O que aconteceu depois que me mudei de país

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Foto: Unsplash
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O que aconteceu depois que me mudei de país.

Quando eu e meu marido oficializamos que dentro de alguns meses iríamos nos mudar para a Áustria, não houve sequer uma pessoa dizendo que seria fácil. É claro.

Mudar de país é muito mais do que simplesmente fazer as malas, fechar as contas bancárias e partir. É cortar, voluntariamente, o cordão que te prende a tudo que fez parte de sua vida e começar, do zero, uma nova vida em um novo lugar.

Desde pequena me considerava desapegada, independente e curiosa. Talvez por isso imaginei que poderia encarar facilmente qualquer grande mudança.

Mudei-me da cidade pequena para a capital paulista sozinha, para estudar e trabalhar, e desde o primeiro dia lá já sabia que não voltaria. Imaginava, inclusive, que dentro de pouco tempo sairia dali também para explorar o mundo.

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O que nunca passou pela minha cabeça é que sem as frequentes viagens que eu normalmente fazia para o interior, para reencontrar toda minha família e amigos, sem os abraços apertados e os cafés da tarde cheios de memórias afetivas, eu me sentiria completamente sozinha do outro lado do oceano. Com o coração apertado de saudade.

Só percebi que a distância que existia entre o interior e a capital não era tão distante assim quando me mudei para outro continente. Comecei a notar que uma vez estando verdadeiramente longe do lugar em que nasci, cresci e aprendi tudo que hoje sei, os obstáculos pareciam maiores ainda. Será que eu tomei a decisão certa em me mudar?

Mas não me entendam mal. Esse post não é para falar que mudar de país é algo ruim, não. Aliás, a mudança tem sido uma experiência incrível, rica de descobertas e aprendizados para mim, para meu marido e também para nosso filho. Mas acho válido mencionar que não é um conto de fadas perfeito. Seja lá quem for que estiver considerando mudar-se de país, deve ter em mente que poderá enfrentar certos “efeitos colaterais”.

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Hoje completamos 6 meses aqui em Viena e, refletindo sobre as fases mais difíceis que vivi, decidi compartilhar minha experiência.

 1º mês: A distância e o impacto na família

Ainda que a mudança de país seja motivada por uma grande oportunidade que tenha surgido – por exemplo, uma belíssima proposta de emprego ou então uma bolsa de estudos em uma universidade – mudar é uma decisão egoísta, unilateral e certamente afetará sua família de uma forma negativa.

Se você tiver pais supercompreensivos e parceiros, provavelmente ouvirá que eles estarão felizes desde que você também esteja, mas ainda assim a distância trará sofrimento a eles. Sejamos francos, quem se muda tem tantas coisas para resolver – especialmente nos primeiros meses – que quase não tem tempo de sentir a separação. Porém, quem fica sente diariamente.

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 2º mês: O desafio de dominar o novo idioma

Se você estiver se mudando de país e já souber falar a língua local, isso é ótimo. Mas se porventura ainda não domina o novo idioma, saiba que essa barreira será uma das principais a serem vencidas.

A corrida será acirrada e o êxito não depende de ninguém mais além de você. Embora saibamos que o inglês é uma língua global, falada inclusive em países onde não é o idioma oficial, apostar somente nele provavelmente fará com que você seja considerado sempre um “outsider”.

Conhecer e aprofundar-se no idioma local faz parte do processo de integração à nova cultura e, sendo assim, é essencial para que você e as outras pessoas entendam que aquela é sua nova vida.

 3º mês: O sentimento de culpa por estar distante

Se tem uma coisa que com certeza irá acontecer depois que você se mudar de país é essa: A vida vai continuar. Coisas boas e também ruins naturalmente continuarão a acontecer aos seus familiares e amigos enquanto você estiver distante.

Eu particularmente vivenciei a mais triste experiência da minha vida, vi uma pessoa que amo incondicionalmente adoecer, ficar entre a vida e a morte. A sensação de não poder ajudar, de não poder dar um abraço ou confortar aqueles que também estavam sofrendo com o acontecimento foi a pior de todas.

A decisão de estar longe intensificou a dor, trouxe um forte sentimento de impotência e, adicionalmente, me fez pensar que não sou uma boa pessoa por “não permitir” que meu filho cresça na companhia dos familiares.

4º mês: A nostalgia e a solidão

Se não tivesse acontecido nenhum episódio ruim nos três primeiros meses, provavelmente eles teriam sido os mais fáceis. Mudar-se para uma nova casa, ter um novo trabalho e/ou curso e todas as novidades de uma vida nova funcionam como combustível.

Se você for uma pessoa aberta e tiver sorte em encontrar pessoas interessantes pelo caminho, pode ter certeza que rapidamente fará novos amigos. Mas a verdade é que até essas novas amizades tornarem-se consistentes, levará tempo. E é nessa hora que a solidão vai chegar.

No meu caso, mesmo cercada de pessoas superlegais, eu me sentia solitária e até melancólica com frequência. Sentia – e sinto – falta de me reunir aos domingos com minha família, de encontrar meus antigos amigos da escola, das festas de aniversário onde eu podia encontrar e conversar com todos os meus tios e primos… ocasiões cheias de memórias que hoje parecem tão distantes da minha nova vida.

 5º mês: A sensação de que não me encaixo mais

Mudar de país tem me mudado tanto, de tantas formas, que tenho certeza de que nunca mais serei a mesma pessoa de antes. Você descobre novas paixões, novos gostos, até novos medos. Abandona convicções antigas e passa a acreditar em coisas novas.

Muita gente vai achar isso ótimo – e realmente é –, mas essa sensação de alienação com relação ao que antes fazia sentido poderá ser um choque. Pode ser que, ao conversar com pessoas que antes tinham tanto em comum com você, você perceba que hoje já não parece existir tantas semelhanças.

Pode ser que essas pessoas, inclusive, nem entrem mais em contato com você e acabem se esquecendo do laço que vocês tinham. Talvez você perceba que não se encaixa mais ao mundo em que vivia, talvez faça até mais sentido chamar de “lar” o novo país que você escolheu para viver.

6º mês: Aceitar e ser feliz

Acredito que a melhor forma de realizar uma autoanálise efetiva e honesta é dando um grande passo em sua vida, como por exemplo mudando-se de país.

Acostumar-se à nova cultura, recriar seu círculo de amigos, vencer barreiras de idioma e obstáculos na carreira profissional, compreender que estar longe da família não anula o sentimento de amor e, principalmente, aceitar-se são difíceis tarefas que mudam você para sempre.

Vencer essas dificuldades é uma batalha que somente você pode lutar, ninguém pode assumir esse papel. Hoje reflito sobre tudo que passei e concluo que cada obstáculo que venci me fez e continua fazendo uma pessoa melhor, muito mais madura. A aceitação finalmente chegou, conforme fui me livrando dos medos e me permitindo viver uma vida feliz onde escolhi estar.

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