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Choques culturais de uma professora brasileira na China

Olá, meu nome é Ludmila e moro em Ningbo, uma das cidades mais antigas da China. Estou aqui há apenas 5 meses mas tenho aprendido e me surpreendido tanto com essa China tão diferente de tudo que ouvi falar até agora que decidi criar uma página no Instagram para compartilhar um pouco de tudo que tenho visto e vivido por aqui.

Sempre gostei de escrever, mas nunca de fato levei isso a sério por conta das várias ocupações do meu dia a dia, sendo assim, esse espaço unirá a minha vontade de escrever e compartilhar informações.

“Como você foi parar na China?”

Bem, como a maior parte dos brasileiros que vêm pra esse lado de cá do mundo, também vim a trabalho. Sou professora e trabalho em uma escola internacional, como já fazia no Brasil. Trabalho com crianças bem pequenas, e quando digo pequenas, são pequenas mesmo: elas têm entre 1 ano e meio e 2 anos.

Uma amiga já morava em Ningbo há um ano, quando surgiu essa oportunidade e fui convidada. Após ser aprovada em todo o processo seletivo, começamos eu, marido e filhos a nos preparar para essa mudança radical em nossas vidas. E em meio a toda essa preparação da vida pessoal, também iniciei a preparação profissional, por meio de muita leitura pra saber mais sobre a cultura e costumes.

Muitas coisas passavam pela minha cabeça. Ficava imaginando como seria dar aula para crianças chinesas que não falavam a minha língua, com outros costumes e tradição milenar. Como iriam me entender? Será que são muito diferentes das crianças brasileiras? Quais seriam os choques culturais?

Depois de tantas indagações, questionamentos e, claro, muita ansiedade chegamos ao primeiro dia de aula.

Óbvio que esperava muito choro, o que é absolutamente normal para crianças que estão indo à escola pela primeira vez e, como esperado, com as crianças chinesas não foi diferente. Choravam ao se separar dos pais, choravam para comer, choravam para ir ao banheiro e choravam para dormir.

Nada de novo para quem já atua há mais de 10 anos com essa faixa etária. Passadas as duas primeiras semanas, o choro da separação já não era mais tão duradouro, já não tinha mais choro durante o dia, e finalmente, começamos a implementar a nossa rotina diária.

Ao longo das semanas anteriores, já tinha percebido que as crianças estavam bem resistentes à minha imagem de professora; no princípio não me preocupei, uma vez que elas já tinham estabelecido um vínculo com a minha assistente, que é chinesa (Helen), e com o tempo as crianças iriam estabelecer esse vínculo comigo. Porém o tempo foi passando e a situação prevalecia – cada vez que a Helen saía da sala as crianças entravam em desespero, ou seja, as crianças, ao ficarem sozinhas comigo em sala de aula, se desesperavam.

Quando eu saía da sala, uma aluna americana ficava desesperada. O nome dela, acreditem, é Amor: era minha sombra, até de mommy (mamãe) me chamava. E quando eu tentava me aproximar dos meus alunos, eles se escondiam atrás da Helen.

Foi quando me dei conta de que as crianças tinham medo de mim. Aqui em Ningbo não tem tantos estrangeiros quanto em grandes cidades como Xangai, e muitos chineses jamais viram um estrangeiro na vida. Assim, dá pra entender a estranheza das crianças.

Ambiente novo, idioma novo e uma pessoa completamente diferente de tudo que eles estavam acostumados em seu breve tempo de vida, a adaptação escolar já é um período difícil na vida de qualquer criança pequena; é quando elas se deparam com um mundo que vai além de tudo que estavam acostumadas até então. Imagine isso somado a uma “ET” falando uma língua estranha e com fisionomia estranha.

Em meio a tudo isso, tive muitos momentos de frustração e de preocupação, mas depois de conversar e trocar a experiência com outras professoras estrangeiras com vários anos de China no currículo, me acalmei.

Depois de algum tempo de aula e de observação de cada criança, comecei a conhecê-las melhor e saber o que cada uma gostava mais, e a ganhar a confiança. Então comecei a preparar tudo de acordo com a características de cada um deles. Eram diversas atividades durante o dia, brincávamos muito, dançávamos, cantávamos e assim nossos laços se consolidavam.

Dediquei muito tempo dos nossos dias fazendo o que podia para mostrar para cada um deles que a escola era um lugar muito legal, que podiam confiar em mim, que eu estava ali por eles para oferecer a cada um deles o melhor durante os nossos dias.

Dei muito abraço, muito beijo e muito colo! Essa linguagem é universal! E naquele momento a minha única preocupação era propiciar um ambiente seguro e feliz, pois sabia que esse é o caminho para aprendizagem significativa.

Aos poucos e com muita paciência as coisas foram mudando. Respeitei o tempo e espaço de cada um. Uns se abriram mais rápido, outros demoraram um pouco mais. Mas agora, depois de cinco meses estão todos mais que adaptados, não tem mais choro quando Miss Helen sai da sala, agora ganho abraços muito apertados e beijos melecados todas as manhãs e sempre acompanhados de um “Good morning Ms. Ludi”.

Eles já me entendem, já falam várias coisas em inglês, já choram para não irem embora, e esse meu coração aqui se enche de alegria!

Fazer parte de um momento tão importante na vidinha desses pequenos, do outro lado do mundo, é muita realização!

Flexibilidade, vontade de aprender de se reinventar são os ingredientes para a minha transformação como educadora e pessoa. E a China tem me proporcionado tudo isso.

Xie Xie China! Que alegria poder compartilhar isso com todos vocês!

Um beijo e até a próxima.

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22 comentários

Patricia Alves Março 1, 2017 at 4:49 pm

Que legal!
estou dando aulas no Vietnam – voluntario – mas meus alunos sao grandes. Mas em muitos lugares que fui tambem nao há estrangeiros. ja tive ate que tirar selfie com gente na rua hehe

Resposta
Ludmila Lima Março 2, 2017 at 2:10 am

Que bacana Patrícia, é uma experiência incrível né! Sobre as fotos, a gente passa por isso aqui o tempo todo, principalmente as crianças. Beijos e obrigada pelo carinho

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Tais Gomes Março 1, 2017 at 9:08 pm

Poxa, “Ms Ludi” rs, não deve ter sido nada fácil. Também já tive que lidar com crianças em outro país, mas nem de longe tinham a mesma cultura que a China. Era só a barreira do idioma mesmo. Mas, como você disse; “beijo e abraço são linguagens universais”. Boa sorte neste desafio! Força e coragem sempre. Aposto que ainda irá fazer a diferença na vida desses pequenos! 🙂

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Ludmila Lima Março 2, 2017 at 2:09 am

Olá Tais!! No começo não foi fácil mesmo, mas com amor, paciência e perseverança a gente consegue né! Beijos querida e obrigada pelo carinho

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Larissa Março 2, 2017 at 12:14 am

Muito bem , Ludi! Competência e dedicação levam ao sucesso sempre! E vc tem isso de sobra! Sentimos muitas saudades suas, mas esses textos e os seus posts matam um pouquinho das saudades! Seja feliz sempre! ?

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Ludmila Lima Março 2, 2017 at 2:04 am

Oi Lari, obrigada pelo carinho! Também morro de saudade!!! Beijos em todos

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Kesia Gilpin Março 2, 2017 at 3:19 am

Oi Ludi. Que bom ler seu texto. Sucesso para voce sempre.

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Ludmila Lima Março 2, 2017 at 5:31 am

Kesia querida! Obrigada por ter dedicado alguns minutos do seu dia pra ler o texto!! Beijos

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Amanda Ekinci Março 2, 2017 at 4:21 am

Ludmilaaa! Que bom te ver por aquí!! Lembra de mim? (Do grupo da China) Falamos há alguns meses atrás, pelo face, quando ainda estavamos preocupadas sobre a tal da carta convite. Eu acabei desistindo temporariamente da China e voltando para a Turquia. To super feliz que deu tudo certo, que você está aí e de te encontrar por aqui. Beijo grande e cada dia mais sucesso pra ti :* Deixa o nome do Instagram pra gente te seguir!

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Ludmila Lima Março 2, 2017 at 5:30 am

Olá Amanda, lembro sim de você!!Que gostoso ver que meu texto chegou até você. E também deu certo pra você né, não na China mas em outro lugar super legal. O instagram é nos4nachina. Vamos manter contato! Beijos

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Daniela Belém Março 2, 2017 at 11:43 am

Ai, que bacana ler alguma coisa assim. Trabalho na EAB e amo esse ambiente multicultural. E ver uma brasileira indo tão longe me dá esperanças, porque é isso que eu quero também.
Já virei fã do blog e vou ler sempre.

Have a great semester!!

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Ludmila Lima Março 3, 2017 at 12:33 am

Olá Daniela, também trabalhei na EAB, que feliz coincidência! Busque seus sonhos, se especialize, aproveite todas as oportunidades que aparecerem e tenho certeza que vai conseguir ir longe também! Continue acompanhando!

Beijos daqui do outro lado do mundo!

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Paula Março 2, 2017 at 5:11 pm

Adorei seu relato, Ludmila!Também trabalhei como professora de inglês na Coréia e amei a experiência. Mas por sorte meus alunos, já no primário, não tinham medo de mim. Tudo de bom prá você!

Resposta
Ludmila Lima Março 3, 2017 at 12:28 am

Olá Paula,
obrigada por compartilhar a sua experiência, realmente é algo sensacional. Acredito que por eles serem maiores o estranhamento era menor!!
Beijos e obrigada pelo carinho e apoio

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Gabriela Março 5, 2017 at 11:34 am

Bom dia Ludmila, qual é o nome da sua página no instagram!
Adorei seu relato de experiência!!

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Ludmila Lima Março 5, 2017 at 12:10 pm

Olá Gabriela! Obrigada pelo carinho! Meu ig é o nos4nachina!

Beijos

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Ana Cristina Nasguewitz Março 6, 2017 at 2:06 am

Mto legal Ludmila!!! Parabéns!! Eu atualmente moro em Tianjin e dou aula num jardim de infância internacional. Meus aluninhos têm de 2 a 6 aninhos de idade. É uma delícia não é verdade?! Pra mim está sendo uma realização profissional e pessoal e acredito que para vc seja tbm. Continue com seu ótimo trabalho. Kisses!!!

Resposta
Ludmila Lima Março 6, 2017 at 2:55 am

Que legal Ana. Vou te mandar um email com meu WeChat, pra nos conhecermos melhor e trocarmos experiências.

Beijos,
Ludmila

Resposta
Léa Bruna Março 6, 2017 at 6:01 pm

Ludi linda!
Como fico feliz em te ver tão bem, você merece tudo isso e muito mais, estarei aqui sempre na torcida por você!!!

Resposta
Ludmila Lima Março 7, 2017 at 1:49 am

Obrigada Léa querida!!! Muita saudade de todos vocês!

Beijos!!
Ludmila

Resposta
Claudio Lima Março 16, 2017 at 4:48 pm

Boa tarde, Ludmila, sou brasileiro e português, moro em Portugal há 15 anos e sempre tive curiosidade sobre o oriente (China e Japão). Sou professor de informática aqui e já tenho cerca de nove anos de experiência. Nesta escola que você trabalha, não teria uma vaga para mim ai? Falo inglês intermediário e nada de mandarim, mas gostaria de aprender esse idioma.

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Ludmila Lima Março 24, 2017 at 6:47 am

Olá Claudio, infelizmente nível intermediário de Inglês não é suficiente para dar aula em escolas internacionais.

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