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Brasileira “made in” Paraguai

Muitos anos atrás conversando com uma amiga, dizendo a ela que não gosto de café, calor, cerveja, samba, MPB e muito menos futebol, ah já ia esquecendo que também não como carne …ela riu muito e me saiu com esta, “você é brasileira made in Paraguai”, achei engraçado e desde então fiquei com a pulga atrás da orelha, junto com um turbilhão de outras perguntas que possivelmente ficarão sem respostas.

Será que sou assim porque moro fora há muito tempo ou é da minha pessoa, indiferente de onde estiver? Se tivesse passado mais tempo no Brasil, será que viria a gostar da lista acima? Eu acho interessante e me faz pensar o porque de eu não gostar de algo tão popular para brasileiros, ou seria apenas um estereótipo?

Quando vou a alguma churrascada é o fim, sou sempre a chacota da festa. “Como assim não come carne? Não toma cerveja? Quer mudar o canal quando esta passando futebol? Esta tentando trocar o cd de pagode e samba? “Pera lá, acho que você está no lugar errado”, ja ouvi esta frase tantas vezes, que nem me abalo mais….

Eu nasci desgostando de carne, deixei de comer e ser obrigada pela minha mãe quando tinha apenas 10 anos, depois de uma quase violenta briga minha com um pedaço de fígado (palavra esta que desde então está proibida no meu dicionário mental), de café nunca fui fan e venho de uma casa onde litros eram feitos todos os dias, para o meu pai.  Sobre samba e MPB, bom, desde pequena sempre tive um lado roqueiro, lembro de ter 7 anos e meu LP favorito da época ser da Suzy 4 e depois de ir para a faculdade e conhecer amantes de  Ramones, Pink Floyd, Rush, Led Zeppelin, fica difícil ouvir Zeca Pagodinho ou algo parecido.

A desculpa do futebol é que lá em casa ninguém era muito fan, meu pai não se importava, só o  meu irmão era Palmeirense, mas nada de grande importância para sentar e conversar sobre o assunto, nem muito menos assistir 90 minutos. Aí você vai dizer, mas, e quando é o Brasil, você não gosta? A resposta é sim, eu gosto, mas, é totalmente diferente, ainda mais morando fora. Quando o Brasil joga é uma desculpa para largar a vergonha de lado e mostrar o verdadeiro lado latino, vem as músicas, a alegria, a gritaria, tudo em extremo, que só  é permitido durante o jogo e após, se o resultado for positivo, depois amigo, é cada um no seu quadrado, como dizia sei lá quem.

Continuando com a desmistificação de ser mais ou menos brasileira, chegou a hora da cerveja, oh my, não entendo como alguém possa gostar, nem gelada, nem menos gelada. Na época de 80, quando era adolescente, vide 17 anos e já tinha permissão para tomar uma birita ou duas nas festas, só tomava a tão famosa batida de coco (delícia), depois quando fui morar em Lisboa, com 18 anos, andava com uma turma que era admiradora de JD, para que?  Olha lá quem gosta até hoje…adoro whisky, meu preferido é Cardu (seda em forma líquida) e para todo o sempre também meu bom e velho vinho tinto, portanto acho que não dei nem chance para a tal da cerveja, já era agora…e se me perguntar o que eu gosto de beber no verão, Asti Martini, bem gelado….

Bom, acredito que estes “pequenos” detalhes não me façam mais ou menos brasileira, e tenho impressão de que não iria gostar mesmo que estivesse morando lá. São apenas estereótipos criados pela sociedade, que as vezes nos engolem e não nos deixam espaço nem para decidir se é o que realmente gostamos ou não.

Termino tranquila, consciente de que meu lado brasileiro para sempre estará intacto. Por que, o que me faz ter tanta certeza? Simples, porque ainda choro todas as vezes que escuto o hino nacional (com soluços acompanhando se tiver chance), para mim tão saudoso, falando de um país de beleza ímpar.  Me emociono quando vejo a bandeira hasteada balançando a linda combinação de cores contra o vento (não tem bandeira mais bonita), e sinto pelo sofrimento do povo, seja ele decorrente de alguma tragédia devido a tempestades, pela falta de segurança que leva famílias a perderem um ente, ou quando vejo o descaso dos políticos pelos índios, eles, que mais do que ninguém tem direito à terra.

Por isso meus amigos, quis o destino que eu fizesse minha vida em terras longínquas, porém, o coração não foi completamente afastado e será sempre muito verdadeiro e “legítimo”.

E você que está lendo e mora fora, tem algum gosto ou mania que não se encaixe no estereótipo de como ser brasileiro “de verdade”, como alguns gostam de dizer?

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15 comentários

Tatiana Sato Janeiro 8, 2013 at 3:54 pm

Oi Ann!

Adorei o seu texto e eu me relaciono com ele. Acho que muitas pessoas estereotipam outras porque é mais fácil entendê-las se você puder classificá-las de acordo com determinados labels. Eu passo por isso todos os dias. Lembro-me que antes de vir para as minhas férias, eu encontrei um filipino. Sou brasileira (como você sabe! Hehe), mas meus avós (os quatro) imigraram do Japão. Então, de forma muito teórica, sou uma brasileira (de acordo com a minha nacionalidade), mas meus genes são 100% japoneses. Ainda assim, pela minha cultura, pelo meu coração, sou brasileira. E ele não entendia esse conceito, me questionando sempre como eu poderia ser brasileira se os meus avós eram japoneses. Então, puxei uma amiga minha e perguntei: “de onde você é?”, ao que ela respondeu “brasileira”. Então eu expliquei para ela o que o rapaz me perguntava e ela disse “sou descendente de alemães, italianos e outras nacionalidades. Ainda assim, sou brasileira”.

Além disso, acredito que quando vivemos no exterior, abrimos nossos horizontes e descobrimos nossos reais gostos; como perdemos nossa referência, passamos a ver o que realmente nos dá prazer e o que gostávamos porque o nosso grupo gostava… E isso dá uma liberdade imensa! Então, amiga, relaxa e aproveita a sua brasilianidade (como eu chamo) porque, embora nenhuma de nós se encaixe no padrão definido, somos brasileiras sim. Com todo o coração!

Beijos!

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Lyria Janeiro 8, 2013 at 6:00 pm

Só estereótipos Ann, só estereótipos… infelizmente… Grande parte das pessoas tem a mania de generalizar tudo. Gosto é gosto e não se discute e, ainda bem, que cada pessoa no mundo tem o seu e todos deveriam respeitar isso. Eu também não gosto de futebol, só vejo jogo da copa quando o Brasil joga e olha lá… 🙂

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Carla Silveira Janeiro 11, 2013 at 4:11 pm

Querida Ann, sou totalmente “made in Paraguai”!!! Adorei o texto e me identifico bastante!!!
Adoro carne, sambao aprendi a gostar depois de 10 anos fora do Brasil (ja estou ha vinte fora), cerveja so no calor e muito pouco. Porem odeio: futebol, ser acediada por homens na rua, Mauricinhos e Patricinhas e a lei do “Gerson” (levar vantagem em tudo) me expulsou do Brasil!!!!
Como voce, tenho meu coracao la. Respeito, aceito e amo de paixao nossa felicidade encantadora…. que aprendi a gostar mais vivendo fora tambem…
Mas a verdade eh que nunca tive 100% de “brasiliedade” kkkkkk

Carla Silveira

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Christine Marote Janeiro 15, 2013 at 12:37 pm

Oi Ann,
Dento da modernidade poderiamos dizer que vc é made in China! hehehe
Mas fique tranquila que não está sozinha nesse coro. Na realidade nem todo suiço gosta de esquiar, nem todo havaiano gosta de surfar e nem todo britânico gosta de Rugby (ou gostam???). E eu também não gosto de futebol, apesar de ser santista, da terra do Pelé (que também não é de Santos). De cerveja, só se for no Brasil e ainda misturada com Malzibier (ok, nem todo mundo é perfeito), bom mesmo é o denso e encorpado vinho tinto e claro, uma Asti no verão pq ninguém é de ferro. Agora samba eu gosto. Mas deixa eu esclarecer: eu gosto de SAMBA, até de pagode, mas daqueles que eram musicas com letra, harmonia e faziam todo sentido. Essa coisa que infelizmente tocam hoje no Brasil, me perdoem, mas passo longe. rs
Agora mais do que isso tudo o que me irrita é o esteriótipo da mulher brasileira fora do Brasil. Já briguei com muita gente, deixei de frequentar um salão de um rapaz de HK pelas bobagens que ele falou achando que sabia tudo de mulher brasileira. Isso é duro! Mas vamos em frente, que atrás vem gente… eno meu caso, vem muiiiiiita gente. kkkkk

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Ann Janeiro 21, 2013 at 1:58 pm

Meninas, nao sabem como me alegram em saber que nao estou sozinha e nao sou nenhum alien rs.. Gostei do “Made in China”, meu pai o que nao e feito la hoje em dia? socorro rsrsrs. Bjs 🙂

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Joana Öberg Janeiro 21, 2013 at 5:57 pm

Oi Ann!
Não, você não está sozinha, mas bem, da sua lista as únicas coisas que combinamos é com o café e a cerveja. Eu só tomo mesmo é o “leite pingado” (leite quente com uma colherzinha de nescafé) e sempre detestei cerveja. Ahh gostava daquela preta, que era bem docinha. Karacu, não é?
Mas do resto eu sou made in Brazil mesmo. Curto um sambão, um pagodinho, da batida do Funk carioca dos anos 80… Se bem que o “Ela só pensa em beijar ” é muito difícil não dançar! ainda mais nesse frio de rachar, o Banzo que dá não é moleza…

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Fernanda Franco Janeiro 22, 2013 at 7:01 am

Ann, muito legal o seu texto e sou mais uma no seu time, ou seja, voce nao esta sozinha nao. Nunca gostei de cerveja, futebol, pagode e por ai vai uma lista enorme. O pior e quando alguem pergunta de onde vc e, e ao ouvirem a resposta, ja vao logo perguntando sobre futebol, etc. Eu nao sei nem nome de jogadores e fico ‘embarrassed’ as vezes. Admito que comecei a admirar mais o nosso pais de origem depois que sai de la, principalmente por trabalhar com a divulgacao da nossa cultura, que e tao rica e admirada em todo mundo. Beijo grande F

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Camila Santos Janeiro 22, 2013 at 9:35 am

Bom,ser ou nao ser? Eis a questao…O fato de ser brasileira nao quer dizer que nao possamos ter nossas proprias escolhas e gostos.Amo o meu pais e tenho certeza de que nao sou menos brasileira por nao gostar disso ou daquilo…Pra falar verdade odeio a ideia de que o Brasil seja so Futebol e Carnaval(e tudo aquela imagem que vem com isso…infelizmente). Afinal,somos muito mais que isso!!!!

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Franca Matta Janeiro 23, 2013 at 10:28 am

Amei o Texto…
Mas voce nao consideraria carne de soja, cerveja de chicoria etc?

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Debora da Rosa Fevereiro 19, 2013 at 3:11 pm

Ann,adorei seu texto! Estereotipos …Me identifiquei muito com o seu comentario.Estou cansada de explicar(ainda…e sao 20 anos que moro aqui) para italiano que nao sei sambar,que nao gosto de carnaval,,nao gosto de samba,pagode e etc,que sou vegetariana( como?gaucha vegetariana?)e que no Brasil nao falamos espanhol!Mesmo depois de tanto tempo fora e com filhos nascidos aqui amo o meu pais de origem!Ah…e em casa so falamos portugues!Adorei esse blog e adoraria trocar experiencias com outras brasileiras aqui na Italia!Um abraco.

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Rita Dorneles Abril 2, 2013 at 3:50 pm

Ann querida,
Achava que eu era a unica pessoa do Brasil que nao gostava de cerveja hahahha … Ok, lah na adolescencia ate bebia uma ou outra, mas nunca foi a minha favorita… o vinho, sim! O bom e velho vinho tinto (eu gosto muito do vinho verde, mas sabe ne, eh pra poucos gostos hehee)… Enfim, os esteriotipos existem e estao ai… todo povo tem o seu. Samba? Jah gostei quando era jovem, ihhh faz tempo rs rs mas nunca descartei o Pink Floyd e o Led Zeplinentao uiii
Como voce eu choro ao ouvir o hino e as vezes (dependendo da situacao) ao ver a bandeira. Nao gosto muito da “bagunca” brasileira nos jogos, e infelizmente por causa dos esteriotipos, as vezes nao me sinto muito bem em me apresentar como brasileira rs! Acho que tenho mais caracteristicas portuguesas que brasileiras, mas o facto de ter nascido lah naquela terra linda, e ainda por cima no Rio de Janeiro, puxa, da um orgulho enorme ver as imagens do Brasil, e saber o quanto somos “invejados” pela alegria, humor, beleza… Nas minhas aulas de geografia para a minha turminha la da escolinha, me emociono demais ao passar videos das regioes e falar sobre aquele pedaco de terra no mundo, e daquelas pessoas e da cultura daquele lugar… quantas vezes em casa em busca de material para a minha aula, me pego chorando porque estou ouvindo “aquarela do Brasil” e cantando junto hehehehe
Assim somos nos… brasucas inveterados, independente dos esteriotipos e dos gostos e das descendencias… temos no peito sempre a saudade.
Beijinhos e parabens, seu texto esta fofo demais (to meio atrasada no comentario neh rs?)

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Fernanda Junho 28, 2013 at 6:13 pm

Poxa, Ann, esse seu texto tem tudo a ver comigo!! Fora o café–que não vivo sem e tomo litros diários– estou contigo. Odeio cerveja, batuquinhos, samba, forró, funk então….Socorro!!! Futebol só na copa, mas não pelo futebol e sim pelo que ele representa nesta ocasião, o País. Sempre adorei rock e meu sonho de adolescente era ser rockeira. Não fosse o estraga-prazeres do meu professor de música dizer que eu tinha uma voz para cantar musicas da Enia ou Enya sei lá como escreve. Fiquei passada!! Horror…logo a chata da Enya. Mas o pior é que ele tinha razão. Eu pra cantar rock só trocando todas as cordas vocais mesmo. Agora, MPB,depois de adulta passei a curtir. Vinicius De Moraes me assombra pelo talento como poeta e musico. Mas fico igualmente assombrada com artistas estrangeiros como Tori Amos, por exemplo. Não é só porque é brasileiro que temos que gostar ne?

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México – Casamento Inter-Cultural Junho 8, 2014 at 11:54 pm

[…] ou simplesmente hábitos aos quais associamos com idéias estériotipadas de cultura? (O texto Brasileira Made in Paraguay aqui no blog, tambem aborda esse […]

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meire Julho 28, 2017 at 2:34 am

tbm sou made in..
nao gosto da maioria das coisas q ¨deveria gostar`¨ e inclui tbm festas de peao.
uma vez um patrao espanhol me perguntou= vc nao gosta de carnaval? nao gosta de festa de peao? nao eh brasileira?

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Fernanda Outubro 30, 2017 at 12:37 pm

Ah mais uma aqui made in China…. Tenta explicar que você não gosta de calor então, as pessoas sempre falam “mas você é brasileira!” como se por isso tivesse que adorar calor e praia. Mas ao mesmo tempo nunca me senti tão brasileira quanto agora, longe. Me percebo alegre, calorosa, prática e um tanto dramática, coisas me lembram do meu país. Estereótipo é mera generalização mas às vezes não é que tem um fundo de verdade?

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