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Inverno na Islândia

Quando me perguntam como é o inverno islandês, parece que as pessoas acham que moramos em iglus e a imagem que têm da Islândia é a de tempestades como a do filme “Frozen”, com a Elsa, abominável homem das neves ali na esquina, e pinguins passeando no meu quintal. Antes de mais nada, vamos esclarecer uma coisa: pinguins têm habitat natural no hemisfério SUL, e não por estas bandas do globo terrestre. E iglu é coisa de inuíte, alasquiano, etc. Tampouco temos ursos polares de estimação, como costumavam brincar amigos meus sobre nossos bichos. Ursos polares aparecem ocasionalmente na Islândia, perdidos em blocos de gelo vindos da Groenlândia e têm que ser executados imediatamente pela polícia, senão a própria polícia vira almoço de urso, já que esses animais chegam aqui famintos depois da viagem involuntária. A propósito, o único animal terrestre genuinamente islandês é a raposa polar, que, no inverno, troca a sua pelagem marrom por uma branquinha, para fazer jus ao seu “sobrenome”.

Sanadas essas questões, passemos à vida prática e real no inverno islandês:

O início do inverno

Na Europa, o inverno meteorológico tem início no dia 1°. de dezembro e o astronômico, dia 21/12, com o solstício de inverno. Na Islândia, praticamente não existe meia-estação e segue-se, sabiamente, o calendário nórdico antigo (onde só há inverno e verão), que celebra o começo do inverno em outubro – “sabiamente”, porque, de fato, já pode nevar em setembro e o que determina essa divisão de estações é o sol, ou seja, a luz e não a temperatura. Assim como o início do verão, essa data é móvel, e geralmente cai entre o dia 21/10 e 27/10. Para comemorá-la, há uns 15 anos, os comerciantes de uma das principais ruas de Reykjavík oferecem, de graça, sopa de carne a todos os passantes num sábado da primeira semana do inverno.
A típica sopa de carne islandesa é feita com cordeiro, legumes da estação: cenoura, batatas, nabo sueco e temperos: cebola, alho poró, tomilho, alecrim e salsa, e tem mais cara de guisado do que de sopa, pela consistência do caldo espesso.

Como o clima anda louco no mundo inteiro, já presenciei outubros e dezembros bem “quentes” por aqui, como em 2016, com muita chuva e 8°C, parecia verão, mas também tenho fotos de neve no dia 2/10 em 2008, por exemplo.

As temperaturas

Apesar de passar raspando no Círculo Polar Ártico – a ilha Grímsey, com latitude 66°33′ Norte é o ponto mais setentrional habitado do país – , a Islândia tem uma localização privilegiada em relação à corrente (de ar quente) do Golfo do México, que garante verões fresquinhos e invernos relativamente amenos. A temperatura média no inverno é pouco abaixo de zero na costa sul, e -10°C na região montanhosa central do país (“Hálendi”). Temperatura, entretanto, não diz muito sobre sensação térmica, esta, sim, pode ser polar na Islândia.

As tempestades

Dia 5 de novembro, tivemos nossa primeira tempestade da estação este ano, com ventos de 30m/s (ou 108km/h, o que nem é tanto, em termos de Islândia) e uma nevinha fuleira. Ventos como esse podem ocorrer em qualquer estação, o vento é o maior inimigo do islandês; quando ele vem assim, fecham-se as estradas, as crianças são proibidas de andar sozinhas nas ruas (sim, porque poderiam sair voando à la Mary Poppins e entrar em órbita, não duvide…), o alerta é geral, mal se vê gente na rua. Se você estiver passando por aqui e for avisado de uma tempestade, respeite as regras e não saia, não saia mesmo, se quiser voltar vivo para o seu país de origem.

A Luz

Não é exagero e, pela latitude mencionada acima, pode-se imaginar que o pior do inverno islandês é a escuridão, nesta época do ano, temos somente quatro horas de luz por dia (mais ou menos) entre meio-dia e 4:00h da tarde. E luz nem sempre significa que vai amanhecer, porque, se o tempo estiver ruim, não fica claro de jeito nenhum. A vantagem da latitude elevada é que as auroras e os crepúsculos são longos, então, se houver Sol, o céu vai ficando lilás e cor de rosa claro antes do nascente propriamente dito. Agora, os habitantes de Ísafjördur, uma cidade no noroeste da Islândia, passam o inverno literalmente no escuro, até o dia 19 de janeiro, quando o sol finalmente chega a uma altura maior do que a montanha que cerca o seu fiorde.

E como são esses dias escuros? Simples: você acorda no escuro, sai para trabalhar no escuro, volta para casa no escuro e fica de luz acesa o dia todo. E se você trabalha num lugar fechado, como uma fábrica ou um armazém, não verá luz natural durante uns cinco meses, no mínimo. Isso pode levar a depressão e outras doenças, aqui não é comum haver bancos de luz artificial como em outros países nórdicos que também sofrem com a escuridão no inverno. O que se faz?

Coisas do inverno

É absolutamente essencial tomar vitamina D diariamente no inverno, os islandeses crescem tomando óleo de fígado de bacalhau, o “Lýsi” e dobram ou triplicam a dose nesses meses do ano. Eu já aprendi e, se fico sem, bate um cansaço, mau humor, a imunidade cai e logo pego um resfriado. Sim, vitamina D também é bom para fortalecer o sistema imunológico. Além disso, é importante dar uma saidinha de, pelo menos 15 minutos na claridade do dia, no inverno, essa luz faz diferença.

Roupas florescentes e olho de gato em tudo, até na bolsa: não só as crianças têm que andar com roupas luminosas na escuridão, adultos também. Volta e meia morre alguém atropelado porque não foi visto atravessando a rua escura e vestia um casaco preto. Se não neva, tudo fica um breu, então há que comprar acessórios refletores, o ideal é aquele colete verde limão semelhante ao de trabalhadores do trânsito ou da construção civil.

“Spikes” (travas de metal) no sapato ou nos pneus, você torna-se alpinista na rua: os islandeses adoram trilhas e caminhadas, mas não andam a pé nas cidades, salvo crianças e adolescentes, ou os que por algum raro motivo não tenham carteira de motorista. Raramente pegam ônibus, o caminho básico é de casa ou do trabalho para o carro e vice-versa. Este mesmo povo viking que resistiu a tempestades e obstáculos da natureza durante séculos não se dá ao trabalho de limpar a neve da frente da sua casa e, congelada, ela torna a vida de pedestres como eu um inferno durante o inverno: se você não tiver esporas ou spikes nos sapatos, vai sair se estabacando de esquina em esquina, nas ruas e calçadas que não são aquecidas (veja o que é isso aqui). Assim como o cavalo islandês, que tem cinco tipos de andamento, ao longo dos anos, a espécie humana vai desenvolvendo por aqui um tipo de caminhar especial sobre o gelo para evitar quedas. Agora, se você não cair, vai dar um mau jeito no ciático, no mínimo.

A vida do lado de dentro: o esqui não é tão praticado aqui até o fim de janeiro, quando há mais luz. As coisas acontecem do lado de dentro, futebol, atletismo, até tênis se joga em quadra coberta. Tudo acaba mais cedo, não se vê tanta gente na rua como nas noites ensolaradas de verão, os cinemas e as pistas de boliche estão sempre cheios e não é à toa que a Islândia é o país que mais lê no mundo e tem uma produção musical enorme per capta.

Por outro lado, algumas coisas não mudam nunca: natação é sempre ao ar livre, em piscina aberta, as sorveterias funcionam o ano todo e têm até senha, ninguém deixa de fazer nada por causa do tempo. “Não existe tempo ruim, existe roupa errada”, diz um ditado em todos os países frios que conheço.

E, por falar em roupa, quem tem crianças pequenas em casa sabe o trabalho que dá sair nesse tempo: muitas camadas de agasalhos, gorro, luva, cachecol, sapatos impermeáveis, etc. Aí a criança tá toda pronta para sair, ou na estrada, no meio do nada e diz: “mamãe, eu quero fazer xixi” … Acontece, caro leitor. Agora, essas mesmas crianças A-DO-RAM o inverno. Aquele gelo que é o terror dos adultos nas ruas, para elas é pura diversão, na escola, ou para jogar hóquei e patinar quando o laguinho da cidade congela, fazer boneco ou guerra de neve no quintal…

Há que se planejar sempre mais tempo para sair de casa, não só para vestir e calçar toda essa parafernalha, mas também, limpar o gelo do vidro do carro ou até cavar em volta dos pneus e, se for caminhando, tem que ser devagarinho, como eu disse acima.

Não estou reclamando, estou apenas mostrando a vida de todo dia por aqui para você, que adora frio. O inverno nórdico também consegue ser lindo, lindo, mesmo, com e sem luz, em todas as suas formas. A partir dos meados de agosto, antes de dormir, eu dou uma olhadinha na janela para ver se o céu tem aurora boreal. Frequentemente, ela está lá, dançando, parece artificial. Às vezes, tarde, chamo o meu marido para compartilhar esse momento e ele ignora, vira para o lado e dorme, já vê o espetáculo desde que nasceu, não é tão especial. A aurora pode ser verde, azulada até o lilás ou laranja-avermelhada – aurora vermelha eu vi poucas vezes e minha sogra costumava dizer que ela era presságio de coisas ruins, uma guerra, por exemplo.

E, se não há aurora, as ruas ficam um pouco mais bonitas com as luzes de Natal, que só são tiradas das janelas e fachadas lá pelos meados de março! Sim, não é preguiça dos islandeses, é para alegrar a vida até o verão chegar em abril, de novo, com 24 horas de luz.

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8 comentários

Camilla Janeiro 17, 2018 at 12:21 pm

Adorei seu texto, estou muito interessada na islandia pois tenho um tempo em Julho e Agosto de 2018 na Europa e talve vá visitar o país. Sou uma parteira no Brasil e trbalho na UFRGS em Porto Alegre. Obrigada pelo Texto.

Resposta
Erika Martins Carneiro Janeiro 17, 2018 at 1:53 pm

Obrigada, Camilla!
Que profissão linda a sua profissão de parteira, parabéns!
Se você vier até o fim de julho, ainda poderá ver o sol da meia-noite, temos 24 horas de luz nessa época.
Boa sorte nos seus planos, se precisar, pode entrar em contato por aqui.
Abraço

Resposta
Melhores destinos para viajar em 2018: Confira aqui! Maio 2, 2018 at 2:07 pm

[…] dos principais motivos para isso é a Aurora Boreal. No inverno, com noites mais longas e escuras, o céu da Islândia é tingido por fabulosas luzes coloridas. […]

Resposta
Aline Julho 11, 2018 at 6:50 pm

uau que incrível, eu amei o texto. Sou fascinada pela Islândia, meu sonho é um dia poder conhecer esse lugar e desfrutar de um momento tão único que é presenciar a aurora boreal! Se você pudesse me indicar um mês para viajar para a Islândia, qual seria? Queria poder pegar o inverno para ver a aurora, mas tb queria um dia mais longo para curtir as outras paisagens que esse país maravilhoso têm.

Resposta
Liliane Oliveira Julho 12, 2018 at 2:24 pm

Olá Aline,
A Erika Martins Carneiro, infelizmente parou de colaborar conosco.
Obrigada,
Edição BPM

Resposta
Suzana Dezembro 20, 2018 at 10:45 am

Ola Erica ! Estive na Islandia ,em agosto , com um pequeno grupo da Queensberry.
Saudades dos dias passado aì contigo ! Viagem maravilhosa ,só faltou a “ aurora boreal”.
Um grande abraco da Suzana.

Resposta
Marcela Dezembro 27, 2018 at 3:03 am

Oi erica! Adorei seu texto…. estou pensando ir na Islândia de 2 a 8 de março! Que você acha? Sei que deve tar frio mas adorava ver Aurora boreais ….

Resposta
Liliane Oliveira Dezembro 27, 2018 at 1:15 pm

Olá Marcela,
A Erika Martins Carneiro, infelizmente parou de colaborar conosco.
Obrigada,
Edição BPM

Resposta

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