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Relativizando as distâncias

Relativizando as distâncias.

É até um pouco irônico que eu escreva esse texto na iminência de viajar para o Brasil, já tão perto de rever minha família e meus amigos depois de quase 8 meses, na contagem regressiva para a alegria do reencontro. Mas é um tema que está na minha cabeça faz um tempo e que eu gostaria de refletir aqui com vocês, e não há hora melhor para botar as coisas em prática do que o presente, não é?

Nós saímos do Brasil em janeiro de 2017, então já estamos mais ou menos no meio da missão na Armênia. Daqui, não sei para onde vamos, mas é (quase) certo que não voltaremos ainda para o Brasil – certeza, certeza mesmo, eu acho que a gente nunca pode ter, até porque, para começo de conversa, o Itamaraty é uma caixinha de surpresas. Já são muitos meses morando num país onde as descobertas são constantes, mas que damos graças a Deus por ter um povo tão acolhedor e que nos faz sentir que podemos verdadeiramente chamar Yerevan de nossa casa, mesmo que seja por um período determinado.

Foto: acervo pessoal

Eu sou filha única e sempre fui muito unida aos meus pais. Isso nunca me impediu de viajar e ver o mundo, nem de começar a construir a minha vida conjugal em Brasília e, muito menos, de me mudar para a Armênia para acompanhar o meu marido. Na verdade, os meus pais sempre me incentivaram a ser uma cidadã do mundo de verdade, sem medir esforços para que eu pudesse aprender muito e in loco sempre que possível. Minha primeira viagem internacional sozinha foi aos 14 anos, e eu só parei de viajar sozinha quando casei, porque ganhei um companheiro de aventuras. Mas eu sempre fui muito amiga e confidente dos meus pais, e eu sinto muita, muita falta do contato físico diário – porque é claro que nós usamos frequentemente os aplicativos de mensagens de texto, e fazemos chamadas de vídeo pelo menos uma vez na semana para colocarmos o papo em dia da maneira mais real possível.

Leia mais: A distância e as redes sociais 

E é aí que começo a pensar na relativização das distâncias. É lógico que nada substitui o toque e, principalmente, o colo da nossa mãe e do nosso pai, mas a tecnologia ajuda muito a relativizar a saudade que a gente sente, porque podemos nos comunicar em tempo real e saber tudo o que está acontecendo, não importando a distância ou o fuso horário. Quando a gente se encontra presencialmente, eu acho que fica bem mais fácil matar a saudade física quando esse contato é constante e a gente sabe direitinho tudo o que o outro está passando e vivenciando.

Desde que saímos do Brasil, alguns laços ficaram mais fortes do que nunca. Devo confessar que isso eu já esperava, porque eu não queria enfraquecê-los jamais e estava disposta a fazer todo o esforço necessário para manter bem atados todos os nós. O que me surpreendeu de verdade foram os laços novos que surgiram depois que eu saí do Brasil: alguns foram muito inusitados, e outros foram mesmo até impensáveis. Hoje, eu converso pela internet com pessoas com as quais eu tinha perdido completamente o contato, e me sinto mais próxima delas do que quando morávamos na mesma cidade. Do mesmo modo, pessoas que também moram fora do Brasil e estão espalhadas pelo mundo estão muito mais próximas de mim do que antes, porque agora a gente realmente se esforça para conversar e manter a amizade viva. Minha família é muito grande, e alguns dos meus tios falam mais comigo agora do que quando eu morava no Brasil. Até mesmo alguns amigos dos meus pais, que me conhecem desde muito pequena e que acompanharam o meu crescimento, agora se tornaram meus amigos, e nós batemos altos papos, criando laços novos e independentes da amizade que eles nutrem com os meus pais há tantos anos.

Leia também: Custo de vida na Armênia

Hoje, eu tenho certeza de que só posso chamar o mundo de minha casa porque tenho o meu marido do meu lado todo o tempo; é com ele que eu me sinto em casa, esteja onde eu estiver. A dependência conjugal é inevitável quando duas pessoas vão enfrentar sozinhas uma realidade completamente nova e diferente da qual estão acostumadas, e é nessas horas que podemos levar o relacionamento para outro nível, nos tornando verdadeiros melhores amigos, companheiros e cúmplices. Isso é saudável, e eu acho lindo. Mas a relativização da distância me fez enxergar que, de fato, a gente não precisa estar perto para estar junto.

Muito mais importante do que estar no mesmo espaço físico, o que é realmente significativo é a vontade de manter vivo um vínculo que transcende lugares e distâncias. Para manter ou até mesmo construir laços, a gente só precisa querer. A gente pode até mesmo aproveitar a distância para relativizar conceitos que já estavam formados e que podiam até mesmo dificultar relacionamentos, nos livrando de mágoas e rancores por vezes enraizados. Nesse sentido, a distância pode ser muito saudável.

No mais, estou mesmo contando os dias para ir ao Brasil, abraçar meus pais, abraçar minha sogra e minha cunhada, abraçar meus tios, abraçar meus afilhados, abraçar meus amigos, e acabar com todas as saudades físicas que a internet é incapaz de matar, e que só o toque pode curar. Além de todas essas saudades que eu já sabia que ia sentir, estou feliz porque vou poder encontrar e reencontrar pessoas que a distância trouxe para mais perto de mim graças à internet. Morar longe de todo mundo permite que a gente relativize as distâncias, e eu estou achando esse exercício interessantíssimo. Mas se você tem a sorte de morar perto de todos os seus amigos e familiares, não se prive da alegria do encontro, nem que seja necessário um pouquinho de esforço para reunir todo mundo. Como diz a música, “segura teu filho no colo, sorria e abraça teus pais enquanto estão aqui porque a vida é trem-bala, parceiro”.

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