Khor Virap, o cartão postal da Armênia

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Vista livre do Ararat a partir de Khor Virap / foto: acervo pessoal
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Khor Virap, o cartão postal da Armênia.

Pode-se dizer, sem medo de errar, que o principal cartão postal da Armênia, e consequentemente uma das principais atrações turísticas do país, é o mosteiro de Khor Virap, que fica a cerca de 50km do centro de Yerevan.

“Khor Virap” significa “masmorra profunda” e fica muito muito próximo do monte Ararat (e, consequentemente, colado na fronteira com a Turquia). Embora seja possível enxergar a fronteira com a Turquia a partir do mosteiro de Khor Virap, é impossível atravessá-la, já que esta fronteira terrestre é fechada, embora haja voos entre Istambul e Yerevan.

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Uma capela foi inicialmente erguida no ano de 642 em Khor Virap por Nerses III, O Construtor, como marco de veneração a São Gregório. Ao longo dos séculos, foi constantemente reconstruída. No ano de 1662, a Igreja da Santa Mãe de Deus (Astvatsatsin) foi construída em torno das ruínas da antiga capela, do mosteiro, do refeitório e dos aposentos dos monges. Hoje em dia, atividades normais da Igreja acontecem ali, um dos lugares mais visitados da Armênia pelos peregrinos (e também pelos turistas). É recomendado que as mulheres, ao visitar a Igreja, cubram a cabeça e não usem roupas muito curtas e/ou decotadas.

A colina de Khor Virap e suas adjacências correspondem ao local da primeira capital da Armênia, Artashat (ou Artaxiasata), fundada pelo Rei Artashes I (o primeiro da dinastia Artashesid) por volta de 180 a.C. Artashat permaneceu como capital da dinastia até o reinado do Rei Khosrov III (330-339), quando foi transferida para Dvin. Subsequentemente, Artashat foi destruída pelo Rei Persa Shapur II. Artashat é uma província muito próxima à colina de Khor Virap. Até a construção da capela, Khor Virap era utilizada como prisão real.

Quando o Rei Tiridates III governava a Armênia, seu assistente era o cristão Grigor Lusavorich, que pregava a religião cristã. Entretanto, Tiridates, um seguidor da religião pagã, não estava contente em ter um conselheiro de outra religião, e submeteu Gregório a torturas severas. Quando o rei soube que o pai de Gregório, Anak o Parthian, foi responsável pelo assassinato do pai do rei, o rei Tiridates III ordenou que fossem atadas as mãos e os pés de Gregório, e que ele fosse abandonado em Khor Virap para que morresse na masmorra profunda localizada em Artashat. Além disso, a refusa de Gregório em oferecer sacrifício a deusa Anahita provocou a ira do rei Tiridates, que o torturou e condenou à prisão.

Cruz armênia (Khachkar) dentro da masmorra onde São Gregório ficou preso por 13 anos / foto: acervo pessoal

Gregório foi, então, esquecido na prisão, enquanto o Rei Tiridates III comandavas guerras e perseguições às minorias cristãs. Entretanto, Gregório não morreu durante os seus 13 anos de aprisionamento. Sua sobrevivência foi atribuída a uma viúva cristã da província local que, sob a influência de visões em sonhos, alimentava Gregório regularmente com folhas de pão (provavelmente lavash) que ela levava até a beira do poço que dava acesso à masmorra.

Durante este período, o Imperador Romano Diocletian queria se casar com uma mulher bonita, e mandou seus agentes e busca da mulher mais bela que existisse. Eles encontraram uma menina chamada Rhipsime em Roma, que estava sob a tutela da Madre-Superiora Gayane em um convento cristão. Quando Rhipsime soube da proposta de casamento do Imperador, ela fugiu para a Armênia para evitar as bodas. Uma busca foi iniciada para que se encontrasse a garota e punisse quem a tivesse ajudado a escapar, e eventualmente Tiridates encontrou Rhipsime, levando-a à força ao seu palácio. Depois de tentar cortejá-la, sem sucesso, o rei ordenou que ela fosse levada à sua presença usando uma coleira, na esperança de conseguir persuadir Rhipsime a casar-se com ele.

Entretanto, o que sucedeu foi a perseguição e assassinato de Rhipsime, Gaiane e muitos outros cristãos. Tiridates enlouqueceu e acredita-se que ele passou a agir de maneira descontrolada, enquanto demônios possuíam muitos cidadãos. Foi então que a irmã de Tiridates, Khosrovidhukt, teve uma visão à noite, quando um anjo disse a ela sobre o prisioneiro Gregório na cidade de Artashat, que podia pôr fim no sofrimento causado pelos demônios, e ensinaria a eles os remédios para todas as doenças. As pessoas não confiaram muito nesta visão, pois todos acreditavam que Gregório teria morrido após poucos dias do seu aprisionamento. Khosrovidhukt teve o mesmo sonho repetidas vezes, eventualmente sendo ameaçada de que, caso as instruções dos seus sonhos não fossem seguidas, haveria graves consequências. O príncipe Awtay foi confiado com a missão de resgatar Gregório de Khor Virap. Ele foi até a masmorra e gritou para Gregório que, se ele estivesse em algum lugar ali embaixo, que ele saísse, pois o Deus a quem ele adorava tinha ordenado que ele fosse tirado dali. Gregório foi encontrado em estado miserável, e foi levado até Tiridates. O Rei Tiridates tinha enlouquecido, alimentando-se entre os porcos em Valarshapar e arrancando sua própria pele. Gregório curou o Rei Tiridates, trazendo-o de volta às suas capacidades mentais. Gregório soube de todas as atrocidades que foram cometidas, e viu os corpos de muitos mártires que foram cremados. O Rei, acompanhado de sua corte, aproximou-se de Gregório, procurando perdão por todos os pecados que haviam cometido. Daí pra frente, Gregório passou a pregar o cristianismo ao Rei, a sua corte e ao seu exército.

O Rei Tiridates, que abraçou o Cristianismo como sua religião após a sua cura miraculosa, realizada por meio da intervenção divina de Gregório, proclamou o Cristianismo como religião de Estado da Armênia no ano de 301. Gregório se tornou o Bispo de Cesareia, e permaneceu a serviço do Rei até cerca de 314. Uma outra versão atribuída à conversão do Rei Tiridates ao cristianismo é que foi um movimento estratégico para criar uma unidade nacional e vencer a hegemonia dos Persas Zoroastrianos e da Roma pagã e, desde então, a Igreja Cristã tem exercido uma forte influência na Armênia, sendo parte da identidade nacional.

Khor Virap fica a cerca de 1h de carro do centro de Yerevan, e o percurso de ida e volta num táxi do tipo conforto (com ar condicionado), contabilizando o tempo de espera do motorista, custa por volta de 15.000 AMDs (cerca de US$31). Algumas empresas turísticas oferecem o passeio para Khor Virap e outros pontos históricos da Armênia em roteiros de um dia (day-trip), e custam por volta de 20.000 AMDs (cerca de US$42) por pessoa.

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