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Dificuldades do início na Espanha

“Prefiro sofrer na Europa” é uma frase que constantemente vejo nas redes sociais com memes sobre desilusões amorosas, contas chegando no final do mês ou problemas no trabalho. Confesso que eu, inclusive, compartilhei muitos desses memes enquanto ainda morava no Brasil, com essa falsa ideia de que sofrer na Europa seria muito melhor que sofrer no Brasil. Mal sabia eu que estava bem enganada.

Apenas para fazer um breve resumo de minhas razões, até 2014 trabalhava com consultoria tributária a expatriados, ou seja, basicamente revisava todos os temas de impostos dos estrangeiros que trabalhavam no Brasil e dos brasileiros que aceitavam propostas de trabalho no exterior. Um trabalho que me permitiu abrir a mente para muita coisa com relação a viver no exterior, adaptação da família, o retorno ao país de origem etc. E eu sempre tive aquela voz dentro de mim que dizia que queria ter essa experiência de vida. Tentei muitas vezes, mas, infelizmente, nunca deu certo uma transferência. Em outubro de 2014, depois da anésima tentativa negada, acabei por conformar-me que isso nunca aconteceria comigo e tratei de seguir com a minha vida.

Mas como o destino (ou o karma, o cosmos, o universo, enfim) é uma coisa eficiente, em março de 2015, meu então namorado comentou comigo que uma vaga igual a dele havia sido aberta na matriz da empresa onde trabalhava e, na primeira semana de abril de 2015, ele me ligou para dizer que conseguiu a vaga e me perguntou se eu iria com ele. Ficou decidido, então, que eu iria para a Espanha fazer um MBA e depois tentaria recomeçar a vida.

Não entrarei em detalhes sobre os trâmites, isso fica para um próximo texto!

Enfim, estava na Europa! Nunca havia estado antes e estava radiante de já chegar para ficar. Mal imaginava o que me aguardava…

Cheguei num domingo, conheci o centro de Madri, enfim, um dia maravilhoso. Mas a segunda-feira chegou. Ele foi para o trabalho, normalmente, e eu fiquei em casa. A primeira semana, maravilha, estava de férias e não me incomodou o fato dele chegar em casa mais tarde, afinal de contas, estava lá fazia pouco tempo e tinha que trabalhar duro para passar a boa impressão. A segunda semana também não foi ruim. Mas depois do primeiro mês, a coisa já começou a ficar difícil. O tempo não passava para mim; tinha 5 horas de diferença de fuso horário com o Brasil e eu não falava uma palavra em espanhol, então tinha medo de sair sozinha. Tudo isso, somado ao fato de ele sair cedo para trabalhar e voltar tarde, enquanto eu ficava sozinha em casa todos os dias, nos causou várias discussões, a maioria obviamente partindo de mim.

Acho que o mais difícil de tudo é a mudança da rotina; para alguém que estava acostumada a ter sua carreira, seus amigos, sua rotina bem estabilizada, chegar em um país onde eu não conhecia o idioma, não conhecia ninguém, não tinha visto, dinheiro (porque bem quando cheguei o euro deu um salto estratosférico, então meu dinheiro valia ¼), foi muito difícil. Chorei muito, me senti inútil, senti que jamais me reergueria, que tinha cometido um erro em deixar tudo por amor, que deveria ter sido mais racional em minha decisão.

Tive a sorte de ter uma pessoa ao meu lado que acreditou em mim e no meu potencial e sempre me dizia: “vai ficar tudo bem”. Me incentivou a assistir televisão para aprender o idioma, treinava comigo à noite em casa. Eu, por outro lado, aprendi a realmente gerenciar uma casa, a criar um lar e a ser humilde de um jeito que nunca pensei que seria capaz.

Apesar de ser muito óbvio agora, aprendi na marra que o sofrimento independe da sua localização geográfica. Que o seu sucesso depende de você e dos seus esforços mas que, realmente, ter uma mão estendida suaviza muito o processo.

Aprendi também que podemos conquistar amigos em qualquer etapa da vida e que o que importa é você nunca se esquecer da sua essência. Mas mais do que isso, aprendi que, no fim, tudo dá certo SIM e que sofrer na Europa é tão ruim quanto sofrer em qualquer outro lugar do mundo.

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6 comentários

raquel Julho 6, 2017 at 11:40 am

Amei, muito bem escrito e cheio de verdades!

Resposta
Denise Julho 12, 2017 at 12:51 pm

Obrigada, Raquel!

Resposta
Thais Julho 6, 2017 at 9:36 pm

Oi prima!
Adorei o texto!
Quando eu fui morar no Japão não senti dificuldade nenhuma! Estava realizada na vida! O Japão era meu sonho, fetiche supremo e foi meus anos dourados! Tudo quase perfeito!
Mas nessa segunda etapa aqui na Colômbia ?? foi mais difícil. É vim para cá e logo em seguida perdi meu pai. Essa experiência foi extremamente dolorosa. Eu comecei a trabalhar logo depois desse evento catastrófico na minha vida é isso me ajudou um pouco com o processo de luto, mas eu brigava muito com o marido dizendo que ele não entendia o que eu estava sentindo!
Esse vazio horroroso é péssimo, e se sentir no vazio sozinha é pior ainda! Não que eu estivesse sozinha mas eu não estava com aqueles (mãe e irmãos) que sofriam na mesma intensidade que eu! É isso realmente foi estarrecedor… uma fase difícil mas que graças a paciência do meu amor, as visitas da minha mãe a Colômbia e solidariedade dos irmãos via telefone é mensagens e principalmente aos novos e maravilhosos amigos que a Colômbia me deu, pude passar por essas trevas.
A dor da saudades segue, mas minha vida na Colômbia também seguiu e entendi que esse país é maravilhoso e que ele não tem culpa do vazio que eu sentia. A única lástima é que meu pai não pode vir conhecer esse lugar fantástico que é a Colômbia! Pelo menos eu pude levar ele é minha mãe ao Japão!
Enfim…. quase escrevi um post próprio aqui! Hahaha perdão! Só para compartilhar uma experiência contigo!
Beijao e ainda vou te visitar!
Thais

Resposta
Denise Julho 12, 2017 at 1:02 pm

Que comentário mais lindo, apesar de saber do quanto sofreu. Nem posso imaginar a dor, prima, é algo que não se pode mensurar. A sorte é quando temos essa estrutura maravilhosa de família, que nos ajuda mesmo sem saber que está ajudando. Acho que você deve ter tantas coisas legais pra dividir com o grupo, pq vc nao se inscreve para participar? Estou há pouco tempo aqui, mas é uma troca de experiências muito legal, e é gratificante. Um beijão e venha mesmo visitar! Nossa casa sempre estará aberta!

Resposta
Letícia Pereira Julho 13, 2018 at 1:48 am

Oi Denise,tudo bem? Texto maravilhoso …
Em setembro estarei indo para Barcelona, confesso que estou com muito medo , pois não sei de nada AINDA. Estou estudando pela internet,não está sendo nada fácil ! Acho muito difícil a língua Catalão! Se puder dar algumas dicas vai ajudar muito !!!

Resposta
Liliane Oliveira Julho 14, 2018 at 2:39 pm

Olá Letícia,
A Denise Neves parou de colaborar conosco, mas temos outras colunistas na Espanha que talvez possam te ajudar.
Você pode entrar em contato com elas deixando um comentário em um dos textos publicados mais recentemente no site.
Obrigada,
Edição BPM

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