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Como é ser vegetariano na Tailândia?

Como é ser vegetariano na Tailândia - Foto: Pixabay

Sawadee kaa! (Olá!)

Existe uma ideia de que a Ásia é um continente fácil para os vegetarianos e veganos, principalmente por se tratar de um ambiente budista, mas não é bem isso que acontece! Como é ser vegetariano na Tailândia? Hoje o assunto por aqui será esse! 

O consumo de carne na Tailândia é enorme e quando se fala de frutos do mar, mais ainda! É um dos mais importantes países no comércio mundial de frutos do mar.

Há 4 anos deixei de comer carne de qualquer tipo, e quando me perguntam se sou vegana ou vegetariana costumo dizer que gosto de comer comidas à base de plantas. O veganismo não é só uma dieta, ele é um estilo de vida, e eu ainda estou em processo de evolução para chegar nele.

As coisas gostosas que os vegetarianos/veganos estão acostumados a comer no ocidente não são fáceis de se encontrar por aqui. Não achamos queijos de castanha de caju, chocolates com leite de amêndoas e aqueles sanduíches recheados de pasta de grão de bico com facilidade, nas prateleiras dos mercados. Mas, para não ser injusta, as coisas deram uma melhorada do ano passado para cá. 

Quando cheguei por aqui ainda tinha dificuldade de encontrar grãos tipo grão de bico, feijão e lentilha, por exemplo. Agora encontro todos eles nos mercados locais! 

Leia também: Alimentação na Tailândia

Acredito que uma busca por uma alimentação mais saudável no mundo todo tenha ajudado a trazer todos estes ingredientes também para a Tailândia e a Ásia como um todo. Hoje em dia também encontro leite vegetal, pasta de castanhas e manteiga de amendoim com um pouco mais de frequência. 

Com o tempo, também fui percebendo outros ingredientes locais que poderiam agregar nos meus pratos ocidentais, tipo o leite de gergelim, pasta de chilli na versão vegetariana (que normalmente é feita com camarão) etc. 

Uma coisa bem interessante na Tailândia é que o país consome muita fruta, verdura e vegetais em geral, com uma infinidade de tipos diferentes que nunca ouvimos falar no Brasil. 

De uns tempos para cá abriram vários restaurantes vegetarianos/veganos mais modernos em Bangkok e outras cidades, liderados por um pessoal mais jovem, tanto gringos quanto locais, acompanhando esse movimento mundial. Eles trazem não só o tradicional da cozinha asiática, mas também uma fusão com cozinha moderna ocidental nisso tudo. E experimentar tudo isso, está sendo um privilégio e me faz sempre lembrar que carne é um mero detalhe nessa explosão de sabores.

Em Bangkok existem alguns restaurantes que são famosos entre os turistas, mas meu queridinho fica próximo da minha casa e se chama Anotai. 

Esse restaurante é ovolacto (eles vendem produtos com ovos e leite), mas também existem opções veganas/vegetarianas no cardápio. A comida é inacreditável, além de saborosa, ela é muito criativa. Outra coisa que me chama muito a atenção são as decorações dos pratos, percebe-se o cuidado e o carinho para deixar tudo super encantador. Ele é um restaurante tailandês mas numa versão mais contemporânea. O preço é acessível, mas não tão barato como comer nas barraquinhas de rua.

A minha escolha principal, sempre que apareço por lá, é uma salada chamada “Pak Wa Salad”. Pak wa é um vegetal parecido com rúcula, mas os talos e as folhas são mais grossos. O sabor é neutro, lembra um pouco a vagem. O que eu gosto mesmo nele é a textura. 

Essa salada é feita com o Pak wa, tofu, algas crocantes, cenoura ralada, amendoim, pimenta dedo de moça (muita) e para encerrar, até porque já estou ficando com água na boca, um molho de tamarindo com laranja. É uma mistura surreal de sabores! Esse restaurante é uma ótima opção para quem quer experimentar um cardápio tailandês, mas com um conceito mais moderninho. 

A Tailândia é bem aberta em todos os sentidos para quem não come carne, inclusive os próprios tailandeses admiram e respeitam quem escolhe por isso, os restaurantes estão quase sempre dispostos a mudar um prato com carne para satisfazer aquele cliente que não come. Diferente do Brasil, que quando você diz que é vegetariano/vegano, o povo te olha feio ou faz alguma piadinha do tipo: “nem peixe?”. No geral dá pra viver bem sendo vegetariano/vegano por aqui, inclusive o vegetarianismo está presente culturalmente na vida dos tailandeses. 

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Todos os anos, no mês de outubro, acontece um festival muito famoso chamado “Tesagan Gin Je” – The Vegetarian Festival.

Existem algumas variações da origem da história do festival, porém a mais comum é a do século XIX, quando uma companhia de ópera chinesa viajava por ou para Phuket (ilha no sul da Tailândia) para entreter uma comunidade de chineses mineradores que estavam trabalhando na ilha. A historia conta que toda a companhia adoeceu, mas ninguém conseguiu saber que doença era. Para combater a doença eles optaram por uma dieta totalmente vegetariana e rezaram para os Nove Deuses Imperadores. Todos se recuperaram super rápido e assim surgiu essa tradição. 

Com isso o povo local teve interesse em continuar a tradição e assim surgiu o festival vegetariano que até hoje é celebrado na Tailândia toda. Durante o evento boa parte dos tailandeses mantém rígidos na dieta vegetariana/vegana, com objetivo de trazer sorte tanto para a própria pessoa, quanto para comunidade. Os tailandeses são muito supersticiosos, então não é a toa que a moda pegou. O festival começa na primeira noite do nono mês lunar e continua até a nona noite. O festival também é uma celebração dos Nove Deuses Imperadores.

O Festival Vegetariano de Phuket é o maior do país, muitas pessoas da Tailândia, especialmente aqueles de descendência chinesa, fazem a dieta buscando limpeza espiritual e geração de méritos. Muitos rituais sagrados são realizados em santuários e templos chineses. 

Diferente de Bangkok, onde o festival é menor, em Phuket acontecem coisas meio bizarras (para nós!), como andar em carvões quentes, cortar a língua e outras mutilações que são realizadas por devotos em transe. Eles são conhecidos como “Ma Song”. Eles acreditam que os deuses chineses protegem pessoas que passam por algum dano, perdem sangue e possuem cicatrizes vindas dessa mutilação. Isso definitivamente não é recomendado para espíritos fracos (risos). 

O festival aqui em Bangkok é mais “light” e acontece nas principais ruas de Chinatown. O bairro fica todo decorado e é muito comum você ver pessoas vestidas de branco rezando nos templos chineses repletos de incensos e velas acessas. É um fumacê por todo lado! 

Outra experiência legal que tive nesse festival foi assistir à famosa opera chinesa, que é apresentada como forma de agradecimento aos deuses, uma tradição mantida viva por famílias literalmente circenses, que viajam o país todo se apresentando. Tá, mas vamos voltar para as comidas, taokei! 

O engraçado e bizarro desse festival, é ver a aparência das comidas nas barraquinhas – eles modelam uma massa, que pode ser de vegetais, de tofu, cogumelo, etc., e deixam no formato de camarão, polvo, carne e até vísceras! Assim quem é louco por carne não sofre tanto durante o festival. Várias vezes fiquei na dúvida se realmente aquele prato era sem carne!!

Durante o festival é comum você encontrar nas prateleiras dos mercados, cardápio de restaurantes e até mesmo nas barraquinhas de comida de rua, uma bandeirinha amarela que simboliza que aquele produto é “Je”, ou seja ele é vegano/vegetariano.

Ser vegetariano trouxe muita lucidez para minhas escolhas, preocupação com a procedência dos alimentos e quem foram as pessoas que tiveram envolvidas nisso, aprendi também a ler os rótulos, comprar coisas de produtores locais sempre que posso, e o mais importante: comprar sempre tudo muito fresco. 

Para mim o vegetarianismo também não tem se tratado de uma  simples escolha excêntrica dentre tantas outras possíveis. Eu não sou uma pessoa que simplesmente prefere não comer carne. Tudo isso, está sendo uma escolha de vida. É ter uma visão do mundo e nessa minha visão eu incluo crenças morais e valores pessoais. Não acredito também em sustentabilidade de alimento se tiver qualquer coisa que o fim seja exploração e morte. Isso vale para pessoas, animais e nosso meio ambiente. Hoje, mais do que nunca, tenho percebido como nossas escolhas impactam no futuro das próximas gerações. Entender que os nossos privilégios de escolhas na vida precisam ser considerados também como responsabilidade – a responsabilidade pelo impacto das nossas escolhas no meio ambiente, na vida de outras pessoas e outros animais. 

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