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Espanha

Protestos na Catalunha

Llibertat Presos Politics.

Essa foi a frase mais ouvida aqui na Catalunha em outubro. Nas ruas, em cartazes nas janelas, em camisetas, em manifestações com crianças e até com o cachorrinho da família, enrolado na bandeira catalã. Esse mês toda a Catalunha se levantou em protestos.

O aeroporto de Barcelona, El Prat, se viu no olho do furacão no primeiro dia da manifestação, 14 de outubro, com mais de 100 voos cancelados e vários enfrentamentos da população com os mossos d’ esquadra, a polícia daqui.

Agora, imaginem a agonia dessa brasileira que vos fala, com a mãe de férias, tendo um voo programado para o Brasil no dia 16, vendo pela internet cenas do apocalipse político que se desenrolava no aeroporto e, olhando pela janela para a estação de trem, alguns carros de polícia bloqueando a porta para evitar a entrada dos manifestantes.

Mas afinal, porque a população da Catalunha protesta? Está realmente feio como vemos na internet e na TV ou é mais sensacionalismo, como já estamos acostumados?

Vemos homens, mulheres, crianças e até os mascotes pelas ruas (foto: www.unsplash.com).

Os Motivos da revolta

A Catalunha é uma das comunidades autônomas, na região nordeste da Espanha, com uma história distinta de mais de 1.000 anos.

Com cerca de 7,5 milhões de pessoas, eles têm sua própria língua, parlamento, bandeira e hino. Inclusive sua própria força policial.

A insatisfação e a revolta do povo catalão contra o governo espanhol não é de hoje. Lá no século XVI, na Guerra dos Segadores, entre 1640 e 1652,  contra o domínio hispânico do rei Felipe IV,  já víamos o desejo de independência. Inclusive o hino catalão foi derivado dessa guerra.

Mas como não sou professora de história e não quero acabar falando abobrinhas, vamos pular para uma época mais atual. Em 1º de outubro de 2017 foi realizado um referendo aqui na catalunha, onde mais de 2 milhões de catalães votaram, a favor ou contra a formação do Estado independente em forma de República.

Leia também: Protestos no Egito

O SIM venceu com 90% dos votos, mas apenas cerca de 43% da população participou da votação. No dia 27 de outubro de 2017 os separatistas proclamaram a independência Catalã no parlamento, e como presidente da República, Carles Puigdemon. O governo da Espanha respondeu aplicando o artigo 155, que levou a prisão dos líderes catalãs, fechamento do parlamento e convocatória de uma nova eleição regional.

Chegamos então aos motivos das revoltas atuais, que se iniciaram com o resultado das sentenças desses presos políticos, divulgadas em 14 de outubro e que somadas, chegam a 100 anos de prisão. E o povo saiu as ruas novamente, gritando: “Não é justiça, é vingança”.

Manifestação na praça principal de Tarragona em 18/10 (arquivo pessoal).

Protestos por todos os cantos?

Como já contei em outro post, moro em Tarragona, que fica a pouco mais de 100 km de Barcelona. O clima aqui e em toda Catalunha sempre foi de muito nacionalismo, mas desde o início dos protestos isso ficou ainda mais evidente. Pessoas roupas amarelas, bandeiras na janela ou um discreto broche enfeitando a camisa, além de passeatas ou manifestações na praça, quase diariamente.

Em Barcelona o assunto é um pouco mais delicado. O caos no aeroporto durou um dia inteiro e se estendeu pelas ruas da cidade ao longo da semana, principalmente durante a noite. Infelizmente, com episódios de violência.

Como em toda crise, o que mais vemos é conversa fiada. Recebemos mensagens que nos deixaram muito preocupados aqui, já que a internet pintava a situação como uma guerra.

No dia 16 de outubro, o voo de minha mãe sairia às 13:30h, mas as 5:55h já estávamos sentadinhas no trem, com medo dos rumores de cortarem as linhas férreas e de não conseguirmos chegar a tempo. Felizmente tudo correu bem.

O aeroporto estava cheio, vi até um policial com aqueles escudos da tropa de choque, sabem? Mas nada aconteceu. Na volta teve até parada em Barcelona, para comer um ramen digno do Japão. Passamos pela praça Urquinaona e Via Laietana, que foram centros de protestos, mas estava tudo em paz, e fora a polícia pelas ruas, não havia nada digno de nota.

Leia também: Quem está fora pode opinar sobre seu país?

Em Girona as linhas de trem foram cortadas e ficaram interrompidas durante um dia, até sua restauração. Os protestos acontecem em diversos lugares, mas os holofotes se concentraram (e concentram) em Barcelona.

Da Catalunha para o mundo, saindo nos jornais de todo o planeta (foto: www.unsplash.com).

Maniferstar-se, direito do cidadão

Por mais que não tenhamos visto nada, não quer dizer que está tão calmo assim. Durante as noites os enfrentamentos com a polícia são intensos. Há bagunça e vandalismo por meio de alguns poucos grupos. Mas também há repressão policial, por meio de outras minorias.

Nas notícias há contenedores de lixo em chamas, carros em cinzas, lojas depredadas e violência gratuita. Até aqui em Tarragona, pequena como é, teve fogo pela rua uma noite dessas. E sirenes para todos os lados.

Mas o que não dá tanto ibope são as caminhadas pacíficas. A beleza de ver um povo lutando por seus ideais. Caminhadas que tomam toda uma rodovia, até chegar em Barcelona. Eu vi inclusive uma menininha de uns 3 anos na manifestação, nos ombros do pai, com um tapa olho pintado com a bandeira da Catalunha, toda orgulhosa de si.

Manifestações são um direito e mostram os desejos do povo. Manter a nação única, sempre vai ser a intenção do Estado. Não sei como tudo vai acabar, se a tão sonhada independência um dia será realidade, ou nem mesmo se seria boa ou não. Isso são outros quinhentos e outras discussões.

Revoltas em Hong Kong, protestos na América do Sul, Chile nas notícias. Espanha a flor da pele. As pessoas mais conscientes. Até em São Paulo teve passeata pela Catalunha. O mundo agora é um só meus amigos. E se na parte de cá mudar alguma coisa com os protestos, volto aqui para contar.

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