Português como língua de herança nos EUA

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Português como língua de herança nos EUA.

Há pouco mais de dez anos, quando eu me mudei para os Estados Unidos, eu ainda não tinha filhos, mas tinha uma certeza: se o(s) meu(s) filho(s) nascesse(m) nos EUA, eu faria todo o possível para manter o português vivo dentro de casa.

Com o nascimento do meu menino quatro anos após a minha chegada, eu pude colocar em prática as ideias que eu tinha a respeito do bilinguismo. No primeiro momento, dei início ao processo munida apenas da intuição e dos exemplos práticos das pessoas que aportaram antes de mim na terra do tio Sam. Com o tempo, me empenhei em leituras e cursos e percebi que há um campo fértil para o aprendizado e pesquisa sobre bilinguismo e, mais especificamente, sobre o português como língua de herança (PLH).

Afinal, o que é o português como língua de herança?

Grosso modo, o PLH é a língua portuguesa falada pelos brasileirinhos nascidos nos exterior com características e dialetos próprios da comunidade em que está inserida. O PLH difere do português falado no Brasil (e dos demais países lusófonos) justamente por causa das nuances próprias do ambiente em que ele se desenvolve.

Para fins de esclarecimento, vale lembrar que, metaforicamente, a língua é um organismo vivo e que, portanto, sofre modificações. O PLH é bom exemplo disso. O português de herança falado nos Estados Unidos certamente será diferente do PLH na França ou México. É muito comum observar uma tradução literal da língua majoritária no discurso do falante de herança. Por exemplo, ao invés de falar “para que serve isso?”, o falante de herança nos Estados Unidos pode dizer “o que é isso para?” em uma tradução exata de “what is this for?”

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Quais seriam as estratégias para manter o português vivo entre os brasileirinhos nascidos no exterior?

Há várias maneiras de conduzir o aprendizado das crianças e garantir o bilinguismo. Não há uma regra que sirva para todos. A escolha do método vai depender das características da família e do que se enquadra melhor aos seus estilos de vida. Na minha casa, por exemplo, como o marido e eu somos brasileiros, optamos por falar somente em português com nosso filho desde o seu nascimento (desde a gravidez para ser mais exata). Esse método é conhecido por “língua minoritária em casa”. Propositadamente, deixamos o aprendizado do inglês a cargo da escola. Assim, as primeiras palavras do meu filho foram em português. Na medida em que ele foi crescendo, introduzi o aprendizado formal da língua através da alfabetização em casa, no que eu gosto de chamar de home schooling parcial, mas isso é assunto para outro texto.

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Atualmente, o meu menino está com seis anos e se comunica com desenvoltura tanto em inglês quanto em português. Muitas vezes, ele busca no inglês as palavras que lhe faltam no vocabulário em português e vice-versa.

Quando se trata de famílias multiculturais, geralmente os pais optam pelo método chamado “cada pessoa uma língua” ou OPOL (do inglês one person – one language). Como o nome sugere, essa estratégia sugere que cada pai se comunique com a criança em uma língua diferente, preferencialmente, a língua materna de cada um. Acredito que essa técnica seja muito interessante, inclusive, pela relação emocional desenvolvida entre os pais e a criança através da língua e por permitir o desenvolvimento simultâneo e equilibrado das duas línguas aos mesmo tempo.

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Infelizmente, nem todas as pessoas se dão conta dos benefícios adquiridos através do bilinguismo. Certa vez, um amigo me perguntou com curiosidade genuína quais as razões que me levavam a ensinar português para o meu filho. Pessoalmente, eu acredito que o aprendizado da língua portuguesa pode auxiliá-lo na construção de sua identidade cultural. Mesmo que o meu filho tenha nascido nos Estados Unidos, ele também é brasileiros por direito e por herança. E, imagina só, um brasileiro que não sabe falar português? Outra motivação para o ensino do PLH passa pelo fortalecimento das relações familiares. Já que grande parte da família vive no Brasil, o meu marido e eu concluímos que seria muito importante que nosso filho estivesse apto a se comunicar facilmente com os avós, tios e primos.

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Além dos perspectivas abordadas acima, o bilinguismo amplia as oportunidades de trabalho em um mundo cada vez mais globalizado. Para quem não sabe, o português é a sétima língua mais falada no mundo com 191 milhões de falantes. E, caso você ainda não tenha se convencido das vantagens do bilinguismo, saiba que a ciência aponta melhoras nas funções do cérebro de pessoas bilingues.

Segundo a neurocientista Ellen Bialystok, o uso regular de duas línguas previne o aparecimento de sinais da doença de Alzheimer. Qualquer que seja a sua motivação ou estratégia, ensine português para o seu filho. O bilinguismo é um presente fascinante que você pode deixar para ele.

Fotos: Arquivo pessoal.

Mais informações sobre o tema:

15 Comentários

  1. Parabéns! Muito interessante e útil seu texto! Tenho um menininho de 2 anos e desde sempre falamos com ele em português (meu marido e eu), mas ele recebia muita influencia da empregada indonésia e falava palavrinhas em ambos idiomas. Com 1 ano e meio, durante as férias no Brasil, ele ganhou uma fluência incrível no português e imaginei que teria “esquecido” o indonésio. Atualmente, ele vai à escola que ensina em inglês e se comunica com cada um de acordo com o idioma que ele sabe que a pessoa entende, ou seja, comigo ele fala em português, com os amigos e professora em inglês e com a empregada em inglês e até indonésio! Impressionante como estas crianças são muito mais capazes do que imaginamos! As pessoas não deveriam poupar seus filhos de aprenderem novos idiomas, eles se adaptam melhor que qualquer um de nós, adultos! 😉

  2. Parabéns pela matéria Marcia!!! adorei a maneira simples e objetiva como você abordou o assunto. Mandei sua matéria para minha filha casada com inglês e vivem na Nova Zelandia. Eles pretendem ter filhos no próximo ano, eu já me candidatei a ensinar o português como uma das linguas mãe para ele por considerar muito importante pelos dois aspectos cultural e familiar. bjs.

  3. Muito bom, tenho lido bastante sobre bilinguismo recentemente. Tenho uma filha de 2 anos, Meu marido e Australiano e Moro na Australia ha 10 anos. Mas minha missao e um pouco mais complicada, tendo um casamento e uma vida familiar em ingles, o Portugues pra mim e quase um exercicio que tenho que exercer diariamente, tentando me policiar, nao so porque Meu cerebro automaticamente fala ingles como primeira lingua ha muitos anos mas tbm porque ja esqueci de muitas palavras e como ensinar corretamente algumas coisas em Portugues.

  4. Excelente artigo! Bilinguismo é um assunto extremamente interessante. As crianças realmente têm facilidade em aprender línguas, mas é bom lembrar que no caso dos pais falarem línguas diferentes, deve haver consistência. Se o seu marido fosse americano, por exemplo, você teria que ser firme em dobro pro seu filho falar português porque o inglês seria ainda mais forte pra ele, já que tudo ao seu redor está em inglês (e nessa situação hipotética, o pai também falaria inglês). Acho muito estranho quando a família que mora fora opta por não ensinar ou insistir no português – eles têm direito à fazer parte da cultura também!

  5. Obrigada Marcia. Adorei o texto!!! estou gravida de 6 meses e umas das primeiras coisas que estamos implantando e o uso da lingua portuguesa exclusivo na nossa casa (meu marido tb e brasileiro). Moramos em NY e gostaria de saber se vc teria dicas de livros e materiais didaticos que eu pudesse estar implantando de pouco a pouco. Ja fiz uma conpra enorme de livrinhos de bebe, com formas, animais, cores tudo em portugues. So vou expor ela a livros em portugues ate comecar a ir pra escola. Vc tem algum programa de televisao ou youtube channel que possa indicar, que seja educativo mas em portugues.
    Desde ja, obrigada!

  6. Adorei seu texto, Márcia, pensamos exatamente da mesma maneira! Sou nova aqui no blog, estou lendo a maioria das colegas para não escrever nada muito parecido, mas também já trabalhei com crianças bilíngues aqui na Islândia, numa associação de pais voluntários que dão aulas a filhos de estrangeiros ou de casais mistos, fundei o grupo de português com outros colegas portugueses e angolanos e hoje , eles (não estou ensinando no momento) têm mais de 40 crianças (aqui é tudo bem pequenino, o país todo tem 320 mil habitantes). Boa sorte para você e muito sucesso para seu filho!

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