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A distância no dia das mães

Alguns dias atrás mandei uma mensagem pra minha mãe, comentando sobre minhas reflexões do dia a dia. Estava eu, na verdade, compartilhando com ela sobre como nossas vidas foram diferentes. Hoje tenho 23 anos e dentro de pouco de um mês farei 24. Escrevo isso aqui no meio da Polônia, com a cabeça pensando aonde viajarei nas férias. Minha mãe tinha exatamente 23 anos, a pouco de um mês de completar 24, quando estava num hospital dando a luz ao primeiro filho. São tantas diferenças, de vida, de oportunidades, de escolhas, que fico pensando: em que ponto a nossa vida se tornou tão diferente?

Certamente a maternidade nas décadas anteriores era muito diferente do que é hoje. Apesar do desafio ser o mesmo, hoje temos novas dimensões. Ver um filho indo embora para outro país já não é situação de famílias seletas. As novas gerações de mães acabam tendo que aprender a lidar com filhos cruzando oceanos a milhares de quilômetros de distância.

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É comum pessoas do meu convívio me questionarem por que eu larguei meu querido lar, minha casinha confortável, o carinho da minha família e o calor de um país pra morar assim, tão distante e sozinha, num país que eu sequer entendo o idioma. Nessas vezes, tenho até vontade de responder “olha, pergunta pra minha mãe”.

Porque eu tenho certeza que, no fundo, elas sabem a resposta disso – ao menos quase tudo. Sabe aquela música clichezona do Zezé di Camargo e Luciano (No die em que eu saí de casa)? Sempre discordei dela, porque eu acredito que a mãe deles, na verdade, sempre entendeu o motivo deles saírem de lá. Elas podem até relutar, mas dificilmente vão te impedir que você descubra por si mesmo essas coisas da vida que elas também um dia descobriram por si próprias. Não precisamos necessariamente percorrer tantos quilômetros pra aprender o que a vida tem a nos ensinar, mas o desprendimento é inevitável. Ser mãe envolve, naturalmente, saber também se despedir.

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Se você, distante, parar pra questionar o porquê se encontra onde está, talvez lhe venham a cabeça aquele canal de viagens, aquela história que te inspirou, aquela falta de ânimo no Brasil.  Mas será que antes disso você não teve que construir sua própria coragem pra lidar com tudo isso, uma base segura pra poder ir? Quando penso nisso, penso na minha mãe e sua história de vida. Não teve muito glamour, nem viagens pelo mundo – mas teve coragem e generosidade de sobra. Todas as histórias que me contou certamente me inspiraram, mesmo que em silêncio, a ser um pouco como ela. A minha versão de 23 anos é muito diferente daquela que ela poderia ter sido, mas os passos que deu desde então se perpetuam.

Mas porque abandonamos o colo familiar pra viver algo incerto? Um sentimento um tanto quanto contraditório, eu diria. Porque colo materno nos remete à aproximação, a carinho, a acolhimento e sair de casa é exatamente a ausência disso. Você se distancia de tudo que lhe um dia foi familiar e aprende a encontrar em outras coisas, ou em si mesmo, o colo materno que deixou pra trás.

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Sair do seu país é, assim, uma maneira de aprender a ser mãe de si mesmo. E isso se torna então uma grande oportunidade pra enxegar tudo que há por trás  do certo glamour que criamos sobre a sucesso dos outros. Por trás das fotos de viagens e dos fim de semanas no parque, há muito sacrifício, muita dedicação. Nada como uma mãe pra entender isso melhor. É assim que, hoje, tenho total consciência – e admiração – para perceber como toda essa dedicação de mãe, singela e discreta, que nunca preciosou de recompensa, me permitiu estar onde estou.

E eu me pergunto: o que será que essas mães que ficam lá pensam? Um dia elas nos pedem carinhosamente pra voltar. No outro, te dizem que é melhor ficar e aproveitar as oportunidades.  Isso é tão paradoxal como a vida de quem foi embora. Queremos estar aqui, mas também queremos estar lá. Enchemos o peito de orgulho pra confirmar a decisão que tomamos, mas também convivemos com uma certa culpa pelas memórias que são criadas sem a gente.

Por um lado, aprendemos a criar nossa própria personalidade e formas de lidar com as próprias frustrações – e algumas vezes o colo maternal até se torna dispensável. Porém, diante desse 8 ou 80, diante dos oceanos que nos separam, há ainda um fiozinho que nunca se rompe e a existência dele se revela nas nas coisas mais singelas do cotidiano.

Tipo aquela comida que tem o mesmo gosto daquela da sua mãe. Aquela camisa que ela te deu e que hoje já não está tão bem cuidada como estava antes. Aquele seu jeito de organizar as coisas do quarto que é do mesmo jeito que ela fazia. Quando você fica doente e a única coisa que tem em casa é um paracetamol vencido em 2012, te fazendo lembrar daquele cuidado personalizado de mãe. Aquele famoso bom dia que te espera no WhatsApp cheio de emoticons e gifs animados. Ou quando você até se acostuma a morar sozinho, mas sente falta daquele café com Faustão nas tardes de domingo. Quando você vê uma paisagem bonita e queria que ela estivesse ali pra ver também. Ou até quando você é vítima de uma grosseria e pensa em como sua mãe não deixaria assim (essa é pra ti, mãe!).

Talvez, então, esse cuidado e carinho delas, ao invés de nos fazer querer ficar, nos dão ainda mais combustível pra querer voar. E nesses voos a gente erra e acerta. Vai e volta. Anda e desanda. Reconstrói um novo sentido pro que chamamos de aconchego. E mesmo que muitas vezes sejam descobertas solitárias, no fundo a gente sabe que sempre há um lugar seguro pra voltar.

Possivelmente, como mãe, eu também tenha que aprender a me despedir. E por mais ruim que sejam essas despedidas, será que existe amor mais verdadeiro do que esse que permite o outro ir? Pois é, talvez só uma mãe entenda isso de verdade.

Então, um feliz dia das mães às que se encontram a oceanos de distância da gente, mas que são tão presentes na nossa vida e que muito batalharam pra tornar essas aventuras possíveis.

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