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Portugal

Mudança para outro país depois dos 50

A mudança para outro país demanda não só desapego material e emocional, mas também  muita coragem e uma pitadinha de loucura. Confesso que nem sempre fui corajosa ou aventureira, mas com o passar dos anos e a vontade de experimentar o novo, viver o que ainda não foi vivido, o temor de ver a vida passar em brancas nuvens me fez respirar fundo e caminhar  para desbravar esse velho desconhecido, o mundo.

O Brasil se tornou um lugar que eu desconheço, com pessoas que eu não pensava encontrar, ou eu antes não via? Está em momento de transformação assim como eu, mas apesar de tudo, partir dói. E não é fácil abdicar de sentir o cheirinho doce de mais um neto bebê, nem de ver o outro adolescer e sentir que não estará ali pra curtir as desventuras tão típicas da idade.

Difícil deixar os pais idosos que apesar de boa saúde,  não sabemos quando de nosso próximo encontro ou derradeira separação. Não estarei em muitas fotos de aniversário de família, e acompanharei a vida deles a escorrer pelos vídeos e fotos do celular. Mas como dizia o filósofo, tudo o que sei é que nada sei… e se ainda não sei, saberei. Sou uma aprendente nesta vida, e como tal, sujeita a erros e acertos. Vamos crescendo, errando e acertando, tentando. A mudança não foi um partir inconsequente. Demandou muito tempo de pesquisa, de leitura, de contas debruçada sob papéis, de noites separando o que doar, o que vender, o que levar e guardar, e descobrir que acumulamos desnecessárias correntes que só nesta hora vemos quão difíceis são de quebrar. Me despojei e vim com o que pude trazer pra iniciar uma nova vida, uma menina na meia idade!

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Leva-se tempo pra acomodar a mente e o coração ao novo viver. Os sotaques e dialetos parecem como uma língua estranha, os cheiros e temperos não nos remetem a nada, e nossa memória afetiva começa a fazer novos registros, em solo desconhecido. Temos que organizar o novo ninho, criar novos hábitos, novos caminhos para o cotidiano, que antes nem nos dávamos conta como fazíamos. O dono da padaria, do açougue, o restaurante preferido, isso tudo fica pra trás e novos experimentos e conhecimentos fazem uma simples ida ao supermercado uma viagem cheia de descobertas.

A saudade aperta e as tecnologias diminuem a distância, mas nenhuma tem o poder curativo do abraço de um filho.  O trabalho preenche, ou ao menos tem este poder, de nos fazer inseridos em um grupo, e eu preciso de corpo e mente em movimento, então, achando que Portugal que, como muitos outros países europeus, necessitado da mão de obra, procurava por mim, encontrei a porta fechada.

Sou pós-graduada em boas universidades no Brasil e com uma licença não remunerada no serviço público, mas aqui não consigo exercer minha profissão. E não sou só eu, são muitos brasileiros fora de sua área e fazendo trabalhos que ninguém quer. Portugal, apesar de ter um salário mínimo bem mais alto que o Brasil, 600 euros, ainda é insuficiente para o custo de vida do trabalhador comum. Se pensarmos que o preço de aluguel (agora inflacionado pela vinda de brasileiros) de um apartamento T2 (dois quartos) é de 350 ou 400 euros, vemos que ocuparia no mínimo 50% do salário, então muitos jovens migram para outros países da Europa, especialmente França ou Bélgica para trabalhar.

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O resultado é um país de idosos, mas diferente de outros países, vejo os idosos valorizados por aqui. Não tem preferência nas filas, aliás pra quê, se eles tem todo o tempo do mundo? Mas tem descontos em preços de passagens de trens e ônibus, espetáculos e peças teatrais. Os idosos por aqui vivem muito, então é comum encontrarmos senhoras especialmente com mais de cem anos. Eles estão em todos os lugares, nas ruas indo aos supermercados, nas praças, nos cafés junto a família ou amigas num gostoso bate papo. Não por acaso tem um número significativo de lares de idosos acamados ou não. Este é um dos ramos de trabalho onde, as brasileiras vem e encontram vagas, pois além de contarem com poucos profissionais da área, a demanda nunca é suprida.

O trabalho do imigrante por aqui, salvo raras exceções, é o trabalho que o nativo não desempenha. Trabalho muito duro, alguns com jornadas de 12 horas e salários baixos. E ouvimos muitas vezes que determinado empregador não contrata brasileiros e outros nos sugerem não colocar a nacionalidade no currículo, nem a idade ou não será chamado nem pra entrevista. Meu caso tem dois agravantes, sou brasileira e passei da idade para ser contratada, apesar de desejar, ser qualificada e ter disposição para o trabalho.

Existem muitas portuguesas em idade avançada, ainda no mercado. Elas estão principalmente no serviço público, mas em serviço braçal também. As faculdades seniors existem por aqui também, e oferecem um projeto curricular com várias disciplinas e atividades culturais formativas em regime não formal e sem certificação para pessoas a partir de 50 anos de idade, mas permitindo aos cidadãos de qualquer idade a partir dos 18 anos.

Uma outra grande diferença do Brasil é que os profissionais da área da educação, em sua maioria, são portadores de pós graduação e doutorado, mas não existem empregos para todos. Além disso, aqui no serviço público, são designados todos os anos para outras cidades que não a de sua residência, então, muitos acabam desistindo por não compensar financeiramente e vão para outras áreas, desempenhando outra função. Busco ainda outras alternativas, como o mundo da cozinha que eu gosto e sou boa no que faço, mas gosto de gente, de conversar, de conhecer de desbravar mentes e a maioria dos caminhos tem obstáculos resistentes que me impedem de chegar.

Mas não me dobro, sou dura de se quebrar e farei meu espaço, da minha cor, do meu jeito, andando no meu ritmo de mulher brasileira que aprendeu a duras penas que o sinal está fechado pra nós… Como dizia a música, e não somos mais jovens. Mas contornamos o caminho e aguardamos, uma hora o sinal abre e podemos finalmente ir de encontro ao que merecemos.

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4 comentários

Eliane Fevereiro 5, 2019 at 4:35 pm

Que texto lindo, Neide!!!! Tenho 51 anos, morando atualmente na Cidade do Mexico, tenho certeza que o sinal abrirá em breve p você!!! Escreva mais sobre Portugal, amei!!!

Resposta
Simone Fevereiro 27, 2019 at 3:37 pm

Neide, muito obrigada pelo belo texto. Faco 50 anos esse ano, moro ha 3 anos na Dinamarca e continuo lutando para entender o dinamarques.
Meu lema agora é um dia de cada vez.
Forca e coragem para todas nós, bravas guerreiras que como voce bem mencionou Meninas de meia idade.
Beijo.

Resposta
Neide Figueira Março 5, 2019 at 2:30 pm

obrigada,fico feliz que tenha gostado.vou continuar escrevendo sim.
beijokas

Resposta
Neide Figueira Março 5, 2019 at 2:34 pm

obrigada! na luta sempre,afinal somos meninas ainda!
bjks

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