Luciano Dutra: tradutor e editor na Islândia

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Luciano Dutra. Foto: Georg Leite
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Luciano Dutra: tradutor e editor na Islândia.

Para a Coluna do Clube do Bolinha, o BPM apresenta o Luciano Dutra, que nasceu em Viamão, RS, e é tradutor e editor de obras literárias de línguas nórdicas. Ao que se saiba, ele é o único tradutor juramentado do islandês para o português. Participa ativamente da vida política islandesa, integrando em maio a lista do Partido Socialista da Islândia à câmara municipal/prefeitura de Reykjavík. Foi o pesquisador e roteirista do documentário Ao Sul Eles Foram (original em islandês, Vögguvísa úr öðrum heimi), dirigido por Sigursteinn Másson, sobre a imigração islandesa no Brasil e tem o projeto, a longo prazo, de publicar o primeiro dicionário islandês-português de que se tem notícia. Mantém no Facebook a página Um Poema Nórdico ao Dia, onde publica diariamente poetas nórdicos em tradução.
Agradeço, de coração, o tempo que Luciano encontrou na vida super ocupada para responder às perguntas do BPM e desejo muito sucesso sempre!

BPM – Conte um pouco sobre a sua trajetória: como você veio parar na Islândia e há quanto tempo mora fora do Brasil?

Luciano – Vim à Islândia originalmente em 2002 para estudar islandês e literatura islandesa na Háskóli Íslands (Universidade da Islândia), em Reykjavík. Depois, agreguei uma ênfase secundária em estudos de tradução, comecei um mestrado nessa mesma área, me tornei tradutor juramentado do islandês e passei a participar da política islandesa (primeiro, pelos sociais-democratas do Samfylkingin e, desde o ano passado, como um dos tantos fundadores do Partido Socialista da Islândia). No total, incluindo a Islândia e passagens breves pela Noruega e pela Suécia, moro fora do Brasil há catorze anos.

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BPM – Como se deu o seu interesse pelo islandês e como você aprendeu a língua? Que dicas você dá para quem quer aprender um idioma difícil como esse?

Luciano – O meu interesse pela língua islandesa teve origem nas minhas leituras da obra de Jorge Luis Borges, que era um aficionado das literaturas germânicas medievais, especialmente do anglo-saxão (inglês antigo) e islandês medieval (nórdico antigo). Comecei a aprender o islandês na Háskóli Íslands e diria que ainda estou e continuarei aprendendo esse idioma o resto da vida, pois ele, com suas declinações irregulares e vocabulário autóctone muito distinto do das línguas europeias com que estamos mais familiarizados, é tão diverso do português, que é preciso muito tempo para expressar-se por escrito de forma satisfatória. Para começar a falar, porém, bastam de um a dois anos de imersão na vida islandesa, seja através de laços familiares ou de amizade ou em ambientes laborais onde o islandês seja a única língua falada, para dar os primeiros passos.

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BPM –  Você se imaginava tendo esta profissão e levando a vida que leva quando morava no Brasil, há uns 20 anos? Você acha que teria as mesmas oportunidades no Brasil, ou aqui a vida profissional é melhor?

Luciano – No Brasil, a minha vida como tradutor seria muito mais complicada. Tenho a experiência de viver 4 anos no Brasil (2009 a 2012) trabalhando para agências internacionais de tradução e também como tradutor literário das línguas nórdicas: eram horas excessivas de trabalho diário solitário em casa para conseguir manter um padrão de vida que, num país como a Islândia, é possível de se ter com qualquer emprego assalariado. Acredito que a Islândia, por ser um país de população tão reduzida – mas ao mesmo tempo com todas as demandas de uma sociedade moderna e de uma nação independente – oferece mais oportunidades para quem aqui se estabelece e está aberto a aprender o idioma e se adaptar à cultura e aos hábitos locais. Então, nesse sentido, eu diria que o mercado laboral é mais favorável ao trabalhador do que no Brasil, especialmente em termos de reconhecimento, que aqui é praticamente imediato.

Foto: Georg Leite

BPM – Você alguma vez sofreu preconceito por ser brasileiro ou simplesmente estrangeiro?

Luciano – Apenas um episódio decorrente mais de um mal-entendido do que qualquer outra coisa, nesses 14 anos morando fora. De resto, creio que se houve algum tipo de preconceito, foi um preconceito positivo, por ser brasileiro, pois ainda gozamos, como indivíduos, de um grau de simpatia muito grande, talvez pela questão do futebol, talvez por sermos oriundos de um país que há mais de 150 anos não se envolve em nenhum conflito de grandes proporções.

BPM – Há muitas pessoas querendo sair do Brasil, recebemos muitas perguntas sobre como fazer para imigrar. Qual a sua mensagem para essas pessoas?

Luciano – Eu diria àqueles que pensam em tentar a sorte fora do Brasil que, assim como no nosso país, nem tudo é um mar de rosas, como muitas vezes se imagina. Estar longe dos entes queridos (sejam familiares ou amigos) é algo que, para muitas pessoas, não compensa a qualidade de vida que, uma vez bem estabelecido e adaptado no novo país, é possível alcançar. É tudo uma questão de escolha e prioridade de cada momento na vida. Para quem tem muito apego à família, ou, por exemplo, tem pais em idade mais avançada, esse é um especialmente sensível e difícil. E esse é apenas um dos fatores a considerar antes de tomar uma decisão tão importante na vida.

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BPM – O que você mais gosta na Islândia e o que menos gosta aqui?

Luciano – O que mais gosto de morar aqui é o sentido de comunidade, de fazer parte de algo e não ser apenas um número ou um nome numa folha de papel. Num país de 330 mil pessoas, cada um faz a diferença, ou pelo menos pode fazer, se assim o desejar. O que menos gosto talvez seja um certo ranço provinciano um tanto comum em sociedades de menor porte e especialmente num país ilhéu, onde o isolamento é questão até de identidade nacional. Uma das manifestações desse provincianismo é dar talvez importância demasiada a coisas que em sociedades mais complexas nem seriam considerados problemas relevantes, outra manifestação é a ignorância quase absoluta em relação a tudo o que não seja o circuito do Atlântico Norte (América do Norte anglo-saxã e Europa Ocidental). Muita gente aqui ainda pensa, por exemplo, que falamos castelhano no Brasil ou que o México fica na América do Sul…

BPM – Qual o seu maior desafio hoje?

Luciano – Grandes desafios neste momento são dar conta dos diferentes papeis sociais a que somos levados a desempenhar num país tão pequeno e também a já mencionada distância dos entes queridos, que parece que se agrava conforme a nossa idade vai avançando.

BPM – Sabemos que você tem uma editora, a Sagarana forlag. Como surgiu essa ideia e como ela se concretizou?

Luciano – A ideia de fundar a Sagarana forlag, em 2014, era trazer literatura brasileira para a Islândia e vice-versa (literatura islandesa medieval, como as sagas, e contemporânea, em tradução brasileira). Porém, nesses quatro anos, já publicamos literatura islandesa inédita, literatura escandinava (Karl Ove Knausgård, Josefine Klougart) e também literatura portuguesa (Valter Hugo Mãe) em tradução islandesa. Ano passado, a Sagarana forlag estabeleceu uma parceria com a Editora Moinhos de Belo Horizonte com vistas a editar obras em prosa e verso de autores nórdicos no Brasil, em regime de co-edição.

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BPM – Você está preparando um dicionário de islandês-português, será o primeiro editado no mundo. Fale um pouco sobre isso.

Luciano –  Esse é um projeto que surgiu logo que comecei a estudar islandês na universidade aqui, pois senti falta de materiais didáticos em português, e também como tradutor e intérprete a falta de um dicionário bilíngue entre os dois idiomas também era gritante. Concluir um dicionário, porém, é uma tarefa hercúlea que exige mais recursos financeiros e tempo que apenas uma pessoa consiga realizar. Então, no momento, e já há vários anos, o projeto encontra-se em banho maria, sem previsão de publicação.

BPM – Você pensa em voltar para o Brasil?

Luciano – Penso, claro, em voltar ao Brasil regularmente por razões familiares e de amigos, mas também para participar, seja como tradutor ou como editor, de eventos literários como a Flip ou a Feira do Livro de Porto Alegre, como já fiz o ano passado. Mas voltar para me restabelecer permanentemente não é algo viável ou desejável no momento. Minha vida é aqui, aqui demorei mais de uma década para me estabelecer e ter uma vida estável e relativamente confortável, mas, sobretudo, segura. É difícil abrir mão disso, para ser honesto.

BPM – Qual o seu lema de vida?

Luciano –  Não tenho propriamente um lema, mas acredito em algumas coisas: que devagar se vai ao longe; que o mundo é cheio de oportunidades, muito mais do que de problemas, para quem está disposto a arregaçar as mangas; que ainda há motivos para acreditar no ser humano e para lutar por um mundo melhor; que não adianta apenas reclamar de tudo isso que está por aí, mas, sim, fazer a sua parte para melhorar o mundo à nossa volta, começando por nós mesmos, pela nossa própria casa, pela nossa rua, nosso bairro, nossa cidade e nosso país. O mundo não se muda inteiro de uma vez, mas aos poucos. Sobretudo: que um mundo melhor e mais solidário é possível.

3 Comentários

  1. Poxa, fico muito feliz com essa entrevista. Eu adoraria conhecer mais das literatura nórdica, e tenho certeza que a Sagarana Forlag (aliás, ótimo trocadilho!) será de grande ajuda neste processo. Além disso, conhecer um brasileiro que conseguiu realizar um dos meus maiores sonhos é sempre inspirador hahaha. Meus parabéns, Luciano. E muito obrigado, Erika, por seu trabalho maravilhoso de falar sobre este país lindo que é a Islândia.

    Um dia crio coragem e volto a estudar o idioma…

    • Muito obrigada, Caio, Fico feliz que você gostou!
      Realmente o Luciano tem uma trajetória admirável, sou grata pela oportunidade.
      Venha realizar o seu sonho, sim, a Islândia é encantadora e você, com certeza, vai gostar.
      Abraço e boa sorte nos seus planos!

  2. Erika, que massa a entrevista! Acompanho a página dele no Facebook e fiquei feliz de saber um pouco mais sobre esse trabalho tão importante que o Luciano está fazendo. Obrigada por nos presentear com mais um conteúdo de qualidade. Beijos!

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