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Como é ser deficiente auditivo nos Estados Unidos

Como é ser deficiente auditivo nos Estados Unidos.

O BPM apresenta uma nova coluna. Vamos falar sobre acessibilidade nos países, dar dicas e mostrar que é possível morar fora do Brasil mesmo que você tenha alguma deficiência.

Começamos com a Renata, que mora nos EUA, e tem deficiência auditiva.

BPM – Fale sobre você, de onde é no Brasil, quanto tempo mora fora, o que faz…

Renata – Meu nome e Renata tenho 43 anos sou casada e nos temos um filho de 17 anos. Eu nasci ouvinte e aos cinco anos de idade fui diagnosticada com perda auditiva neurosenssorial bilateral de grau severo a profundo, e meu ouvido direito é anacrústico (sem resposta). Sou oralizada, estudei em escola regular e me formei em odontologia.

Depois de formada, morei por um breve período em Campinas, SP, e logo depois casei, me mudando para Santo André, no ABC Paulista, onde fiquei por 15 anos ate me mudar para Michigan, EUA em 2013, onde resido ate hoje. 

Sempre trabalhei como dentista, logo que me formei montei um consultório e em 2008 entrei como concursada na Prefeitura de Santo André, com vaga de PCD – pessoa com deficiência. Fiquei lá ate me mudar para os EUA. 

O motivo da nossa mudança foi a transferência do meu marido a trabalho (na indústria automobilística). Viemos com container e tudo – eu, meu marido e nosso filho, então com 14 anos – encarar esse desafio.

Aqui nos EUA eu não trabalho porque meu diploma não é reconhecido, e para tal, eu deveria frequentar um curso específico para dentistas estrangeiros, de no mínimo três anos. Confesso que desanimei bastante, principalmente pelo lado financeiro, o custo ultrapassa $100mil dólares Atualmente cuido da minha família, e estou à procura de trabalho.

 BPM –Quais as diferenças em termos de acessibilidade para surdos oralizados no Brasil e onde mora?

 Renata – Com certeza estou num pais onde tudo é mais acessível, mas apesar disso é preciso pedir por recursos de acessibilidade específicos para a sua deficiência, detalhando o tipo de serviço que você deseja ter, no caso dos surdos seria: interprete ASL (American Sign. Linguagem), intérprete oralista (para fazer leitura labial), estenotipia (legendas), aro magnético (recurso que transmite através de hearing loop diretamente ao AAsi/IC), telefone com legenda, telefones com tela para surdos sinalizados, aplicativos para smartphone que convertem voz em texto ou sinais ou vice-versa.

 Não há custo algum ao solicitar esses recursos adicionais, e eles são oferecidos em espaços públicos, escolas, universidades, empresas.  É uma pena que o Brasil ainda esteja engatinhando neste aspecto, mas estamos fazendo certo “barulho” e chegaremos lá!

 Por outro lado, nos EUA pouco ou nada é resolvido por e-mail ou Whatsapp, como no Brasil. Há sempre um número de telefone para ligarmos, como acontece nos bancos e cartões de crédito Brasil, o “tal telefone para surdos”. Como nem sempre é possível eu ir pessoalmente ao local e resolver assuntos “cara a cara”, e não curto depender dos outros, acabei baixando um app no meu celular, o InnoCaption. Ele nada mais faz que oferecer legendas e ligação de voz, que acompanho na tela do meu smartphone, e posso responder com minha própria voz ou digitar e uma intérprete “fala” por mim. Apenas uso a 1a opção, e tenho esse app mais para ter confiança naquilo que estou ouvindo. Esse aplicativo é uma mão na roda e ajuda muito! Ele funciona no smartphone para ligações em qualquer telefone, e também posso usar no telefone fixo, basta cadastrar o número.

 Eles também oferecem o TTY/TDD, mas eu nunca os usei, por não ter o aparelho especifico – Captioncall/legenda- para usar esse recurso e apesar de ser oferecido gratuitamente, não temos telefone fixo em casa.

No Brasil também temos esse aparelho de telefone para deficientes auditivos, mas acredito que ninguém use, porque além de ser uma geringonça, é muito caro, enquanto nos EUA é gratuito, basta solicitar a empresa, comprovando a perda auditiva.  

Outra coisa que raramente vejo aqui são painéis luminosos com senhas, e quando têm eles te chamam o seu número por voz (!) ao invés do painel, então preciso sempre avisar ao atendente que posso não ouvir ser chamada, para que eles se dirigam a mim.

Os programas de TV, aberta e fechada e também aplicativos como Netflix, AmazonTV, Hulu, etc., tem legendas, inclusive em alguns comerciais, esse é um recurso que eu uso bastante. Meus amigos brasileiros reclamam muito da falta de legendas, inclusive filmes estrangeiros no Brasil estão sendo dublados até nos cinemas… Nos EUA eu ainda não usei o recurso acessibilidade no cinema, fui apenas de ICs mesmo e achei ótimo, muito melhor que AASi! Mas os filmes também não têm legendas, a acessibilidade nos cinemas é oferecida através de GoogleGlass ou HearingLoop.

 BPM – Você acha que as pessoas lidam com a surdez com mais naturalidade no Brasil ou nos EUA?

 Renata – Surpreendi-me aqui, porque ninguém faz muita diferença se você é deficiente ou não, todos tratam os deficientes em geral com naturalidade, sem alarde. Nas lojas, mercados, espaços públicos, as pessoas sempre falam de frente para o interlocutor, de maneira clara, facilitando o entendimento, e fazem isso a todos, surdo ou não, então raramente eu falo da minha deficiência. Quando isso acontece, logo perguntam se eu sou “oral” ou “sign”, (alguns atendentes sabem se comunicar por sinais) e já adianto que não sei ASL nem LIBRAS (língua brasileira dos sinais) e estou aprendendo o inglês. 

Acho muito simpático da parte deles perguntar como vou indo, como é ouvir com implantes cocleares, ate mesmo como perdi minha audição. Não me incomoda nem um pouco responder as perguntas que são feitas, pelo contrario, até me empolgo com isso! 

 BPM – Quais são as dificuldades que você tem com a língua? 

Renata – Eu aprendi inglês no Brasil, na escola, e também frequentei um curso de idiomas e tive aulas particulares na adolescência.  Aprendi muito lendo e vendo filmes com legendas, adoro!! 

Na faculdade fiz muitas traduções de artigos/periódicos odontológicos, desta forma aprendi um pouco mais da língua, escrita, gramática e interpretação.

Ate 2014, eu apenas usava um AASi – Aparelho de Amplificação Sonora Individual, vulgo aparelho auditivo convencional –  em abril fiz meu primeiro implante coclear (IC), e em 2016 já estava bi implantada. Antes dos ICs, tinha muita dificuldade em ouvir, principalmente em aulas de laboratório de áudio. Confesso que eu não entendia muito a pronúncia correta, sempre pedia que me explicassem – por ex: Jack, explicavam que havia um “d” antes do “J” – e assim eu ia aprendendo, rs.

Fazer o IC foi um grande passo para melhorar a percepção da pronuncia em inglês. Até então eu entendia muito pouco do que era falado, apesar de ler livros, ver filmes legendados e entender perfeitamente o que era escrito, eu não fazia a conexão ler/ouvir. Encarei as aulas de ESL, treinei em apps como Duolingo e Rosetta Stone para aprender a ouvir e entender em inglês. Atualmente ainda tenho dificuldade, mas estou bem mais confiante no idioma. 

BPM – E você, como se sente? Mais a vontade no Brasil ou nos EUA?

 Renata – No Brasil eu era bem mais independente, até porque estava na minha cultura, entre meus amigos e familiares, tinha domínio completo do idioma, trabalhava e tal. Estava na minha zona de conforto. Ao mudar para cá, tudo mudou. Nova casa, cultura, idioma, amigos, desafios que todo imigrante passa, e eu ainda tinha que lidar com um novo padrão auditivo, reaprender a ouvir, não só em português, mas também aprender a ouvir e entender em um novo idioma! Hoje posso dizer que estou bem tranquila aqui, não me privo de nada e não me envergonho de falar errado ou não saber falar, vamos tentando, entre erros e acertos vamos aprimorando!

 Aqui as pessoas não ficam encarando como se fosse um ET, e consequentemente eu me sinto muito a vontade com meus implantes a mostra. Posso ser eu mesma, e me alegro quando alguém vem me perguntar sobre surdez, implantes cocleares e também como eu “aprendi” inglês. Vivo com meus ICs enfeitados com perolas, strass, adesivos…

Acho que nos EUA as pessoas lidam melhor com as diferenças, seja você deficiente, gordo, imigrante, de cabelo azul… Eles valorizam o nosso esforço diário de superar as adversidades, e isso é muito importante para nós. 

 BPM – Você está envolvida em alguma ONG relacionada à deficiência auditiva nos EUA?

 Renata – No momento, faço trabalho voluntário on-line em inglês, português e espanhol, ajudando pessoas surdas e/ou recém ensurdecidas e pais cujos filhos foram  diagnosticados com surdez que estão em busca de uma melhor qualidade de vida através do uso de AASi, Implantes cocleares, reabilitação auditiva. Há também quem busque apoio emocional (empoderamento), lembrando que não precisamos passar por isso sozinhos.

Juntos somos sempre mais fortes.

Ao compartilhar  minha história, posso também ajudar alguém que passa pela mesma situação, e muitas vezes as pessoas me contatam através de chats, e-mail, acabamos ficando amigos, e com isso também acabo aprendendo com elas e suas histórias de surdez.

Fiz voluntariamente a tradução do livro de um amigo implantado, visando compartilhar sua história e assim ajudar não só os surdos, mas seus pais, amigos e familiares. Veja aqui.

Participo de diversos fóruns on-line, bem como grupos no Facebook e no Whatsapp, quando posso vou a encontros promovidos pela HLAA (Hearing Loss Association of America), como por exemplo, a Walk4Hearing. E muito bom estar entre nossos colegas e com isso vemos quão diverso é o mundo dos surdos.

Leia também: cinco motivos para morar nos EUA

É fantástico como a internet ajuda a nos conectar com surdos de diversas regiões, estou sempre em contato com DAs do Brasil, EUA, Portugal, UK, Canada. Não é maravilhoso?

BPM – Sabemos que existe uma resistência grande com o uso de tecnologia por parte dos surdos que usam linguagem de sinais. Como é nos EUA?

Renata – Aqui ainda há entre os Surdos certa resistência à tecnologia, como acontece no Brasil. Os Surdos Sinalizados temem que o idioma desapareça com o advento dos Implantes Cocleares e da reabilitação auditiva, porem eu creio que as duas linguagens possam se coexistir.

Acredito que seja uma questão de tempo para que os Surdos (sinalizados) e surdos (oralizados) convivam na mais completa harmonia, aceitando uns aos outros, sem imposições. 

BPM – Qual a diferença de preços dos aparelhos auditivos e implantes cocleares. Onde eles são mais acessíveis: Brasil ou nos EUA?

 Renata – Muitos brasileiros acreditam que os preços dos aparelhos (AASi e IC) são muito mais baratos nos EUA, isso pode até se aplicar a algumas marcas específicas, mas  a que eu uso isso não acontece, os preços são iguais. O grande problema de adquirir um IC/AASi fora dos país de residência e a perda da garantia, isso pode causar certa dor de cabeça, e o barato sair caro. No momento o único item que vale a pena comprar fora é bateria descartável (pilha), que realmente são bem mais em conta e encontradas com facilidade em farmácias, lojas de eletrônicos, supermercados e também on-line. 

Leia também: visto para morar nos EUA

BPM – Quais são os benefícios oferecidos aos portadores de deficiência auditiva nos EUA? São parecidos aos do Brasil?

Renata – Não sei de nenhum “beneficio” para deficientes nos EUA. No Brasil através do “passe livre”, temos direito a passagens de ônibus e metro municipal, intermunicipal e interestadual gratuitas.

Descontos em cinemas, teatros, parques… Apenas no Brasil. Vagas de deficientes nos estacionamentos americanos são exclusivamente àqueles que têm mobilidade reduzida. Não há caixas ou filas preferenciais para qualquer tipo de condição física.  

Também não existe, nos EUA, cotas de emprego/concurso para deficientes. Isso, a meu ver tem um lado positivo, nos nivela “por cima”, obrigando a estudar, buscar aprimoramento constante. Vejo pessoas com deficiência atuantes em vários setores, o que me faz esperançosa de arrumar algo por aqui. Apenas preciso continuar tentando!

Apesar de muitos acharem o Brasil um país “atrasado”, nós brasileiros, não deveríamos reclamar. Além dos “benefícios” acima citados, somos um dos poucos países do mundo a oferecer Implante Coclear e aparelhos auditivos pelo governo, através do SUS. Alguns centros do SUS já fazem IC bilateralmente e oferecem manutenção dos mesmos.

Além disso, os planos de saúde são obrigados a cobrir o IC bilateral, bem como sua manutenção e mapeamentos (ajustes). Nada disso existe por aqui. A cada visita a audiologista, para mapeamento há um custo em media de U$500, sem garantias, ou seja, se não ficar bom, para “arrumar” será cobrado novamente. 

Uma das coisas que me pegam por aqui também é explicar para a minha audiologista como estou ouvindo, ou na cabine, durante os testes de audiometria… Nestes momentos eu queria ser atendida em um bom português! 

Leia a entrevista com a ilustradora Luciana Azevedo, do Canadá!

BPM – Se você voltasse para o Brasil, o que levaria dos países onde já morou para melhorar a vida dos deficientes auditivos de lá?

 Renata – Com certeza eu levaria o HearingLoop, que é um recurso maravilhoso para nós, surdos oralizados que fazem uso de tecnologia (IC/AASi) para ouvir. Ha um app muito legal que identifica os locais onde há esse recurso. Se você quiser saber mais sobre HearingLoop, clique aqui e veja essa animação.

 Outro recurso que eu levaria seria o aplicativo InnoCaption, que pode ajudar muitos surdos que não possuem discriminação auditiva para ouvir 100% no telefone, mas são capazes de responder oralmente. Realmente e libertador poder ter essa independência.

BPM – Deixe uma mensagem para os leitores do BPM. Quem sabe outros deficientes auditivos lerão a sua entrevista.

Renata – O intuito desta entrevista é compartilhar minha história e tentar ajudar.  Sempre há alguém, que deixou o nosso Brasil por algum motivo  e também com deficiência auditiva, e neste momento está passando pelas mesmas situações que eu passo no dia a dia.  Se você se identifica com meus relatos ou simplesmente  deseja deixar uma mensagem, segue abaixo meu contato através do e-mail: [email protected].


 

Obrigada, Renata, espero que você continue ajudando muitas outras pessoas como tem feito até agora. Foi um prazer te entrevistar e na verdade aprender sobre a tecnologia disponível para os deficientes auditivos nos dias atuais!

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3 comentários

Doroni Hilgenberg Setembro 14, 2017 at 1:33 am

Não sai do Brasil, mas passei de um extremo a outro. Era do Sul e há 30 anos moro no Norte. Identifiquei- me com Renata pois foi nessa idade que tambem descobri a perda auditiva. Mas superei tanta coisa e consegui construir uma linda trajetória de vida. Sou implantada e sou pedagoga e Escritora. Parabens Renata
Doroni Hilgenberg

Resposta
JESSICA FIEL Maio 28, 2018 at 3:01 pm

QUeria muito conversar um pouco com Renata. Pois estou pensando em estudar ASL nos Estados Unidos

Resposta
Renata Julho 13, 2018 at 12:56 am

Por favor, Jessica, envie um e-mail para mim! Bjks
Rê Orsi

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