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A Mulher na Sociedade Pelo Mundo Armênia

Quem é a mulher armênia?

No meu post anterior aqui no Brasileiras pelo Mundo, falei brevemente sobre o comportamento mais conservador dos armênios e armênias médios, que se vestem de maneira bem tradicional, e introduzi um pouco do meu olhar sobre a mulher armênia, que usa cabelos bem penteados, armados, cheios de fixador. E é sobre a mulher armênia que quero falar um pouco mais no texto de hoje.

A mulher armênia é muito vaidosa, e não descuida da sua aparência. A maquiagem é bem característica, mesmo nas mais jovens, que marcam bem seus olhos com lápis preto. Os cabelos são sempre muito bem penteados: as mais velhas gostam de armá-los e usar fixador, enquanto as mais jovens cultivam longas madeixas, em geral bem lisas e negras. É raro ver uma mulher armênia jovem de cabelos curtos, mas noto que aquelas que têm maior curiosidade relacionada a outras culturas, acabam adotando cortes de cabelos mais modernos. É raro ver uma mulher armênia fumando, enquanto os homens armênios parecem verdadeiras chaminés.

A comemoração do Dia Internacional da Mulher é coisa séria na Armênia: todas as mulheres são presenteadas com flores, há muita festa pelas ruas de Ierevan, e os restaurantes oferecem cardápios especiais para a data.

A mulher armênia estuda e/ou trabalha fora, mas o seu principal papel é cuidar da família: cuida e administra a casa, cozinha, arruma e organiza tudo para que seu marido, seus filhos e suas filhas tenham conforto. A mulher armênia vive numa sociedade conservadora, em que o machismo é evidente e muito enraizado na cultura armênia (e não digo só deste país porque os armênios da diáspora também retroalimentam este aspecto cultural). As mulheres armênias estão tão acostumadas a este sistema que nem mesmo se dão conta disso: a mulher armênia gosta do papel que lhe foi delegado na sociedade.

O machismo na Armênia protege a mulher: não há nenhum problema em andar sozinha seja a qualquer hora do dia ou da noite, ou mesmo tomar táxi sozinha (o que é um medo constante na vida da mulher residente no Brasil, por exemplo); os homens sempre dão a preferência para que as mulheres usem os elevadores (nenhum homem entra ou sai de um elevador antes das mulheres); os agentes de trânsito tratam as mulheres que estão ao volante com uma abordagem diferente daquela adotada no trato com os homens (já ouvi histórias de condutoras que, simplesmente, não foram multadas por serem mulheres, sendo apenas advertidas verbalmente); no inverno, os homens sempre ajudam as mulheres a vestirem seus casacos; nos restaurantes, é comum ver os homens fazendo os pedidos em nome das suas mulheres, e os garçons costumam se dirigir primeiramente aos homens da mesa; os homens não dirigem a palavra às mulheres que não conhecem ou, mesmo em casos em que são conhecidos, não as cumprimentam sem antes primeiro falar com o marido/pai delas. Os sobrenomes armênios são sempre uma referência ao nome do pai: a terminação IAN (como, por exemplo, Kardashian) significa “filho de”, sempre a partir do nome paterno. Quando as mulheres armênias se casam, podem escolher entre manter este sobrenome ou adotar o sobrenome do marido.

Leia também: custo de vida na Armênia

Recentemente, comecei a cultivar uma amizade com um jovem casal armênio: ela tem 23 anos, ele tem 26, e estão casados há menos de um ano. É claro que, quando estamos todos reunidos, fica difícil não observar como se dá o relacionamento. Eles são claramente muito apaixonados um pelo outro, e isso é sempre bonito de se ver. Ela já está grávida, e já pensa como vai administrar o fim dos seus estudos na universidade com o nascimento do bebê, previsto para agosto. Ele é um homem de negócios. Outro dia saímos para almoçar juntos num “double date” e ele recebeu um monte de ligações sobre o trabalho, mesmo sendo sábado, precisando se ausentar da mesa. A comida chegou, esfriou, e ela não comeu enquanto ele não voltou definitivamente para a mesa. Ela também já me contou, com a maior naturalidade, que é impossível continuar dormindo uma vez que o marido acorda, já que ele pede sempre que ela providencie o café da manhã.

Há um ano, quando cheguei na Armênia e estávamos procurando apartamento, foi preciso que o meu marido dissesse, claramente, para o corretor de imóveis, que eu podia ver os apartamentos sozinha e que tinha plenos poderes para decidir qual deles seria a nossa nova casa. O comentário foi necessário para que ele passasse a me tratar sem diferenças. O interessante é que este corretor de imóveis morou por muitos anos nos EUA e, mesmo assim, suas raízes culturais armênias falam mais alto.

Todos os armênios têm muita facilidade para aprender novos idiomas, mas são as mulheres armênias que, em geral, melhor desenvolvem esta habilidade. É muito mais comum que uma mulher armênia fale inglês e/ou outros idiomas do que os homens. Nas Embaixadas e Consulados instalados em Ierevan, nota-se que a grande maioria dos contratados locais é do sexo feminino, justamente por esta maior desenvoltura no conhecimento de outras línguas.

Desde que cheguei à Armênia, passei a me sentir cada dia mais feminista: não acho que isto se dê como um traço rebelde. Notando o machismo tão enraizado nesta cultura em que estou temporariamente inserida, é difícil não analisar o que estou testemunhando e perceber que minhas ideologias me colocam do outro lado. Observar uma sociedade cristã com características tão conservadoras é absolutamente fascinante do ponto de vista antropológico, e me fascina ver que a média das mulheres da sociedade armênia não fazem a menor ideia do machismo a que estão sendo sujeitadas. Enquanto o machismo armênio me protege no meu dia a dia em Ierevan, eu continuarei analisando-o.

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5 comentários

Caily Novembro 8, 2018 at 10:46 pm

Eu sou de Belo Horizonte Minas Gerais,muito legal seus textos,vivi na Armenia Ierevan de 2015 a 2016 . Foi a primeira vez que morei fora,achei uma experiência incrível,não falava nem o inglês haha . Mas irei levar esse lugar tão diferente para a vida toda 😊

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Luana Janeiro 31, 2019 at 2:05 am

Muito bacana o conteúdo de uma cultura tão distante e diferente do Brasil. Poderia falar em um post, sobre como são os homens armênios.

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Leticia Tostes Ortega Fevereiro 5, 2019 at 5:19 am

Oi Luana! Obrigada pelo seu comentário.
Não sei se teria o suficiente a dizer sobre os homens armênios num post, mas vou pensar na sua sugestão!

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Ina de Oliveira Junho 24, 2019 at 5:11 pm

Oi,
Gostei do seu texto, mas no caso de muitos países europeus é preciso ter muito cuidado com o que alguém de fora da história e cultura europeias considera machismo. Principalmente brasileiros, já que não vivemos em nenhum momento por contextos de guerras como é o caso do continente europeu e outros.
É preciso lembrar que todos esses cuidados com as mulheres que você citou no texto existem como forma de quase culto às mulheres em alguns países da Europa Oriental, pois em alguns deles os homens foram literalmente exterminados durante a Segunda Guerra Mundial e realmente só sobrou mulheres e pouquíssimos velhos e crianças. Foram elas que estiveram ocupando o país durante a guerra e trabalhando como podiam e todos sabem a fome que a maioria passava. E foram elas as únicas que estavam para reerguer estes países quando terminada a guerra. Há muitos relatos dos poucos prisioneiros e sobreviventes de guerra homens que voltaram que atestam o quanto eram bem recebidos e extremamente cuidados já que homens era uma espécie rara na região. E com a crianção da URSS e ocupação soviética o panorama não melhorou muito.
Daí termos os dois aspectos que você mencionou: 1. em alguns países os homens que voltaram passaram praticamente a colocar as mulheres num pedestal porque se estes países existem foi só por causa delas que, sozinhas, durante a guerra, mantiveram as tradições e o país. 2. em todos estes países os homens passaram a ser extremamente cuidados porque eram praticamente inexistente depois da guerra.
Dessa perspectiva não existe a nossa ideia de machismo dado que respeitam a importância delas em sua história. Porém, por causa da extrema importância que elas deram a eles (e dentro do contexto é entendível e esperado) estes ficaram com um papel de importância gigantesco e é sobre ele que eles mantém esse lado mais machista. Este tipo de crítica com os países da Europa Oriental precisa ser muito bem analisada antes de ser trazida à tona porque a nossa história, como brasileiras, está há anos luz da deles. E cultura é algo por demais complexo.

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Leticia Tostes Ortega Junho 25, 2019 at 7:14 am

Oi Ina!
Agradeço seu comentário repleto de colocações pertinentes, próprias de uma historiadora de formação sólida.
Todos os meus textos aqui no BPM sobre a vida na Armênia foram escritos de uma perspectiva muito subjetiva e particular, sempre reconhecendo que, infelizmente, eu passei 2 anos e 5 meses aqui vivendo numa “bolha”, pois minha realidade em Yerevan é muito diferente da realidade de um armênio médio – e ainda mais diferente se pensarmos num armênio médio de fora da capital.
Sempre busquei transmitir o respeito que tenho pelos armênios e pela cultura armênia, enaltecendo principalmente a culinária local, que eu amo e a qual dediquei 2 posts. Este país acolheu muito bem a mim e ao meu marido, e nossa experiência aqui foi muito positiva, apesar de termos enfrentado várias questões incômodas (nenhum lugar é perfeito).
Quando me foi pedido para escrever para o BPM sobre a mulher armênia e o seu papel na sociedade, eu relutei muito, pois, como você mesma disse, cultura é algo por demais complexo, e, embora eu não seja historiadora, eu já conseguia reconhecer no machismo armênio traços históricos, como estes que você citou, com um conservadorismo muito enraizado na cultura local.
Hoje, mais de um ano depois de ter escrito este texto, posso reafirmar que a Armênia continua um país absolutamente conservador, com uma crescente rejeição à imigrantes e homossexuais, e que os armênios (homens e mulheres) não conseguem identificar que suas atitudes são machistas.
Fato é que meu tempo aqui vai chegando ao fim e com certeza vou sentir falta desse país, porque, entre tantas coisas, o machismo que tanto me incomoda também me dá a certeza de que posso andar na rua sozinha a hora que eu quiser, sem precisar me preocupar com riscos que, infelizmente, nós mulheres corremos no mundo inteiro.

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