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Geórgia

Brasileira na Geórgia

Em meados de 2016, após saber que me mudaria para a Geórgia, sempre que contava a novidade a alguém no Brasil, recebia como reação: “Que legal, Maíra, vai morar nos Estados Unidos?”.

Quando se fala em Geórgia no Brasil, é comum relacionar o nome ao estado americano, mas existe uma outra Geórgia, ainda pouco conhecida dos brasileiros e bem longe dos Estados Unidos. E é aqui que moro há cerca de um ano.

A Geórgia é um pequeno país localizado na região do Cáucaso, onde a Europa se encontra com a Ásia, e faz fronteira com Turquia, Armênia, Azerbaijão e Rússia, além de ser banhada pelo Mar Negro.

Aqui vivem cerca de 4 milhões de habitantes, a maior parte (em torno de 1,5 milhão) na capital Tbilisi e seus arredores. A população, que já chegou a ser de quase 5,5 milhões de pessoas, vem diminuindo desde o fim da União Soviética, pois as dificuldades econômicas
(que ainda persistem) e a guerra civil dos anos 90 fizeram com que muitos habitantes deixassem o país. Estima-se que mais de 1,5 milhão de georgianos tenham imigrado para outros países, 1 milhão apenas para a Rússia.

Ao longo de sua história, o país enfrentou invasões de mongóis, persas e otomanos, entre alguns períodos de independência, até se tornar parte do Império Russo no século XVIII. Com a Revolução Russa em 1917 e a consequente queda do império, a Geórgia declarou independência em 1918, que durou apenas alguns anos, já que em 1921 o país foi atacado pelo Exército Vermelho e se tornou parte da União Soviética.

Com a desintegração do regime soviético, a Geórgia se declarou independente em abril de 1991, mas a estabilidade ainda estava longe de ser alcançada. Golpes de estado, guerra civil, conflitos separatistas e com a Rússia fizeram (e de certa forma ainda fazem) parte da vida dos georgianos nas últimas décadas.

Foto: foter.com

A guerra civil, que durou quatro anos (1991-1995), e o conflito separatista na região da Abcásia foram particularmente marcantes para a população local. Nós estrangeiros sempre ouvimos dos locais alguma história da época da guerra, sobre ausência de energia elétrica, de recursos, de segurança. Eu mesma conheço pessoalmente quem tenha sido obrigado a deixar tudo para trás por causa dos conflitos e recomeçar em outra cidade, ou cuja família deixou o país e nunca mais voltou.

Passados tantos anos, as tensões separatistas ainda persistem, mas a situação política se estabilizou e a Geórgia de hoje, apesar de ainda enfrentar dificuldades econômicas, é um país seguro e mais moderno do que seu passado recente faria um desconhecido supor.

Quem chega hoje, encontra um país que tenta cada vez mais se distanciar do passado soviético e se integrar ao mundo ocidental, particularmente à União Europeia, da qual espera se tornar parte em um futuro próximo.

Tbilisi, a cidade onde vivo, não era uma completa desconhecida para mim. Antes de ser transferida para cá no ano passado (ou removida, como dizemos no jargão do Itamaraty), já havia estado aqui por dois meses, em 2013, para um trabalho temporário na Embaixada do Brasil.

Naquela ocasião, com a viagem decidida de última hora e sem ter tempo de me informar melhor sobre o país, vim sem grandes expectativas e sem saber o que encontraria aqui. Mas Tbilisi acabou sendo um caso de amor à primeira vista!

Logo no início me encantei pela cidade charmosa, pela simpatia das pessoas e, principalmente, pela comida e o vinho deliciosos. A missão chegou ao fim e voltei para casa com a sensação de que minha história com a cidade ainda não havia terminado. Em 2015, apareceu a oportunidade de ser transferida para cá por um período mínimo de dois anos. Aceitei prontamente e após um longo processo, que durou quase um ano, voltei a Tbilisi para viver minha experiência georgiana.

Já ter estado aqui antes ajudou muito minha adaptação à nova vida. Eu já sabia em que bairro gostaria de morar, onde ficavam supermercado, academia de ginástica, farmácia… Enfim, os aspectos práticos da vida local não eram mistério para mim.

Também me ajudou a encarar as diferenças culturais e as peculiaridades locais com menos estresse e mais humor. Pois por mais europeus que os georgianos se achem, a vida aqui é bem diferente da Europa ocidental e mesmo do Brasil. E o choque, claro, é inevitável.

A começar pelo idioma georgiano. Sim, a Geórgia tem língua e alfabeto próprios. E são MUITO difíceis. Até agora fiz apenas um curso “de sobrevivência”, no qual aprendi a ler o alfabeto, números e algumas frases e expressões básicas. Com muito estudo e dedicação, no entanto, é possível aprender. Só talvez não seja tão necessário…

Ao menos em Tbilisi, é perfeitamente possível viver falando apenas inglês. As pessoas mais jovens aqui têm, em sua maioria, ao menos um conhecimento básico do idioma e não há maiores dificuldades em ser entendido em restaurantes, bares, comércio de maior porte e mesmo em alguns órgãos públicos.

Tem também o trânsito, talvez o maior choque para os estrangeiros que vêm morar aqui… Para mim, a palavra que melhor o define é: selvagem. O georgiano tem grande apego por carros, gosta de modelos grandes e dirige muito agressivamente. Infelizmente, há pouco ou nenhum respeito pelas regras de trânsito e isso ainda me assusta diariamente. Dirigir aqui exige muita atenção e cuidado, especialmente nas estradas, geralmente de pista única, estreitas e não muito bem conservadas.

Mas o choque também pode ser positivo. Um exemplo – e talvez a maior vantagem que o expatriado vê em viver aqui – é o custo de vida. A Geórgia é um país pobre, com médias salariais baixas, e o custo de vida acaba acompanhando o poder de compra da maioria da população.

Quando comparo com meus gastos no Brasil, a diferença é gritante! Praticamente tudo aqui custa muito menos: combustível, alimentação, serviços públicos. E barato não significa ruim. Telefonia móvel e internet, por exemplo, têm qualidade e velocidade muito superiores às de qualquer operadora brasileira.

Outra boa diferença é a pouca burocracia. Ainda me impressiono com o quão simplificados alguns procedimentos são aqui. A compra do meu carro, por exemplo, foi finalizada (entenda-se transferência, registro e emplacamento) em menos de um dia.

Passado um ano, o saldo é bem positivo! As pequenas dificuldades diárias são compensadas pelos muitos pontos positivos, como as paisagens deslumbrantes, a simpatia e o carinho do povo com os brasileiros (eles amam o Brasil, principalmente a música, que toca em todos os lugares), os amigos que fiz e os vinhos mais deliciosos que já bebi na vida.

Ainda tenho muito a aprender e a explorar por aqui… Fico animada e feliz em poder dividir neste espaço alguns aspectos mais interessantes da vida neste pedacinho do mundo.

Vamos juntas descobrir a Geórgia?

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11 comentários

Julia Outubro 1, 2017 at 9:05 pm

Oi Maíra! Adorei seu post! Desde que descobri a Geórgia por uma colega do meu marido aqui na França, fiquei curiossisima! Adoro países e cidades pouco conhecidos! Quem sabe um dia não passo aí agora q sei que tem uma brasileira aí? RS
Também sou colunista aqui do BPM! Seja bem vinda ao time! ?

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JURANDYR SILVESTRE Outubro 2, 2017 at 8:43 pm

Ja deu vontade de ir !

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Maynha Outubro 3, 2017 at 1:13 am

Maira,, que delicia sua maneira de contar suas experiências. Estou adorando e vou ficar atenta para saber tudo.
Aventuras e aventureiras nos ensinam demais.
Bjs
Maynha

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Luiz Dezembro 4, 2017 at 12:21 pm

Olá e trabalhar na Geórgia, vi uma multinacional recrutando engenheiro para trabalhar como gerente aí, pela sua experiência é uma boa? Tem noção dos salários ?

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Maíra Moscardini Dezembro 4, 2017 at 12:46 pm

Oi, Luiz,

Não tenho exatamente experiência com o mercado de trabalho aqui, já que vim a serviço do governo brasileiro. Como eu disse no post, os salários pagos aos locais pelas empresas locais são baixos, mas multinacionais tendem a pagar salários melhores para expatriados relocados para cá. Meus amigos brasileiros e estrangeiros que estão aqui trabalhando nessas condições parecem estar satisfeitos até agora, alguns até estenderam a permanência aqui. De qualquer forma, é sempre bom pesquisar bem as referências da empresa e a vaga oferecida, para já saber o que esperar.

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Vitor Fevereiro 19, 2018 at 8:12 pm

Você é uma privilegiada, mora na terra do mito da NBA, Zaza Pachulia !

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Marta Alves Da Silva Março 17, 2018 at 9:48 pm

Estou planejando viajar para a Georgia em Junho ,louca para conhecer Tbilissi.

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Cristiane Abril 30, 2018 at 1:42 am

Olá, Maíra!
Descobri a Geórgia há pouco tempo através de um amigo que me auxilia a melhorar o meu inglês em vídeo chamadas. O achei tão educado e respeitador, inclusive conheci amigos e familiares em nossas vídeo chamadas e acabamos querendo nos conhecer pessoalmente, ele tentará vir para cá em Julho e eu estarei em Londres em novembro então darei um pulinho por lá. Estava apavorada em ir sozinha, mas como vc disse que é comum as pessoas se comunicarem em inglês, fico até mais tranquila. Ele mora em Tibilisi tbem. Andei dando uma pesquisada nesse país pouco falado e conhecido e confesso que andei me apaixonando e qualquer oportunidade que eu tiver de ficar por lá, talvez eu não exite. Mas tem um porém, sou técnica de enfermagem, moro em SP e os hospitais aqui pagam relativamente bem, mas em outros países o técnico não é reconhecido, infelizmente. Então queria saber sobre trabalhos para brasileiros que como eu não tem uma graduação, como seria aí? Muito difícil? Vi que pelo seu post não pagam muito bem, porém o custo de vida é baixo. Então queria sua opinião a respeito. Obrigada!

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Maíra Moscardini Maio 8, 2018 at 6:38 am

Oi, Cristiane!
Quanto ao idioma, não chega a ser um problema mesmo. É cada vez mais comum as pessoas mais jovens falarem inglês por aqui, aliás, quanto mais jovem, maior é o conhecimento do idioma. Já quanto às possibilidades de emprego, infelizmente não são tão encorajadoras assim. Infelizmente, o mercado aqui paga salários baixíssimos se comparados até mesmo com a média no Brasil. Os expatriados que conheço aqui estão, em sua maioria, trabalhando para empresas estrangeiras, com salários de nível internacional. Minha dica é pesquisar o mercado antes de tomar qualquer decisão. Boa sorte!

Resposta
Luana Sanches Setembro 11, 2018 at 7:28 pm

Oi, eu consigo falar com você por outro canal? Whatsapp, Messenger… eu preciso muito falar com você sobre a Geórgia. A história que eu tenho que te contar/dividir com você vai te surpreender. Abraço

Resposta
Liliane Oliveira Setembro 12, 2018 at 1:31 pm

Olá Luana,
A Maíra Moscardini parou de colaborar conosco e, infelizmente, não temos outra colunista morando no país.
Obrigada,
Edição BPM

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