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Quando um trabalha fora e o outro não. Mantendo a autoestima em 5 passos

Quando um trabalha fora e o outro não. Mantendo a autoestima em 5 passos.

Esse pode ser um dos momentos mais duros na vida de quem acompanha o cônjuge que foi expatriado pela empresa: dizer adeus ao seu trabalho e imaginar sua carreira congelando. Há quem até sinta uma rajada de felicidade, pensando que finalmente não precisará ficar horas preparando apresentações em PowerPoint; que poderá acordar quando quiser e não fazer malabarismos com a agenda para acomodar o médico do filho e a reunião com o board da empresa.

E, realmente, durante os primeiros meses de transição, há muitas chances da agenda continuar apertada: levantamento de documentos, reuniões nos órgãos do governo, entender “onde-se-compra-o-quê”, visitar médicos e escolas, aprender a transitar pela cidade, etc. Nessa correria, nem é possível sentir falta da antiga rotina de trabalho.

Ainda hoje a grande maioria de expatriados profissionais é de homens. Segundo pesquisa de 2016, feita pela Brookfield, apenas 25% das expatriações de trabalho são de mulheres. Assim, somos nós que geralmente colocamos uma pausa em nossas carreiras ao acompanhar o cônjuge rumo à expatriação.

Para algumas, isso não é problema. Dar um tempo na carreira que antes seguia uma linha razoavelmente previsível traz a oportunidade de se repensar necessidades, vontades, projetos de vida. É como se o Universo estivesse nos falando: “pare o que está fazendo e repense sua vida!” Um chamado desses não é para ser ignorado.

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No entanto, para pessoas que se identificam bastante com seu trabalho, esse “intervalo” pode ser assustador. No Eneagrama – estudo de personalidade onde identificamos nossos padrões de pensar, sentir e agir – há um tipo de personalidade que particularmente tem um apego profundo ao trabalho e, mais ainda, ao reconhecimento que ele lhe traz: o tipo comumente chamado de “Performance”. Para essas mulheres, estar fora da atividade que lhes dá sua identidade e não mais poder manter sua imagem de sucesso é doloroso e difícil de aceitar qualquer outro tipo de ocupação.

Mas, e quando estamos momentaneamente impedidas de exercer nossa atividade no mercado de trabalho? Quando, por exemplo, o novo país requer a validação do diploma que tão arduamente conseguimos, e isso é um processo lento e que, muitas vezes, demanda uma volta ao banco da universidade para ver tudo aquilo que a gente já conhece? Dá um cansaço só de pensar em iniciar essa jornada, não é?

Nessas horas, a gente sente um vazio muito grande, que piora quando olhamos para o lado e vemos nosso cônjuge em seu quotidiano de trabalho. É comum nos sentirmos inferiorizadas. Quem já leu um artigo antigo meu, contando sobre os primeiros meses de expatriação, se lembrará da minha história. Meu marido chegava cansado do trabalho, contando sobre reuniões infindáveis e discussões altamente estratégicas, e me perguntava como tinha sido meu dia. Em milésimos de segundo rodavam cenários em minha mente: vale a pena dizer que fui ao museu, lavei roupa, estudei italiano e fui tomar café com uma amiga ou simplesmente digo que foi tudo bem e pergunto o que ele quer jantar? Nessa época eu já tinha meu trabalho em coaching. Mas, como não ocupava todo o tempo com ele, eu mesma não me achava mais à altura do trabalho do meu marido e, de certa forma, não achava justo passar algumas tardes conhecendo a cidade ou arrumando a casa enquanto ele era o “grande provedor do lar”. Ah! Então estava aí a questão! No meu caso, o que me incomodava era não contribuir para as finanças da casa.

Esse incômodo durou algumas semanas, até que eu o chamei para conversar sobre como me sentia. Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito! De cara, ele me perguntou se eu queria desistir da expatriação e voltar para o Brasil, o que eu recusei sem pestanejar. Em seguida, ele falou algo que mudou para sempre minha visão sobre o que acontecia: “se você está feliz com essa nossa nova vida e topa ir se ajustando aos poucos, isso é menos uma preocupação para mim e me deixa bem. E, se você quiser e se sentir melhor, um dia a gente inverte os papéis, que tal? Você passa a ser a pessoa a trazer mais recursos para dentro de casa, enquanto eu me ocupo da limpeza e tenho mais tempo livre. O que acha?” Essa imagem de flexibilidade entre nós e a noção de que o bem-estar dele também dependia do meu me trouxe a paz de que eu precisava para aceitar a nova vida do jeito que ela estava chegando. E vi que, realmente, aos poucos tudo foi se encaixando perfeitamente.

Foto: Pixabay.com – Explore suas possibilidades!

Ao longo do tempo, com o meu trabalho de coaching de acompanhamento de expatriados e cônjuges, fui conhecendo casos semelhantes e identificando, com a ajuda das minhas coachees, cinco aspectos que amenizam o desconforto de se sentir menos importante que seu cônjuge, e aos poucos voltar a se sentir empodeirada e dona dos próprios passos:

Aceitar a situação

Ao identificar claramente os fatos e dados da situação, você ganha mais serenidade. Por exemplo, há países onde o cônjuge simplesmente não tem direito de trabalhar. Então, não adianta gastar seu tempo se lamentando. Isso é um fato e ponto. Se a questão é a validação do diploma, é importante levantar todas as etapas necessárias para isso, conversar com profissionais que fizeram o percurso e fazer uma avaliação criteriosa sobre o que decidir fazer. E, se ficar claro que será impossível seguir com a carreira, vale a pena conversar com o cônjuge sobre os prazos de se ficar naquele país.

Ressignificar o conceito de trabalho

Muitas vezes, mulheres que sempre trabalharam fora de casa costumam considerar “trabalho” só aquilo que faz parte de uma carreira. Mas, na verdade, tudo aquilo que gera energia e que produz algo (mesmo que imaterial), é trabalho. Quando nos ocupamos de algo e damos valor ao resultado que aquilo produz, o sentimento de utilidade aparece e nos preenche de forma completa. E isso é uma “bola de neve” positiva: nosso trabalho nos dá energia e essa energia nos dá vontade de produzir mais.

Fazer um inventário de atividades

Usando o conceito acima de trabalho, qual atividade produtiva se encaixa melhor ao seu perfil, seus valores e suas necessidades: voluntariado, estudos, planejamento de projetos futuros (pessoais ou de família), tarefas de limpeza e organização do lar? Atividades de integração na comunidade ou qualquer outra coisa do gênero? Quando paramos para avaliar, as opções podem ser realmente variadas.

Identificar o que se passa dentro e…..conversar!

Procure identificar o que você está realmente sentindo e quais são os modelos mentais que ocupam seu modo de pensar. Uma vez com isso claro, procure conversar honestamente com seu cônjuge e sua família. É importante que eles saibam como você está sentindo, e o que você gostaria que eles fizessem. Comunicação, nessas horas, é fundamental, além de geralmente trazer um grande alívio e suporte.

Reconhecer-se

Você é amada por quem você é, não pelo que faz. Não vou falar muito sobre porque não precisa. Apenas SINTA!

Os passos, acima, não são uma fórmula rígida, e você pode e deve criar os seus. O importante é refletir sobre como está se sentindo e ativamente buscar uma nova realidade. Bom trabalho!

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2 comentários

Ágatha Setembro 5, 2018 at 1:17 am

Ótimo texto! É bem isso mesmo! Foi enriquecedor ler!

Resposta
Stela d'Escragnolle Klein Setembro 5, 2018 at 2:42 pm

Muito obrigada pelo seu comentário, Ágatha. Fico feliz pela leitura ter sido útil. Boa semana para ti!

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