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O furacão Harvey e eu – Parte II

Escrever o primeiro texto dessa experiência com o furacão Harvey me fez reviver todos os momentos de angústia, incerteza e medo que tomaram conta de mim naquele dia e nos que se seguiram.

Como contei aqui, fomos resgatados de barco, do barco pegamos um caminhão com uma enorme boleia, era preciso subir por uma escada e, ali, todos os moradores da região se encontravam. A expressão nos rostos era da mesma: perplexidade. Ali, diferentes nacionalidades e línguas tinham um denominador comum: o que aconteceria depois?

Fomos encaminhados a uma região que estava seca e segura, era um grande estacionamento, onde agentes da prefeitura organizavam as filas para a entrada nos ônibus que levariam aos abrigos disponíveis. Havia abrigos para famílias com animais, também.

Junto com mais umas dez famílias, fomos para um dos prédios da empresa que meu marido trabalha, um prédio de doze andares. Os escritórios foram transformados em abrigos para os funcionários que foram evacuados de suas casas. No local, colegas de trabalho que moravam em áreas secas se voluntariavam para cozinhar, trazer cobertores, sacos de dormir, tudo o que precisaríamos para passar os próximos dias. Na manhã seguinte, com uma ideia geral do que tinha acontecido e em segurança, uma amiga nos pegou e nos acolheu em sua casa.

O meu bairro foi um dos últimos a serem inundados e a água demorou quase uma semana para drenar-se totalmente, diferente de outros bairros, que já viam a água escoar, nós ainda esperávamos que o reservatório voltasse, pelo menos, ao seu nível normal.

Houston ficou, do dia 28 de agosto ao dia 05 de setembro, parada, alguns serviços foram voltando aos poucos, pois os funcionários não tinham como se deslocar.

A população se comoveu e se uniu, eu nunca havia visto nada igual. Os abrigos já recusavam doações, pois não tinham mais onde colocar tanta água, alimentos, roupa, objetos de higiene… Restaurantes abriram suas portas para voluntários, ofereciam café, almoço e jantar àqueles que se arriscavam para ajudar quem estava precisando.

Outros estados enviaram contingentes como reforço, pessoas comuns se mobilizavam. Como contei no meu texto anterior, aguardávamos o resgate, quando 5 homens em um barco ofereceram ajuda, como eles, muitos outros ajudando pelo prazer de ajudar, fazer o bem a sem ver a quem, isso me comoveu demais.

Ainda tenho muita história para contar, mas vou tentar agora passar mais a experiência do que apenas relatar fatos.

Siga sempre as recomendações das autoridades locais, eles não colocarão você em risco, estudos são feitos para traçar os planos de ação.

Muitas famílias não tinham seguro contra alagamento, eu explico. Algumas regiões em Houston têm assinatura mandatória para esse seguro, quando você compra a sua casa, é obrigado a comprovar que está assegurado. Nas áreas que não são passíveis a inundação, o seguro é facultativo – dependendo da área, nem oferecidos são – , esse era o meu caso e da minha vizinhança, mas por incrível que pareça, eu tinha seguro!

Então, independentemente de onde você mora, se puder pagar, compre o seguro de enchente, de incêndio e qualquer outro que seja oferecido, será o dinheiro mais bem pago da sua vida.

A reconstrução de uma casa que custa por exemplo, 100 mil dólares, com seguro terá seu gasto totalmente coberto. Entretanto, o órgão do governo que dá assistência a quem ficou desabrigado sem seguro,oferece no máximo 30 mil dólares.

Leve com você documentos importantes e pessoais, você não sabe quando, nem se poderá voltar para casa.

Não abandone seu animal de estimação.

Vi minha casa e meu condomínio virarem um gigantesco canteiro de obras, casas totalmente abertas, como diria Vinicius “era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada…” seguimos morando temporariamente em outro local, ainda aguardamos o pagamento do seguro, muitas incertezas e uma única certeza: voltar para minha casa e poder novamente chamá-la de lar doce lar.

No instagram do Brasileiras pelo Mundo , mostrei um pouco como estava a situação, o processo de demolição e limpeza. Foram várias mensagens de solidariedade e carinho, aproveito para agradecer imensamente a todos.

Minha sala de estar, após o furacão. Foto arquivo pessoal

As famílias atingidas pelo Harvey seguem se recuperando de forma lenta, afinal, há escassez de mão de obra, material, bens de consumo, carros entre outros. Minha casa ficará pronta apenas em dezembro. As palavras “desabrigadas” e “sobrevivente” começaram a fazer parte da minha vida.

Para ilustrar o que foi essa tragédia, alguns dados:

  • O furacão mais custoso da história: 125 bilhões de dólares serão gastos. O furacão Katrina (2005) tinha esse “posto”, até então, com 110 bilhões;
  • Mais de 185 mil casas foram total ou parcialmente destruídas;
  • Em Houston choveu 75 trilhões de litros de água, o que seria equivalente ao fornecimento de água da cidade de Nova Iorque por 5 anos;
  • 440 mil pessoas solicitaram assistência na FEMA (Federal Emergency Management Agency) órgão federal de gerenciamento para emergências;
  • Mais de 260 abrigos foram abertos.

O lado positivo do Harvey: descobrir a solidariedade do ser humano, ratificar a união dos brasileiros que residem no Texas e em outros estados americanos. Constatar que somos muito mais fortes e determinados do que imaginamos e que desistir não é uma opção.

Mais uma vez, muito obrigada a vocês que leem o BPM e que, mesmo sem nos conhecermos, me mandaram tantas demonstrações de afeto.

See you soon!

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