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Finlândia Mulheres que fizeram história pelo mundo

A ascensão das mulheres na política finlandesa

Em respeito e admiração ao mês internacional dos direitos da mulher, compartilho com vocês este panorama sobre a ascensão das mulheres na política finlandesa. Deixo claro, no entanto, que é impossível fazer uma abordagem histórica de alto-nível em apenas um post, por isso, não abordarei particularidades e entrelinhas neste artigo. Peço a meus leitores que não encarem o texto como uma aula de história, mas sim como um panorama bem geral, que permite entender o contexto da evolução da igualdade de gêneros na política finlandesa.

As mulheres passaram a ter direitos políticos na Finlândia a partir de um decreto datado de 1906 em que o Parlamento da Finlândia, após uma reforma de sufrágio, dentre outros direitos a outras camadas da população, garantiu às mulheres não somente o direito ao voto, mas também o de candidatarem-se a eleições. As 19 parlamentares finlandesas eleitas em 1907 foram as primeiras mulheres parlamentares do mundo.

Um breve pano de fundo histórico

Nesta época, a Finlândia ainda não era um país independente, mas um Grão-Ducado Autônomo da Rússia (1809-1917).

A partir de 1881, a Rússia intensificou o processo de russificação da Finlândia, dando início a uma série de medidas que feriam a autonomia finlandesa. Esta é uma parte importantíssima da história que merece pesquisa e leitura, pois dará uma excelente ideia sobre o fortalecimento dos movimentos nacionalistas e de independência da Finlândia (leia mais em inglês aqui).

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Algumas medidas de russificação:

  • instituir que russos poderiam ser servidores públicos na Finlândia e membros do governo local, fazendo da língua russa o idioma administrativo da Finlândia;
  • acabar com a autonomia legislativa finlandesa, decretando que a lei russa seria a lei da Finlândia;
  • dissolução do exército finlandês;
  • dissolução da constituição finlandesa etc.

Num espaço de tempo de mais ou menos 25 anos, diversas outras medidas para russificar a Finlândia foram tomadas e, obviamente, geraram revolta nos finlandeses, fortalecendo os movimentos nacionalistas, dando início a uma série de ações contra o império.

O Império Russo também passava por um momento controverso, principalmente a partir da virada para o século 20. Este período teve seu primeiro ápice em 1905, quando a Rússia foi derrotada pelo Japão na Guerra Russo-Japonesa. Uma série de revoltas e greves gerais começaram a acontecer por conta da insatisfação da população russa e, aproveitando-se do momento, a Finlândia começou a fazer o mesmo. Em outubro de 1905, em protesto contra as medidas repressoras da Rússia contra a autonomia finlandesa, foi declarada greve geral no país.

Por conta do momento político complexo foi estratégia russa não alimentar a possibilidade de uma revolução na Finlândia, principalmente pelo fato de que a parcela da população local pró-Rússia era muito pequena.

Para o fim da greve e da ameaça de uma revolução, os finlandeses exigiram uma reforma parlamentar e a garantia de sufrágio universal, incluindo neste o direito das mulheres a votarem e a candidatarem-se a cargos políticos. O Tsar russo aceitou as reivindicações finlandesas assinando o chamado Manifesto de Novembro (leia mais em inglês aqui).

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Em comparação com outras sociedades da época, as mulheres finlandesas sempre tiveram uma participação social mais ativa (mesmo que longe da ideal), principalmente pelo fato deste ter sido um país pobre, que sempre precisou da força laboral feminina. Muitas mulheres tinham consciência de sua importância e uma forma de se imporem era através da criação de associações. Ao longo dos anos, estes grupos se conectaram a associações e sindicatos que lutavam pelos direitos dos trabalhadores e suas reivindicações por melhoras nos direitos das mulheres começaram a fazer parte das reivindicações destes sindicatos também. Esta foi uma das razões pela qual o direito político às mulheres fez parte das exigências para a reforma de sufrágio.

Recomendo a leitura de meu artigo A igualdade de gêneros na sociedade, onde falo um pouco mais sobre este assunto e também indico links que possibilitam mais conhecimento aos interessados.

Minna Canth: a grande inspiradora

Foto: Minna Canth, domínio público.

Falar sobre as pioneiras da igualdade de gênero e não mencionar a escritora e ativista social Minna Canth (1844 – 1897) seria imperdoável. Infelizmente, Minna não viveu para ver as conquitas da virada do século mas, certamente, inspirou grande parte das mulheres que lutou por seus direitos na ápoca.

Minna atuou ao lado do marido como jornalista, escrevendo no formato de contos, histórias que reivindicavam os direitos das mulheres. Seu marido no entanto faleceu, deixando-a viúva e reponsável pelo sustento de seus 7 filhos. Ela escreveu diversos contos e peças e, em 1885, Työmiehen Vaimo (em tradução livre: A Esposa do Trabalhor), causou enorme furor na sociedade.  A história retratava a vida de Johanna, cujo marido alcoólatra, além de a maltratar, gastava todo o dinheiro de seu dote. A peça era uma crítica a falta de autonomia das mulheres a seus próprios bens e o resultado do alvoroço foi tão positivo, que o parlamento criou, alguns meses depois da estréia da peça, a Lei de Separação de Bens no Matrimônio (leia mais aqui).

Parlamentares de destaque dentre as primeiras eleitas

Conforme mencionei anteriormente, 19 mulheres foram eleitas para ocupar cadeiras no Parlamento finlandês em 1907. Todas merecem reconhecimento por sua luta e pioneirismo. O Ministério das Relações Exteriores da Finlândia, destaca as seguintes:

Lucina Hagman (1853 – 1946): professora e primeira presidente da Unioni, The League of Finnish Feminists (em tradução livre: Aliança das Feministas Finlandesas), fundada em 1892. Hagman também foi uma das fundadoras da União das Mulheres Finlandesas, em 1907. Durante seu mandato, lutou pelo aumento da igualdade, para que mulheres pudessem ocupar cargos de estado, pela reforma da legislação matrimonial e desenvolveu projetos para melhorar as condições das crianças.

Aleksandra Gripenberg (1857 – 1913): escritora e editora, uma ativista social reconhecida, Gripenberg é considerada uma das grandes líderes do movimento pelos direitos da mulheres na virada do século 20 na Finlândia. Ela foi a fundadora da primeira organização finlandesa em prol dos direitos das mulheres, chamada Suomen Naisyhdystys (Associação das Mulheres Finlandesas), em 1824.

Hilja Pärssinen (1876 – 1935): professora, escritora e jornalista, uma das líderes do Movimento Social Democrata Feminino. No parlamento lutou por igualdade, pela melhora nas condições das mães solteiras/viúvas e pela reforma da legislação matrimonial.

Saiba mais sobre a reforma de sufrágio da Finlândia e conheça as 19 primeiras mulheres parlamentares do mundo aqui.

Independência da Finlândia e ascensão feminina

Mais uma vez tendo como vantagem o enfraquecimento da Rússia, que em março de 1917, quando devido a uma série de consequências geradas pela Revolução Russa de Fevereiro, o Tsar foi obrigado a abdicar, a Finlândia finalmente conseguiu proclamar sua Independência. 6 de dezembro é o dia oficial em que o país celebra a importante data.

A primeira eleição da Finlândia independente aconteceu em 1919 e o número de eleitoras mulheres (65,1%) foi muito equilibrado se comparado ao número de homens (69,5%).

Até a Segunda Guerra Mundial era comum haver somente uma candidata por distrito eleitoral. É fato também que o número de mulheres interessadas na vida política não era grande: muitas ainda acreditavam que seu lugar era em casa, cuidando da família.

O interesse das mulheres na vida política começou a crescer de verdade após a Segunda Guerra Mundial e, daí por diante, elas passaram a se fazer presentes de maneira magistral na política do país. O número de mulheres no parlamento  aumentou de maneira tão significativa nos últimos 100 anos, que hoje em dia elas compõe cerca de 43% do parlamento finlandês.

Desde 1926 mulheres são eleitas em cada pleito para posições extremamente importantes. Neste link você encontra a história das mulheres no parlamento e uma lista das primeiras a ocuparem posição de destaque no governo (inclusive presidente e primeira-ministra), de 1926 a 2014.

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1 comentário

Monica Paraiso Berge Abril 1, 2018 at 4:12 am

Parabens pelo texto, Maila!! Adorei conhecer Minna.
Um trabalho de pesquisa excelente!

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