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Sobrevivendo no trânsito em Tbilisi na Geórgia

Sobrevivendo no trânsito em Tbilisi na Geórgia.

No meu primeiro texto, falei brevemente sobre como o trânsito da Geórgia é algo que causa choque nos estrangeiros que vem viver (ou visitar) aqui. Desta vez resolvi me aprofundar mais no assunto. Quando se fala sobre a vida em um determinado país é inevitável, em algum momento, abordar aspectos negativos. E decidi começar justamente pelo pior.

O trânsito aqui beira o absurdo e não estou falando de congestionamentos. Estressante e perigoso, resumindo em poucas palavras. Excesso de velocidade, pouca habilidade e zero respeito fazem parte do cotidiano de quem, como eu, se locomove diariamente de carro. Paciência, cuidado e atenção são importantíssimos para manter a saúde – física e mental – intacta por aqui.

Creio que há dois motivos principais para a situação ser tão fora de controle. O primeiro é a falta de fiscalização. Não é que não haja leis ou regras de trânsito, mas como não há interesse em fiscalizar quem não cumpre (no caso, praticamente todo mundo), fica parecendo que o motorista pode fazer o que bem entende. A sensação que tenho ao ver os muitos carros de polícia que ficam espalhados pela cidade (sim, eles estão por toda parte, por incrível que pareça), é que eles servem apenas para compor a paisagem, já que dificilmente vão incomodar alguém que esteja cometendo alguma barbaridade no trânsito.

A segunda razão é a pouca noção de civilidade e coletividade. O georgiano entra no carro e se sente o ser mais importante do mundo. E nada nem ninguém pode atrapalhá-lo, sua conveniência sempre vai prevalecer sobre qualquer regra. O carro do lado – e o da frente e o que vem atrás – é seu rival, parece que tudo é sempre uma disputa (e às vezes é mesmo, ver carros disputando “racha” pelas ruas não é tão incomum). O que interessa é chegar na frente, seja de quem for.

Mas calma, é possível sobreviver! Se eu estou aqui escrevendo sobre isso é porque até agora, fui bem sucedida na tarefa. Além do cuidado, da atenção e da paciência com a falta de respeito que já mencionei acima, é bom saber que o trânsito aqui guarda algumas peculiaridades. Saber delas de antemão facilita muito a vida. Por isso, saiba que, se você algum dia for dirigir na Geórgia, você verá coisas como:

Carros com a direção do lado direito

Apesar do sentido de direção aqui ser o mesmo do Brasil e da Europa ocidental, há muitos carros com a direção do lado direito circulando nas ruas. A Geórgia não produz veículos, praticamente todos são importados e até bem pouco tempo não havia qualquer restrição aos fabricados em países com o sentido de direção contrário, como o Reino Unido e o Japão. Somente agora o governo decidiu aplicar taxas mais altas para tentar inibir a importação destes veículos. Mas nada de proibí-los, então ainda os veremos circulando por aí (e atrapalhando o trânsito) por muito, muito tempo…

Qualquer lugar é uma potencial vaga de estacionamento

Um dos maiores exemplos de que a conveniência pessoal é o que importa, Tbilisi tem muitos carros para poucas vagas (e quase não há estacionamentos pagos) então, se não tem vaga, estaciona-se nas calçadas, nas entradas das garagens alheias, no meio da rua (sim, já vi isso), na esquina. Tem vaga, mas o espaço não é suficiente para o meu carro enorme? Sem problemas, é só atravessar parte dele na calçada ou na rua mesmo. As únicas situações em que há algum respeito – porque são as únicas em que efetivamente tem havido punição – o carro é removido pelo guincho – são estacionar nas vagas para deficiente físico ou sobre a faixa de pedestres. No resto, quase não tem controle. E quando tem, a multa custa ridículos 10 lari, o que equivale a uns 13 reais mais ou menos.

Carro estacionado sobre a calçada (foto: arquivo pessoal)

Carros circulando livremente sem para-choque

Outra coisa comum por aqui. Perco a conta de quantos carros assim vejo todos os dias. Pode ser o da frente, ou o de trás, ou os dois. Com a selvageria do trânsito, batidas são comuns. Os para-choques são o que mais se estragam e, para não deixar o carro parado enquanto conserta, o povo anda sem mesmo. Já ouvi dizer também que há quem nunca tenha colocado para-choque no carro. Explico: aqui é normal importar carros batidos e bastante danificados, quase sucata, que entram por um preço muito baixo, e então fazer o conserto aqui. Como o para-choque é uma parte mais cara e não há restrições a circular com o carro faltando alguma parte, o dono do veículo não coloca e pronto. Nunca consegui confirmar se é verdade ou não, mas tem tanto absurdo aqui que não consigo duvidar.

Para-choque para quê? (foto: arquivo pessoal)

Taxis sem cinto de segurança

Boa parte dos taxis aqui não tem cintos de segurança no banco de trás (onde normalmente os passageiros se sentam)! O uso no banco traseiro não é obrigatório e os taxistas arrancam os cintos, simples assim. O georgiano negligencia a segurança em vários aspectos da vida e o trânsito é só mais um deles. Há sempre um sentimento de “nada vai me acontecer” e, na cabeça deles, é só confiar no motorista que está tudo certo. Descobri dia desses, acompanhado uma discussão acalorada em um grupo de Facebook, que o motorista se sente ofendido quando alguém no banco de trás usa o cinto, pois seria falta de confiança em sua habilidade. Um grande insulto (ao seu ego), claro.

Mas nada do que eu tenha visto de errado aqui supera…

Bebês andando no colo dos pais no banco do motorista

O ápice da negligência local! Da primeira vez que vi, fiquei absolutamente aterrorizada, mas já percebi que é normal. Pais e mães dirigindo com seus bebês (ou crianças pequenas) no colo, colados no volante. Receita total para o desastre. Existe uma crença (sério, de onde as pessoas tiram essas coisas?) de que o mais seguro para a criança é andar no colo de alguém. Cadeirinha, que no Brasil é obrigatória, nem existe por aqui. E como negligência pouca é bobagem, a pessoa dirige com a criança no colo e falando ou digitando no celular ao mesmo tempo.

Tem mais absurdos, mas esses, infelizmente, são mais comuns a outros países também, como a praga do telefone celular. Apesar de tudo, sobrevivi até agora sem sustos. Sempre atenta e com cuidados redobrados, assim pretendo continuar enquanto estiver aqui.

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