Natal no País de Gales e saudades da família

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Nadolig Llawen (Feliz Natal em gales)
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Dezembro. Natal no País de Gales. Família. Eu acho que essas três palavras nunca merecem ficar mais ligadas do que no mês de dezembro.

Revisando os artigos das “minhas meninas” aqui do BPM, pude aprender os tantos tipos de comemorações de Natal que acontecem em cada país onde elas vivem. Há as diferenças entre Papais Noéis; as diferenças entre os pratos típicos; e que, em alguns países, devido à religião, nem Natal existe! E o jeitinho brasileiro tem de ser acionado para que se tenha, com os vizinhos brasileiros de condomínio, algo mais parecido com o nosso Natal brasileiro possível. E assim, a gente que é expatriado mata a sede de Natal.

Me mudei pro País de Gales na véspera de ano novo, então meu primeiro Natal europeu só foi acontecer um ano depois. Meu marido e eu morávamos em Napoli, na Itália, naquele ano (2008), mas viemos passar o Natal com a família dele em Gales. Apesar de estar em família, o que me deu um sentimento de conforto, o Natal deles não podia ser mais diferente dos meus Natais no Brasil.

No Brasil, íamos à Missa do Galo e depois reuníamos a família estendida na casa de alguém para a ceia e o famoso amigo secreto – cada um recebia um  presente, sem exagero de compras e tals. Fazíamos uma oração, comíamos um bocado, papai geralmente dormia na frente da TV (fofo demais!) e a conversa ia até altas horas. No dia seguinte, churrasco na casa de outro membro da família, geralmente na dos meus pais. Alguém trazia sobremesa, o papai se encarregava do churrasco e da cerveja, e a mamãe fazia o melhor arroz e vinagrete da face da terra. A gente comia bastante, colocava o papo em dia com os primos, jogava UNO, contava piadas, comia sobremesa, conversava mais um pouco, e antes de ir embora, as tias se revezavam para lavar a louça. Lá pelas 4 da tarde, o papai e algum tio dormiam no sofá, enquanto a mulherada continuava na prosa, regada com um café fresquinho. Sabe aquela coisa de “coisa simples, mas boa demais da conta”? Pois é, meus Natais no Brasil eram assim.

Meu primeiro Natal aqui no Reino Unido foi meio que um choque. Não teve ceia na véspera de Natal. Não fui à Missa do Galo. Foi uma noite, digamos, calma e sem muitos acontecimentos, com a exceção de alguns familiares que nos visitaram para uns drinks e um lanchinho. Eu bebi muito Baileys e acabei indo dormir antes de todo mundo. Não sem notar que os pés da árvore de Natal pareciam um depósito da Amazon; nunca tinha visto tanto presente junto na minha vida! E só havia quatro pessoas na casa: meus sogros, meu marido e eu. No dia seguinte, abrimos os presentes. Que vergonha, gente… Ganhei presente de praticamente todo mundo da família! E eu só tinha comprado (trazido de Napoli) presente pros sogros, avó do meu marido e pra irmã e cunhado dele, onde íamos fazer a ceia de Natal. Não tinha dado presente pra mais ninguém. Não estava acostumada com isso. No Brasil, ganhava presente dos meus pais e o de amigo secreto, e olhe lá. Claro que, quando criança, era diferente, mas com 32 anos de idade?

Mais tarde, iríamos à casa da minha cunhada, onde temos passado todos os Natais que ficamos por aqui. E como é diferente! Todo ano, a primeira visita que fazemos é para a avó do meu marido. É como um ponto de encontro da família. Encontramos as primas do meu marido, a tia, e os irmãos, já que eles fazem a ceia com as famílias das esposas. Depois, vamos para a casa da minha cunhada. Ao chegarmos lá, a comida está praticamente pronta. Vamos todos ao pub mais próximo, onde encontramos alguns amigos para um drink ou dois. A ceia é animada e a gente quebra os Christmas crackers, um “brinquedo” que duas pessoas puxam, cada uma de um lado. Daí, dá um estouro, tipo um traque de festa junina, e quem fica com o pedaço maior ganha a surpresa que vem dentro. Há vários tipos de Christmas crackers, desde os mais simples e baratos, com surpresas tipo piadas, dados, etc, até os mais elaborados e caros, com surpresas mais chiques. Ah, também usamos tipo uma coroa que vem dentro dos crackers. Depois da sobremesa, vamos todos para a sala, onde nos dividimos em grupos e jogamos Trivial Pursuit, um jogo de conhecimentos gerais. É uma farra, e geralmente a gente esquece de contar os pontos. Resultado: todo mundo ganha!

Natal no País de Gales
foto de arquivo pessoal

Durante o dia, geralmente antes do almoço, falo com minha família no Brasil. Graças aos horários de verão no Brasil e do inverno aqui, a diferença é só de duas horas, então fica fácil de combinar os horários.  Às vezes dá pra falar no Skype, mas se não, vamos de Whatsapp – bendito Whatsapp!-, e falo com meu pai, minhas irmãs, e se ele está a fim (palavras dele haha) a gente troca fotos durante o dia e gravo um vídeo dos gringos dizendo “Feliz Natal” em português. Me divirto, porque no final cada um diz uma coisa diferente, que só se parece com “Feliz Natal”.

É um dia bom, super bom.

Mas a saudade, gente… Ah a saudade… Quem mora fora do Brasil sabe o quanto essa época é meio doloridinha… Claro, saudade existe durante todo o ano, mas é durante o Natal que a falta da família cutuca fundo no coração. Dezembro, para mim, é um mês de contemplação. Parece que o coração entende que vai ter, mais uma vez, de passar a data longe daqueles que a gente tanto ama. Ele fica meio melancólico, meio sensível, e as lembranças de Natais passados fazem parte do meu dia a dia durante o mês de dezembro. Mas são essas lembranças que me motivam a escolher os cartões de Natal mais fofos que posso encontrar e escrever com tanto carinho para mandar (e torcer para chegar a tempo, né?): um para o papai – esse é o 4º. Natal que a mamãe não está mais com a gente; um para a irmã mais nova; um para a irmã do meio e o cunhado; e um para o sobrinho, que mesmo quando não está a fim de falar ao telefone com a tia distante é o trenzim mais fofo desse mundo! 

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Daniela é nascida e “crescida” em Uberlândia, MG, e já quis ser muitas coisas na vida: arqueóloga, médica legista, diplomata, advogada penal... Se formou professora de inglês. Viveu em Napoli, Itália, e depois de um ano por lá, “fincou raízes” no País de Gales, com o marido galês, em 2009. Se apaixonou pelo país “adotivo”, pelas oportunidades de aprendizado e pela recepção calorosa dos galeses. Em Cardiff, capital do país, fez mestrado em Inglês e Escrita Criativa. Hoje trabalha na Cardiff University e dá aulas de inglês via Skype. Publicou seu primeiro livro, Loveandpizza.it, em 2016 e adora coisas simples: viajar, cachorros, praia, chocolate, ler (principalmente chick lit e crime), fotografia, castelos, história medieval, tudo sobre reis e rainhas e acredita que música espanta qualquer tristeza. Morre de saudade da família e dos amigos que deixou no Brasil, mas diz que só sai do País de Gales se for para morar na Itália, na beira do mar.

5 Comentários

  1. Olha só, sou uma uberlandense casada com um galês que, pela primeira vez desde 2008, não vai passar o Natal no País de Gales. Vim trazer a pequena para passar o Natal com vovó e vovô e a bisa, e matar aquela saudade da terrinha e do pão de queijo ???? Estamos adorando, mas confesso que sentirei falta da família galesa, dos Christmas crackers (que eu cheguei a comprar mas fiquei com medo de ser barrado na mala), do Christmas pudding e da caminhada (congelante) na beira da praia no Boxing Day. Acho que depois que nossos corações se dividem entre duas pátrias, não dá pra fugir da saudade ❤️
    Feliz Natal pra vocês!

    • Gente… olha só… que coincidencia gostosa, Ana Carolina! Já te achei no Instagram e já estou te seguindo (The Writing Shed). 🙂
      Onde voce mora no País de Gales? Estou com uma invejinha do seu pão de queijo e de matar a saudade da terrinha. Estaremos aí em Fevereiro. Fiquei olhando sua foto pra ver se te conhecia, acredita? Eu concordo com você, sabe? O País de Gales me adotou, e vice-versa. As pessoas aqui são bem acolhedoras e eu AMO morar aqui. Me avisa quando voltar, adoraria te encontrar pra tomar um café e prosear. 🙂
      Um abraço e Feliz Natal pra vocês também!
      Dani

      • Oi Dani, por enquanto estamos morando em Berkshire, mas minha cunhada mora em Swansea e nós devemos nos mudar pros arredores de Bridgend até o meio do ano, se tudo der certo – ainda não sabemos onde, mas estamos procurando. Adoraria tomar um café sim, vamos nos falando! ????

  2. Que saudades desses “natais”… Tempos que não voltam mais, mas a cada ano a riqueza das graças de Deus se derramam sobre nós em novas lembranças! Que esse Natal derrame sobre as vidas de vocês a presença do menino Deus!

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