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França

Uma conturbada história de amor com a França

Quando a gente se muda para um lugar completamente diferente do lugar onde cresceu, a coisa mais natural do mundo é chegar no lugar novo com um caminhão de expectativas. Uma mudança radical dessas requer planejamento, claro, e como tudo aquilo que a gente planeja, junto dele vem um mundo de idéias de como vai ser a nossa vida quando a gente chegar lá.

Eu sempre sonhei em passar um tempo fora do Brasil. A verdade é que eu amo viajar; quem me conhece bem sabe uma coisa que eu faço com gosto nessa vida é mala. Melhor do que isso, só mesmo planejar a viagem dos sonhos – meus e de quem mais tiver coragem de sonhar.

Mas o que eu sempre quis mesmo foi viver experiências fora do meu habitat natural. Conhecer gente nova, entrar em contato com uma cultura diferente da minha. Eu nasci no Rio e acho mesmo que talvez seja uma das cidades mais lindas que o meu olho viu. Mas desde pequena eu me perdia olhando o mapa-mundi e ficava sonhando em morar em Nova York ou passar uma temporada no Japão. Tem gente que sonha em comprar uma casa ou em trocar de carro todo ano. Nada contra quem faz isso, mas desde que eu comecei a ganhar o meu dinheiro todo e cada centavo que eu consigo juntar é gasto tentando fazer o meu planeta ficar cada vez menor.

Quis o destino que eu fosse passar um ano em San Francisco e depois viesse ficar mais dois aqui em Paris. Duas cidades completamente diferentes entre si, claro, mas com uma coisa em comum: Essa moradora que vos fala chegou a ambas com um universo de expectativas e projetos a realizar naquela curta temporada que passaria ali.

Dizem por aí que toda expectativa gera frustração. E, quando você escolhe morar fora, não poderia existir verdade maior. Porque a verdade é que a vida nunca vai ser exatamente como você planejou: Não importa o quanto você estude a cidade, pesquise tudo o que precisa ser feito, converse sobre com pessoas que moram no lugar para onde você se mudou: É quando você chega ao novo país que a realidade se estabelece. Na sua cara.

Me mudei para Paris com a certeza de que eu ia tirar de letra morar aqui. Já tinha estado cinco vezes na cidade e conhecia algumas ruas como a palma da minha mão. Tinha três amigas morando aqui, falava um pouquinho de Francês (ah, coitada…) e sou uma pessoa bem agilizada, em geral. “Tá dominado”, como boa Carioca, pensei. “Sabe nada, inocente”, o Destino gargalhou escondido de mim.

Paris é uma cidade maravilhosa, linda, interessante de viver. Mas a verdade é que morar aqui nada tem a ver com vir passar uma semana – e talvez essa regra se aplique a quase todas as cidades que você já conheceu. Porque a verdade é que passar férias num lugar legal é um pouco como começar a namorar: A gente acha lindo tudo o que a pessoa faz. Normalmente temos tempo sobrando e estamos super abertos a fazer novas amizades. Passamos o dia olhando bares, museus e cafés. O tempo passa gostoso enquanto a gente faz um piquenique no parque, se naquele dia estiver fazendo sol. E aí a gente tem uma chuva de curtidas nas fotos do Instagram e temos tempo até de achar uma música que combine perfeitamente com toda a felicidade que a gente sente.

os predinhos de Paris <3

Imigrar pra uma cidade como Paris nada tem a ver com esse roteiro de Amélie Poulin. Se você vier pra cá achando que sua vida vai ser andar por aí de sobretudo e tomar cafés ao pôr do sol em Montmartre, vai quebrar a cara até aprender, na marra, que a realidade parisiense é fria, dura… E linda. E que sim, você vai poder vestir o sobretudo e se procurar bem consegue encontrar os mais charmosos cafés. Mas que a vida real fora do Brasil é muito mais difícil do que isso. A vida de um imigrante na Europa é fila de imigração, frio (se você começar a vida aqui no inverno, como eu tive que fazer), metrô lotado, muita frustração na procura por emprego, uma guerra sem fim pra achar apartamento, estresse com o banco e eternas saudades de casa. Quase todos esses problemas vão passar pela sua vida, em maior ou menor escala, quando você resolve morar fora do Brasil. Pode apostar.

Não importa quanto planejamento você tenha feito, não importa quanto dinheiro você tenha antes de começar. Essas são coisas que ajudam muito, mas se tem um conselho que eu posso dar a quem pensa em passar uma temporada fora do Brasil é: Resiliência. Muitas são as coisas que você não vai conseguir mudar e se você vier achando que sabe demais a vida vai te dar uma rasteira. É importante você estar muito bem preparado pro começo – com todos os documentos traduzidos, situação de visto regular e algum dinheiro para gastar com os muitos imprevistos que vão surgir no caminho. Mas importante mesmo é ter a cabeça bem fresca e rir um pouco das dificuldades que vão surgir no caminho. Porque elas vão aparecer e se você for rígido demais…. Você vai quebrar.

Até que de repente as coisas se acalmam. Você consegue alugar seu apartamento. Um belo dia, começa a trabalhar. Quando menos esperava, se dá conta de que fez um amigo e juntos escolhem um esporte pra praticar. Aos poucos a vida vai entrando no eixo e quando você menos espera já consegue chamar de CASA o lugar que você escolheu para morar. Passado o turbilhão, você consegue se encantar por uma rua que não conhecia, vai descobrindo um caminho lindo pra passar de bicicleta, abre os olhos e vê que na esquina da sua casa vai abrir um novo café. A gente aprende a se deixar conquistar por aquele lugar novo. Só que em vez daquele romance de verão, você vai construindo uma relação sustentável e consistente. E, acredite, vale a pena investir nessa história de amor.

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4 comentários

Ciça Chohfi Junho 3, 2017 at 7:02 am

Luana! Consegui sentir o que escreveu! Que história linda!!!! E verdadeira!!!❤️? Obrigada por compartilhar!

Resposta
Fernando Porto Ricardo Junho 6, 2017 at 9:23 am

Entendo TANTO o que você quis dizer. Também carioca, também morando em Paris ha quase 6 anos. Vim morar com um ex-namorado francês achando que tinha tudo “sob controle”. Paris riu na minha cara e ficou rodando a roleta durante quase 2 anos como se tivesse testando o quanto eu queria ficar aqui.

Eu brinco que Paris é exatamente um retrato dos franceses: tao elegantes mas tao frios, distantes e quase cruéis no primeiro contato (“a gente prefere conhecer bem as pessoas antes de ser simpáticos com elas” – não sei se você já escutou essa máxima dos seus amigos franceses) mas que com o passar do tempo e insistência vão baixando a guarda e mostrando uma faceta mais calorosa, gentil e atenciosa.

Eu tenho um ritual pessoal quando eu tenho vontade de sair estrangulando os franceses (o que acontece fácil uma vez a cada dois meses). Eu pego a minha bicicleta, compro uns 3 macarons na Pierre Hermé e vou pro Palais de Chaillot. Sentado naquelas escadas, comendo os meus macarons, olhando para a Torre Eiffel, eu fico observando a reação dos turistas que batem o olho na Torre pela primeira vez. E eu fico pensando em mim quando cheguei, em como Paris me obrigou à crescer e no privilégio de fazer parte do grupo de seres humanos que teve a oportunidade, a possibilidade de fazer o que queria.

Paris faz a gente ficar meio filosofo, né? 🙂

Boa sorte,
Fer.

Resposta
Sabrina Junho 9, 2017 at 8:04 pm

Adorei!!! É bem assim mesmo!! Fui lendo e parecia que vc estava lendo meus pensamentos 😉

Resposta
bertrand Setembro 1, 2017 at 7:51 am

Eu moro em Paris a 17 anos, e a historia é bem essa…eu adoro!
Hoje,vou
aproveitar o espaco: estou procurando um fisioterapeuta para trabalhar com criancas especias, nosso site http://www.lespetitscosmonautes.com

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