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Australianos x aborígenes?

Australianos x aborígenes?

Acredito que toda nação tenha, pelo menos, um evento desastroso, vergonhoso ou cruel em sua história. No Brasil, talvez seja a Guerra do Paraguai; na Alemanha, o Nazismo; e na Austrália, sem dúvida, é a relação com os aborígenes.

Adoro história, aprecio conhecer a cultura dos lugares que visito e saber um pouco mais sobre os antigos “donos” da Austrália.

Há mais de 500 povos aborígenes na Austrália. Sua história começa lá no surgimento da terra, de acordo com sua cultura. A chamada “Dream time” ou Terra dos Sonhos é recheada de histórias contadas por gerações para explicar o nascimento dos rios, as cores dos pássaros, a formação da Austrália. Eu vivo contando as “Dream time stories” para meus pequenos. A relação dos aborígenes com a natureza é linda. Lembra-me muito nossos índios. Respeito, amor, conexão. Pelo menos os que ainda restam no outback. Os que estão nas cidades… Aí é uma outra história.

E para contar esse acontecimento, preciso voltar para a colonização da Austrália, na chegada nos ingleses. Como aprendemos na escola, a Austrália foi uma colônia penal. Ela foi invadida em 1770 pelo capitão inglês James Cook, que fora enviado para investigar as terras até então desvalorizadas. James Cook desembarcou pela primeira vez na costa leste, em 28 de abril de 1770. Seguiu viagem para o norte, sendo que desembarcou no Cabo de York, onde, em 22 de agosto de 1770, proclamou a posse das terras em nome do Rei George da Inglaterra. Fincou a bandeira inglesa ao chão e deu a terra o nome de New South Wales (Nova Gales do Sul).

Somente em 1788 a colonização teve início. As prisões na Inglaterra estavam lotadas e o rei queria enviar os presos com penas maiores de 7 anos para as colônias. Antes da independência dos EUA, era para lá que os condenados iam. Como não havia mais condições, a simples decisão foi encaminhá-los para a Austrália.

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Foto: Flickr
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Arquivo pessoal

Diferente dos portugueses que chegaram querendo enrolar os índios e depois catequizá-los (e claro que teve muita matança também), aqui na Austrália foi um pouco diferente. Desde a invasão britânica, os aborígenes têm visto as suas terras serem roubadas ou destruídas e sua população dizimada. Uma matança organizada, como alguns historiadores chamam.

Até 1992, quando finalmente foi revogado, o princípio legal sobre a terra aborígene, vigente nas leis britânica e posteriormente australiana, era aquele de ‘terra nullius’– o qual entendia que a terra tinha estado vazia antes da chegada dos britânicos, que não pertencia a ninguém e que, portanto, poderia ser tomada legalmente. How crazy is that?

A perda das terras tem tido um efeito devastador tanto social como fisicamente no povo aborígene. A relação dos aborígenes com a terra é holística, sagrada.

Como todas as invasões, mais um problema foi as grandes epidemias que vitimaram milhares– outros ainda foram massacrados. Nos primeiros cem anos de colonização, o número foi reduzido de uma população estimada em um milhão a pouco mais de 60 mil indivíduos.

Durante o século 20 mais um capítulo tenebroso na história desse país incrível: uma política que consistia em retirar as crianças aborígenes dos seus pais, entregá-las a famílias brancas ou colocá-las em escolas das missões para que se erradicassem os traços da cultura e da língua aborígene, as chamadas gerações perdidas. Tem um filme bem famoso que conta uma história real chamado “Rabbit Proof Fence”.

O filme explica ainda que os mestiços, após duas gerações, perdem todos os traços aborígenes, criando, então, uma raça “mais pura” (algum outro episódio da história é semelhante aqui?) As últimas crianças da “geração perdida” datam do início dos anos 70. Isso significa que a história ainda é viva. Imagine o excesso de problema social causado por um ato como esse? Existem versões diferentes sobre o assunto. Uma delas traz como motivo para impedir abuso das crianças, como é feito até hoje. Vários documentos da época contradizem essas versões, prevalecendo o medo de miscigenação.

Em 1992 um julgamento histórico do Supremo Tribunal acabou com o princípio racista ‘terra nullius’ em que haviam sido baseadas as atitudes legais australianas aos direitos territoriais dos aborígenes. A decisão reconheceu a existência do ‘título nativo’ dos aborígenes a grandes partes da Austrália rural. Muitos grupos aborígenes, como os Martu da Austrália ocidental, usaram a decisão para pressionar para o reconhecimento legal deles como donos de sua terra ancestral. Outros, no entanto, não conseguiram superar os obstáculos legais colocados em seu caminho pelo governo.

A história é muito recente. Até os anos 80, eles eram proibidos de entrar em Perth. Hoje em dia, os problemas continuam. Há muita discriminação. Se você pergunta para um australiano mais velho sobre os aborígenes, eles respondem que eles não têm direito a nada e devem ser tratados como escória da sociedade (já ouvi isso).

Ainda bem que a Austrália inteira não pensa assim. Comemora-se, em maio, o “Dia do perdão” e a Austrália pede perdão aos aborígenes por tudo que a invasão inglesa causou a eles.

A verdade é que, atualmente, os aborígenes são marginalizados, muitas vezes, por eles mesmos. Como pedido de desculpas, o governo australiano paga moradia, saúde e escola. Mesmo assim, muitos vivem de drogas e álcool. Há estudos que comprovam que eles são mais fracos a álcool que a maioria das etnias.

Na minha opinião, pelo pouco que conheço da história da Austrália, o que pesquisei para escrever este post e vivendo aqui, acredito que ainda deva demorar anos e mais anos até uma paz definitiva entre os povos, se um dia ela existir. A mudança tem que, certamente, começar dentro de cada um de nós.

Mais interesse? Alguns livros e filmes sobre o assunto:

  • Lousy Little Sixpence
  • Rabbit-Proof Fence
  • Australia
  • Documentary Kanyini
  • Jessica
  • Sally Morgan
  • Stolen by Jane Harrison
  • Benang by Kim Scott

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10 comentários

Cristiane Leme Outubro 10, 2015 at 8:39 am

Belíssimo texto sobre uma realidade que ainda atormenta. Eu particularmente considero a Austrália um país que tem muita dificuldade em lidar com a diversidade e, por conta disso, acaba se tornando uma nação racista, na minha opinião. O que a gente acaba enxergando com o conhecimento da história é que, na verdade, essas nações com problemas de racismo sofreram grande influência do pensamento da matriz colonizadora e ainda não tiveram a capacidade de moldar sua própria identidade, ficando à mercê de uma herança cultural que, de uma forma ou de outra, continuará exercendo sua influência por gerações e gerações. Parabéns por abordar o tema.

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Aline Arruda Outubro 10, 2015 at 8:50 am

Oi Cris, obrigada. Eu vejo o preconceito com os aborígenes, mas a Austrália que eu moro não é preconceituosa. Fui muito bem recebida e sempre tratada como igual. Perth talvez seja diferente porque 35% da cidade é constituída por estrangeiros. Mas essa é a minha experiência e percepção.
🙂
Aline

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Elias Outubro 21, 2015 at 3:09 am

Olá Aline! Essa é uma questão muito complexa (até no Brasil isso daria o que falar). Mas algo que observei, e achei irônico, é que na Nova Zelândia funciona exatamente o oposto: os povos nativos (maoris) estão integrados na sociedade neozelandesa e a língua dos maoris é ensinado nas escolas. O curioso é que Austrália e Nova Zelândia foram colonizados pelo mesmo país, mas tomaram rumos diferentes na valorização e integração dos povos nativos. Saberia me dizer o que a Nova Zelândia fez de diferente da Austrália nessa questão de integrar os povos nativos na sociedade?
Parabéns pela matéria. É difícil achar matérias que vão a fundo nessa questão. Obrigada!

Resposta
Aline Arruda Outubro 21, 2015 at 10:57 am

Oi Elias, muito obrigada por ler o blog :-).
Não é tão simples assim. A Nova Zelandia tem seus problemas com Maori também, mas eles não são os povos nativos, eles são colonizadores também. Fiz uma pesquisa rápida, e não se tem conhecimento do povo nativo, mas como os Maori são guerreiros, é bem possivel que eles tenham eliminado os nativos. A população Maori na NZ é 3% da população. Acho que a grande diferença é que há um esforço da população e do governo em manter a cultura e há centanas de anos, enquanto aqui na Austrália, até 20 anos atrás e até mesmo hoje há muito preconceito.
E outra coisa, os ingleses chegaram lá e aqui, mas uma colonização, mesmo com o memso povo, nunca é igual.

Obrigada mais um vez :-).
Abraços
Aline

Resposta
Allan Outubro 30, 2015 at 12:22 am

Oi Aline, Tudo bem? Gostaria de agradecer você pela contribuição dos textos e experiências vividas. Vou para Perth em Setembro de 2016 e ficarei inicialmente 5 meses. Estou inseguro em relação a diversas coisas mas acredito que com perseverança minha experiência vai ser muito legal como está sendo sua vida aí.

Não consegui achar suas redes sociais para acompanhar seu dia a dia aí, como brasileira vivendo em Perth. Poderia me mandar?

Outra dúvida: como vou de estudante mochileiro e a grana é curta, não terei condições de comprar um carro. Eu pego onda e provavelmente morarei em um lugar proximo da escola(Milner). É muito complicado ir a praia de transporte público para o pessoal que mora mais para o lado de northbridge e east perth?

Obrigado e Boa sorte!

Allan Martins

Resposta
Aline Arruda Outubro 30, 2015 at 5:11 am

Oi Allan, tudo bem?
Que bacana, fico feliz mesmo em ajudar :-).
Insegurança é normal, você estará deixando uma vida que conhece pelo desconhecido. Sabendo da realidade, vindo com uma graninha extra e planos A,B, C, D e E, tudo dará certo.

Eu Não tenho nenhuma rede social ou blog pessoal aberto ao público. Meu facebook é bem pessoal e somente para conhecidos :-).

Transporte público da city para qquer lugar é ótimo. Dá sussa para você morar tanto em northbridge ou easte perth (que são bairros bem legais e cheio de restaurantes e baladinhas) e ir de bus ou trem para praia. Se você surfa, provavel que gostara mais de scabrough, city beach ou trigg. Dá sim :-). No começo, e até aconselho a morar perto da city para você conhecer tudo. E ai com o tempo conhece uma galera e vcs alugam uma casa juntos, isso que a moçada faz :-).

Boa sorte,
Abraços
Aline

Resposta
Neli Maria Julho 28, 2016 at 8:28 pm

Os aborígenes foram quase que extintos !! De um milhão pra 60 mil ?!! Soube que os aborígenes são muito revoltados e bebem muito !! Mas eu soube também que são os mais idosos que ainda tem preconceito tanto com os aborígenes quanto com as pessoas que chegam de vários lugares do mundo ! Muito bom o seu texto , parabéns bjsss

Resposta
Aline Arruda Julho 30, 2016 at 1:48 am

Oi Neli, sim, o relacionamento dos Australianos com os aborígenes ainda é tenso. Existem estudos que falam que os abor;igenes são mais fracos a bebidas e essa é a razão pela qual eles aprecem sempre bebâdos.
Por um outro lado, outros estudos dizem que como o governo oferece tudo para eles como uma forma de indenização, não há motivação para vencer na vida.
Os mais velhos são sim os mais preconceituosos, mas acho que é assim em qualquer sociedade.
Obrigada e obrigada por acompanhar o blog 🙂
Beijos

Resposta
Daniel Rolim Junho 1, 2017 at 3:35 am

Ótima matéria, Aline!
Já vi muito sobre o preconceito escancarado que os aborígenes sofrem até hoje na terra que sempre foi deles. É, sem dúvida, uma história horrorosa.
Só não concordo com o que escreveu em relação à Guerra do Paraguai. Com uma boa pesquisada, e tendo uma visão imparcial sobre o assunto, dá pra se ver que o grande culpado do ocorrido foi o próprio Paraguai, comandado por um ditador que matou a própria família e mandou até crianças pra uma guerra que ele mesmo começou.

Resposta
Ni Janeiro 29, 2018 at 8:46 pm

Do Brasil vc ñ falou dos negros que foram estuprados,colonizados,explorados e mortos.

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