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Profissões Pelo Mundo – Cientista na Finlândia

A entrevistada de hoje é a Vanina Heuser, paranaense criada no Rio Grande do Sul, doutora em Genética e Biologia Molecular e atualmente trabalhando com biomarcadores em melanoma e glioblastoma na Finlândia.

BPM – Como tem sido a sua trajetória profissional? 

Vanina – Eu fiz Licenciatura em Ciências Biológicas, depois Mestrado e Doutorado em Genética e Biologia Molecular, no Brasil. Trabalhei como professora num Universidade Particular por 2 anos. Pedi demissão, larguei tudo no Brasil, e vim trabalhar como pós-doutoranda na Suécia e depois na Finlândia.

BPM – Você fez faculdade ou algum outro curso específico na Finlândia?

Vanina – Nunca fiz curso na Finlândia. Participo de eventos, como conferências e seminários.

BPM – Como é a sua rotina? A que horas começa a trabalhar e qual é a sua carga horária?

Vanina – Eu moro perto do trabalho (3 km), portanto vou de bicicleta. Chego entre 8:30 e 9 horas e termino entre 16:30 e 17 horas. Sempre depende do que tem pra fazer no dia, porque quando se trabalha com experimentos a rotina nunca é igual. Meu contrato de trabalho (especificamente) diz que tenho que trabalhar 8 horas por dia (contando 35 minutos de almoço), totalizando 1.600 horas por ano. Eu sou responsável por anotar horas extras ou não cumpridas, ou horas duplas se for no final de semana. O detalhe é que ninguém vai confirmar nada. Depois de trabalhadas as 1.600 horas, o resto dos dias é pra férias. O resultado é que a gente acaba trabalhando mais do que deveria, mas isso porque trabalhar com pesquisa é divertido. A universidade tem a politica de permitir que se trabalhe em casa também, e tudo é mais flexível pra compensar os salários que geralmente não são altos.

BPM – Quais as diferenças na sua profissão, se houver, entre o Brasil e a Finlândia?

Vanina – No Brasil eu jamais poderia trabalhar com pesquisa sem ter que dar aula e ficar muito sobrecarregada. Esse foi meu motivo para sair de lá. Aqui a profissão de pesquisador é reconhecida, temos salário e sindicato. No Brasil quem quer fazer só pesquisa tem que se contentar com bolsa, livre de impostos e também sem direitos trabalhistas. Quando acaba a bolsa no Brasil, o pesquisador fica sem absolutamente nada. Aqui a gente paga o sindicato e, quando a bolsa acaba ou o contrato de trabalho que paga salário termina, o sindicato cobre o salário-desemprego pago pelo governo. Isso garante que por 500 dias úteis o pesquisador continue ganhando mensalmente quase o mesmo valor líquido de um salário, até arrumar outro emprego. Outro aspecto importante é que ter férias é considerado necessidade e não luxo.

 

BPM – Que cursos você recomendaria para as brasileiras que queiram ingressar na mesma profissão e seguirem carreira na Finlândia? 

Vanina – Eu diria que é mais fácil fazer mestrado e doutorado no Brasil, primeiro em função da língua. Depois, se o pesquisador tiver boas publicações, fica fácil conseguir uma vaga de pós-doc na Finlândia ou em qualquer lugar. As publicações é que contam. Aqui ninguém nunca me pediu pra ver os documentos do CV. Fazer doutorado também é uma opção, mas tem que se levar em conta que a exigência é alta e o conhecimento da língua inglesa tem que se bem avançado pra se escrever uma tese inteira. Biologia molecular, genética, informática, engenharia: pra qualquer dessas profissões tem vaga na área acadêmica e até na indústria, usando só inglês.

BPM – Qual a média de salários para uma pessoa iniciante e já no topo da carreira?

Vanina – Estudantes de doutorado recebem em torno de 1.972 euros brutos por mês, e esse valor vai subindo conforme o número de publicações, mérito, experiência e responsabilidades. Um professor (posição de professor e não docente, como são os professores no Brasil) recebe no máximo 9.993 euros, isso antes de descontado o imposto que deve ser altíssimo pra quem tem esse salário todo. Eu recebo a média da população: 3.311 euros brutos por mês; pago 29% de imposto e recebo líquido o valor de 2.350,00 euros. O imposto é alto, mas recebemos cada centavo de volta com os serviços do Estado, diferentemente do Brasil. Meu salário não é alto, mas dá pra viver relativamente bem.

BPM – Como é trabalhar em uma área científica, em outra língua, sendo mulher? Você sente alguma espécie de discriminação?

Vanina – No ambiente científico existe um predomínio de mulheres em todos os lugares. No meu grupo de pesquisa somos mais de 10 mulheres e dois homens, contando com o chefe. Nunca me senti discriminada por ser mulher, mas claro que por causa da língua, já me senti bem excluída em várias conversas e decisões. Centros de pesquisa são conhecidos por serem internacionais, a língua oficial é inglês, mas claro que os nativos querem falar uns com os outros na sua língua, não e difícil de entender. É um ambiente privilegiado, não acredito que sofreria discriminação se eu fosse negra, por exemplo. Mas fora daqui eu sei que o povo em geral é racista e um tanto preconceituoso com estrangeiros.

BPM – Qual seria o aspecto mais positivo e o negativo (se houver) de ser profissional na sua área, na Finlândia?

Vanina – Os aspectos positivos já foram listados acima. Os negativos são a instabilidade do trabalho por contratos de curta duração. Mas isso é assim no mundo todo, não é só aqui. E a língua, claro. Mesmo que se esteja num ambiente internacional, muita gente se recusa a falar inglês, ou não sabe. Finlandês é uma língua muito difícil, só fica atrás do chinês.

BPM – Você acha que teria as mesmas chances na carreira se estivesse no Brasil, ou o fato de estar na Finlândia lhe proporciona mais opções profissionais?

Vanina – Se eu tivesse ficado no Brasil agora eu estaria num emprego permanente, sendo infeliz dando aula, exausta, louca pra fazer pesquisa, mas sem tempo e nem recurso pra isso. Fiz a escolha certa, mesmo que não tenha certeza sobre meu futuro. O fato de se ter mais investimento em pesquisa aqui garante que algum tipo de contrato, apesar de temporário, sempre vai aparecer pra alguém que tem experiência na área. Então eu sei que sim, aqui eu tenho mais opções que no Brasil.

BPM – Como você concilia a vida de mãe e profissional em uma cultura diferente do Brasil, onde ajuda de fora é raro?

Vanina – A família faz muita falta. Não só pela ajuda, mas pela companhia, mesmo. Mas se tem uma coisa que eu aprendi morando fora do meu país e convivendo com gente de todos os lugares do mundo é que as pessoas são bem parecidas e têm as mesmas prioridades básicas. A cultura no final das contas não é tão diferente. Algumas pessoas acham que os finlandeses são fechados, desconfiados. Pode até ser, mas se você tem um cachorro ou uma criança, muitos vão conversar contigo na rua, por exemplo, então não são tão chatos assim. E se existem lados ruins da cultura, isso é compensado pela segurança, pelas baixas taxas de violência, boas escolas, bom sistema de saúde. Tudo isso me deixa tranquila enquanto passo o dia no trabalho e a minha filha está na escola. Sei que quando ela crescer e for adolescente vai me culpar por tê-la deixado longe da família. Por outro lado, se voltarmos ao Brasil, ela iria perder muitas oportunidades que teria tido aqui. Veremos. Minha filha tem 7 anos e é muito social, faz amizade muito fácil. Temos alguns amigos com os quais podemos contar se precisarmos. E o meu marido, talvez por estarmos sem o machismo imposto pelo sociedade brasileira, é um super pai que compensa a minha vida de profissional sempre ocupada.

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3 comentários

Patrícia G Maio 24, 2016 at 10:05 am

Bom dia Ann, descobri o site hoje, procurando informações para novamente sair do Brasil (morei na Inglaterra por 3 anos). Sou Fisioterapeuta formada e andei buscando países onde a burocracia para o registro do meu diploma não fosse tão grande, pois já tentei em UK mas nossos currículos são incompatíveis. Canada é onde todo brasileiro gostaria de ir, portanto…sem contar que apesar da minha experiência, já não tenho 20 aninhos… e o Canada quer gente jovem!
Pensei em países onde as pessoas talvez nem imaginem ir, e Finlândia já tinha despertado meu interesse pois tenho um amigo que passou algum tempo lá como professor de Jiu Jitsu.
Gostaria de saber se tenho como entrar em contato com a Vanina para maiores informações. Sei que ela não é Fisio mas é tbém da área da saúde e morando lá poderia talvez me dar algumas informações sobre essa minha “empreitada”. O Brasil cada dia está mais difícil não somente em morar, mas trabalhar.
Agradeço se puder fazer esse ‘link’ entre nós. Caso prefira por favor passe meu email a ela e veja se ela pode me mandar um email que retorno.

Parabéns pelo blog, fantástico!
Beijos
Pat

Resposta
Vanina Julho 26, 2017 at 10:39 am

Olá Pat,
So hoje vi que tinha esse comentario. Meu email: [email protected]

Vanina

Resposta
Evelyn Setembro 16, 2017 at 8:04 pm

Achei a entrevista muito instrutiva. Parabéns à
Vanina pela coragem e determinação. Sucesso!
Bjs
Evelyn

Resposta

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