casam passam a pertencer a familia do marido – isso explica (mas não justifica) a decisão do governo de só dar terra pelos filhos nascidos. As filhas não precisariam das terras dos pais.
Aqui tem um texto sobre o livro.
https://chinanaminhavida.com/2012/05/05/livro-a-boa-terra
Chris

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Ludmila Lima Junho 12, 2017 at 2:42 am

Chris querida! Mais um livro pra minha listinha aqui! Obrigada pelo apoio e por ser fonte de informação sobre esse país tão fantástico.

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Luciana Damasceno Junho 9, 2017 at 2:22 pm

Excelente texto, Ludmila! Fiquei ainda mais impressionada em saber que os médicos não revelam o sexo do bebê para evitar abortos. Parabéns por trazer luz para uma questão tão delicada.

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Ludmila Lima Junho 12, 2017 at 2:40 am

Muito obrigada Luciana. quando soube disso também achei muito louco. Abraços

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Regina Junho 9, 2017 at 5:13 pm

Oi Ludmila , muito esclarecedor seu texto. Me lembro que há muitos anos atras , vi na capaz de uma revista , uma menina bebê , jogada no lixo, e essa imagem me chocou .
Conheci um chinês , que tinha na época uns 21 anos , e ele me disse que nunca tinha namorado . Ele estava na faculdade , e me disse que era muito difícil namorar , porque havia mais rapazes que moças na região que ele morava , e que as moças queriam se casar com alguém que tivesse nível universitário , casa , e alguns bens , e eu me lembrei disso : Mataram tantas meninas , e agora , tem poucas moças , e são elas que escolhem com quem querem casar . Então , pelo que ele me disse há um desiquilíbrio na população , onde ele vive. Ficaram mais meninos …..consequência do passado…

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Ludmila Lima Junho 12, 2017 at 2:39 am

Uma das consequências né. Aqui em Ningbo, pelo que vejo no dia-a-dia a quantidade de homens e mulheres é bem equilibrada. Abraços

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Jony Edson Goral Outubro 13, 2017 at 2:30 am

Não sei o que dizer… Gostaria de fazer a diferença. Tudo que posso fazer é oferecer uma família para uma destas meninas. Tem alguma forma de contato ou lista de espera para um casal oferecer-se para adotar uma dessas crianças?

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Alice Março 8, 2018 at 4:53 am

Estou na China e estava pensando muito sobre isso durante a viagem.. Vejo muitas familias pelos lugares onde passo, e vejo pais carinhosos com seus bebês, sejam meninas ou meninos. Tem uma linda menina sendo paparicada e bajulada pela mãe e acho que tia aqui na estação de trem em Changshua, onde estou agora. Por isso resolvi pesquisar sobre o assunto, esperando ler que matar meninas não mais acontecia na China… Uma pena ler que ainda acontece. Espero que esse costume seja dizimado o mais breve possível e que a realidade de todas as meninas, aqui ou em qualquer lugar, seja como dessa menina que está agora a minha frente…

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Fernando Agosto 14, 2018 at 10:20 pm

Excelente e esclarecedora matéria, Ludmila. Uma pergunta: sendo assim, por acaso acontecia de alguma menina ser apresentada como menino durante algum tempo para protegê-la? Obrigado

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Liliane Oliveira Agosto 15, 2018 at 2:24 pm

Olá Fernando,
A Ludmila Lima, infelizmente parou de colaborar conosco.
Obrigada,
Edição BPM

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