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Ramadã na Turquia

Ramadã na Turquia.

O primeiro contato real que eu tive com o Islamismo foi na Turquia. Talvez por ser um Estado Laico, quase nunca eu realmente lembro que moro em um país muçulmano. Diariamente, o meu contato com o Islamismo ocorre de forma muito suave: é o chamado da oração, cinco vezes ao dia, vindo das mesquitas; é uma mulher ou outra na rua cobrindo os cabelos com véus coloridos; é um amigo turco mais religioso que, no meio de um passeio no shopping, pede licença para ir orar na Mescit, salas especiais reservadas para esse tipo de atividade… Quando falo do contato “suave” com o Islamismo, obviamente, me refiro a questões ritualísticas. De forma menos óbvia, certamente tenho muito contato com o Islamismo de uma forma ou de outra. Devido a essa falta de tradições islâmicas na minha vida diária na Turquia, as minhas expectativas para o Ramadã não eram assim tão elevadas, no sentido de ter a oportunidade de ter uma aproximação mais significativa com o Islamismo e as tradições islâmicas. Felizmente, eu estava enganada.

Resumidamente, o Ramadã é o nono mês do calendário lunar islâmico. Em 2018, o Ramadã terá início na noite do dia 15 de maio e será finalizado na noite de 14 de junho. Acredita-se que nesse mês, o profeta Muhammad recebeu a revelação dos primeiros versos do Alcorão. Por ser considerado um mês sagrado, espera-se que o muçulmano, durante esse mês, intensifique as suas práticas religiosas, de forma que possa se conectar de forma mais profunda com Deus. Uma dessas práticas diz respeito ao jejum, um dos cinco pilares da religião islâmica. É esperado, então, que o muçulmano se abstenha voluntariamente de comida e bebida entre o nascer e o pôr do sol. O jejum, no entanto, não é encarado como uma punição, mas sim como um ato de adoração e exercício de autodisciplina. Os detalhes concernentes ao Ramadã e ao jejum são inúmeros, de forma que seria impossível falar sobre todos eles em apenas um texto. Aqui vou me deter principalmente à minha experiência na Turquia.

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A chegada do Ramadã na Turquia se assemelha muito com a chegada do Natal do Brasil. A atmosfera do lugar começa a mudar, como se algo realmente especial estivesse para acontecer. Os supermercados começam a vender em abundância comidas mais típicas para esse momento, tais como tâmaras (muito utilizadas na quebra do jejum), Ramazan pidesi (uma espécie de pão), sobremesas como Güllaç, entre muitas outras coisas. Até mesmo as embalagens de alguns itens, como bebidas, vêm enfeitadas com imagens que fazem referência a esse mês sagrado. Muitas famílias limpam e organizam a casa de forma mais caprichosa, comprando até adereços para decorá-las. Também é comum a troca de presentes e ações de caridade.

É importante ressaltar, no entanto, que apesar da grande maioria dos turcos se autodeclararem muçulmanos, há uma grande parcela da população, pelo menos em Ancara, que não pratica nenhum dos rituais envolvidos no Ramadã. As praças de alimentação nos shoppings estão igualmente lotadas durante o mês do Ramadã, tais como estão em qualquer época do ano.

Sortuda como sou, fui premiada de conviver com turcos praticantes e conscientes que me apresentaram o Islamismo da melhor maneira possível: com os seus próprios comportamentos. Havia uma coerência em tudo o que eles faziam. Eles sabiam exatamente o porquê de cada um dos rituais. Não era o jejum pelo jejum, mas era um exercício de compaixão e demonstração extrema de dependência de Deus. O que escreverei nas próximas linhas é totalmente baseado nas conversas com eles e no que observei em seus comportamentos no meu primeiro Ramadã na Turquia, em 2017.

Alimentar-se e hidratar-se é uma das necessidades mais básicas do ser humano. Sem o suprimento dessa falta, o ser humano fica impossibilitado de desenvolver de forma eficaz qualquer atividade. É uma das necessidades mais primitivas, se não a mais primitiva, da condição humana. Ao sentir fome e recusar o alimento, apesar de poder ter acesso à comida a qualquer momento, acredita-se que um senso de autocontrole é fortalecido. Ora, se alguém consegue controlar um dos impulsos mais imediatos da condição humana de forma voluntária, todos os outros impulsos que podem afastar o ser humano de Deus ou fazê-lo caminhar por um caminho incorreto, serão controlados de forma mais fácil. O jejum, então, não é apenas de alimento. Especialmente nesse mês, o fiel deve fazer um esforço maior para não cometer nenhum deslize, como fofoca, mentira, inveja, ou qualquer outro pecado. É como se esse mês fosse uma espécie de treinamento intensivo para uma vida pura em todo o resto do ano.

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O jejum é também uma das formas de trazer à memória as pessoas necessitadas que passam fome e não conseguem recursos sozinhas. Uma coisa é a empatia que se pode ter através de um noticiário relatando a questão da fome no mundo, outra sensibilidade muito mais profunda pode ser causada quando você pode experienciar a fome no seu próprio corpo. O fiel jejua durante algumas horas do dia, mas sabe que ao entardecer será recompensado com uma refeição completa e saborosa. Mas, e as pessoas que passam fome e sequer sabem quando será a próxima refeição ou mesmo se a terão? A consciência do papel social do muçulmano certamente deve ser maximizada durante o Ramadã.

Em 2017, eu consegui participar de alguns dias do Ramadã. Realmente, para mim, foi muito complicado conseguir jejuar tantas horas por tantos dias. Lembro que ao término do meu primeiro dia de jejum, ao sentar à mesa com os meus amigos e vê-la cheia de comidas tão gostosas, eu fui tomada por um sentimento de gratidão imenso. Eu pensei em quão abençoada eu fui toda a minha vida por sempre ter tido o que comer, eu pensei em todas as pessoas que não tiveram a mesma sorte que a minha, pensei o que poderia fazer para ajudá-las, pensei em quantas vezes eu não valorizei aquilo que eu comia, em como eu não respeitava o alimento, em como eu desperdiçava comida… Eu pensei em tantas coisas! Foi quando eu tive uma pequena amostra da complexidade do que é o Ramadã.

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