BrasileirasPeloMundo.com
Entrevistas França

Associação Herança Brasileira na França

Quando mudamos de país não levamos apenas malas como bagagem, mas também nossas vivências, a cultura de onde viemos e a nossa língua materna.

Ao passar dos anos adquirimos novos hábitos, conhecemos novas tradições e aprendemos uma nova língua, no entanto, por reconforto, por saudades, em momentos felizes ou tristes, vez ou outra, buscamos nossas raízes, seja através da culinária, comendo um belo prato de arroz com feijão, ou por meio da música ou até de um simples telefonema para a família e amigos que estão no Brasil.

Ao emigrar para França com meus filhos, uma das minhas preocupações é a de que eles não se esquecessem de onde vieram, então além de falar português em casa, proponho algumas atividades como escutar cantigas de roda brasileiras, ler livros infantis em português, acompanhar as notícias do Brasil entre outras.

Entretanto, talvez pela correria cotidiana e pelo fato deles terem um maior contato com a língua e cultura locais, eles começaram a evitar falar o português em casa, e não se interessavam mais a quase nada relacionado ao Brasil, então resolvi procurar uma forma mais eficiente deles terem contato com as nossas origens, e foi assim que conheci a associação Herança Brasileira e entrevistei a sua fundadora, Namíbia de Ana.

 

1- Como surgiu a ideia de criar a associação Herança Brasileira?

A ideia surgiu pela necessidade mesmo, minha e das mães brasileiras que tinha a minha volta. Minhas filhas sempre falaram bem português porque meu marido é brasileiro, mas quando entraram na escola comecei a ouvir cada vez mais francês nas brincadeiras delas, já tinha lido muito sobre o assunto, eu sabia e sentia que precisava criar mais ocasiões para que elas falassem português..

2- Como foi o percurso da associação desde sua criação?

Encontrei através do face outras mães que haviam iniciado associações assim em outros países, e também toda uma estrutura de federação dessas iniciativas tanto na Europa como nos EUA. Criei outro grupo no face chamado Herança Brasileira, e resolvi participar do II SEPOLH (Simpósio Europeu sobre o ensino do Português como Língua de Herança).

Depois disso resolvi formalizar a associação e tive a sorte de ter a Teresa do meu lado, pronta pra iniciar a aventura comigo, e o prof. Bião que me apadrinhou com toda a experiência que tem de sua associação Bião e da sua gramática.

ARRAIA HB

3- Quais atividades a HB propõe?

Fazemos um ateliê por mês, com crianças de todas as idades, onde trabalhamos varias atividades em torno das datas festivas do mês no Brasil e também o que acontece nesse período aqui na França. Atividades artísticas, lúdicas, tudo em português.

Fazemos também workshop para os pais, onde abrimos espaço para a discussão e troca de experiências sobre a educação de crianças bilíngues. No workshop de junho uma especialista da ABRIR veio animar a discussão e tirar nossas dúvidas.

ATELIE HB

4- Quem faz parte da equipe da HB ?

Hoje na administração somos três: eu, que coordeno as atividades, a Teresa, que preside a associação e me ajuda nas partes de finanças e nas festas, e a Fernanda, que trabalha no planejamento pedagógico das atividades com as crianças. Mas somos 20 famílias membros da associação!
Para criar nossos programas, nos baseamos em pesquisas cientificas, graças ao apoio da ABRIR, do SEPOLH e da BEM.

5- Qual conselho você dá aos pais/mães brasileiros para transmitirem a língua e cultura do Brasil?

O meu conselho pessoal sempre foi: falar português e não aceitar resposta em outra língua. Quando a língua da casa é outra, as coisas ficam bem mais difíceis. Admiro muito os pais que insistem e conseguem manter a disciplina de só se comunicar com os filhos na sua língua materna, mesmo que a língua do casal e do lugar onde moram seja outra. Mas se a mãe ou pai brasileiro não se sente à vontade em falar português com o filho, não é o fim do mundo, e eles não devem se sentir culpados.

Por tudo que li e estudei sobre o assunto, acho que o melhor conselho a dar é o da naturalidade e da coerência: faça o que te parece natural, mas seja sempre coerente, pois a criança precisa de coerência para se sentir segura. Isso exige dos pais observação e reflexão conjunta a cada etapa do crescimento da criança, conversa com o parceiro e com a própria criança. Para a criança aprender a língua e se sentir pertencente à cultura brasileira ela precisa estar exposta e experienciar as duas. Isso pode ser feito dentro ou fora de casa: contato com a família no Brasil, com a comunidade brasileira local, com livros, desenhos animados, jogos online… e com associações como a nossa são ótimas alternativas.

6- Quais são os projetos futuros da HB?

Ah, são tantos! Iniciamos esse ano, agora em setembro, o curso de Português como Língua de Herança. Montamos um programa seguindo as diretrizes educacionais francesas e brasileiras, para transmitir Português, Historia/Geografia, Arte e cultura brasileira através de atividades similares ao que as crianças fazem na escola aqui. Depois temos um projeto de literatura bilíngue, de uma mostra de cinema bilíngue e pensamos em treinar baby-sitters brasileiras, pois é outra ótima maneira de aproximar o português do cotidiano das crianças, de forma natural.

FANTOCHE FOLCLORE HB

7- Como participar das atividades da associação?

A maneira mais fácil de ter acesso a toda a programação é inscrever seu e-mail em nosso site pra ficar informado sobre os próximos eventos.

Conclui-se que transmitir nossa herança linguística e cultural é uma tarefa que exige dedicação e certo esforço, por isso iniciativas como a associação Herança Brasileira são fundamentais para apoiar aos pais nesse desafio.

Ter contato com outras culturas e aprender outras línguas é também um aprendizado para a vida, nos faz rever opiniões, ver as coisas de um novo ângulo, abrem nossa mente, mas nossas referências vem de casa, não devemos abrir mão das nossas origens.

Para mim o melhor legado que podemos deixar para nossos filhos é aquele ligado ao amor, à educação e aos valores familiares e estes também são relacionados à língua materna, a cultura de onde viemos o que contribui à construção da própria identidade, afinal um olhar no passado pode abrir nossas perspectivas no futuro.

Related posts

Os Brigadeiros da Samba Gourmet

Monica Bateman

Como viajar por 1 Euro no sul da França

Júlia Lainetti

Atentado em Nice

Carolina van Heesewijk

1 comentário

Cristiane Cabral Maio 17, 2017 at 8:06 pm

Como faço para falar com vc Anna Mendonça ??????
Gostei muito da postagem e gostaria de uma boa prosa para discorrer sobre o tema
Mudar de país com os filhos.
Preciso de uma ajuda para clarear meus sonhos e objetivos de vida, pois quero ser nômade, mas penso em meus filhos, se vão topar e como irão encarar esse estilo de vida nômade que está correndo nas minhas veias …kkk

Parabéns ,, amei sua fala

Resposta

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Este site ou suas ferramentas de terceiros usam cookies Aceitar Consulte Mais Informação