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Reflexão depois da volta ao Brasil

Reflexão depois da volta ao Brasil.

Em novembro de 2019 completo 10 anos vivendo na Finlândia. Que amo este país e que me sinto parte dele é fato. Conquistei aqui tantas coisas, que sinceramente, pensando em como era a minha vida de professora e musicista no Brasil, não acredito que teria a qualidade de vida que tenho aqui se tivesse ficado lá. Não tenho vontade de morar no Brasil de novo e sempre enchi o peito dizendo que nem saudades sentia. Nestes 10 anos, só fui ao Brasil 3 vezes e sempre relutei em ir. Foi assim até esta última vez, 4 anos depois.

Passar 4 anos sem ver as pessoas que ajudaram a construir o meu eu, sem ver o mar e sentir a areia e o cheiro da maresia que me ajudaram a tomar as maiores decisões de minha vida, inclusive a de partir, sem tomar cerveja de garrafa no boteco pé sujo, sem churrasco na casa dos amigos, sem o sorriso, o abraço e o acolhimento sem igual dos meus melhores amigos foi tempo demais. Depois de 10 anos fora e 4 sem ir lá, posso dizer que fiquei “homesick”.

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Decidi fazer a viagem sem planejamento prévio. Em pleno março, entrei por desencargo na página Skyscanner, minha favorita para buscar ofertas de passagens, e não acreditei em meus olhos. A companhia Norwegian International estava lançando o voo para o Brasil e o preço das passagens estava exatamente 50% do valor normal. Foi um daqueles momentos em que agimos impulsivamente sem consultar nem mesmo a nossa própria razão. Comprei a passagem e pronto, para mim e meu filho.

Até a véspera da viagem eu estava empolgada para ver as pessoas, mas não estava muito empolgada por ter que ir ao Brasil. Mal sabia eu que essa história teria uma reviravolta tremenda…

Fiquei lá por 5 semanas e digo: me arrependo demais por não ter ficado mais. Demais mesmo.

Me senti resgatando algo perdido. Talvez pelo fato de estar saindo de uma crise de depressão bem séria, sobre a qual escrevi aqui e aqui, rever meus amigos, estar com meus pais e meu irmão, conhecer a cunhada que não conhecia, o churrasco, a cerveja de garrafa no boteco, a praia, nossa, me impactou demais.

Voltar ao Brasil com meu filho e rever a minha praia. Arquivo pessoal.

No exato momento em que escrevo esse texto, voltei para a Finlândia há 3 dias e me sinto como uma Dorothy bipolar: “Não há lugar como o nosso lar.”, mas onde é o meu lar?

É estranho para mim me sentir assim. Que o Brasil não é o meu lar é uma certeza que eu já possuía antes mesmo de ir embora de vez, mas essas 5 semanas foram tão intensas, me deram tanta coisa, que tudo o que eu queria era poder estar lá ainda.

Esse sentimento me fez refletir muito sobre minha vida na Finlândia: estável, com uma ótima qualidade, cheia de aspectos positivos no que diz respeito à perspectiva de futuro profissional, mas de fato, mais fria, menos acolhedora, sem muitos abraços ou sorrisos, com menos gente para contar, com muito pouca gente em volta, infinitamente mais solitária.

Pois é, é impossível ter tudo. Correr atrás de nossos sonhos vem junto com renúncias, vem junto com saudade. Somos humanos, eternamente insatisfeitos porque como seres imperfeitos, nada nunca atingirá a perfeição. Cabe a nós escolher o que é prioridade, o que é melhor. Ainda acho que o melhor é estar aqui, não moraria de novo no Brasil, pois apesar de ser o lugar onde meu coração e minhas emoções trabalham juntos (só me conscientizei disso agora), lá não tenho segurança e, fazendo o que gosto, jamais teria a mesma qualidade de vida que tenho aqui, jamais poderia dar ao meu filho o que ele tem aqui.

Leia também: Pontos a considerar antes de imigrar para a Finlândia

O que posso fazer para equilibrar meus sentimentos é não passar mais tanto tempo sem ir, parar de renegar o país onde nasci e aceitar que metade do meu coração é de lá, coisas que até agora eu me recusava a fazer.

Esta ida ao Brasil me ensinou que a Maila brasileira não precisa gostar de samba ou carnaval, ela pode sim, continuar a odiar futebol, pode continuar amando heavy metal e ter maior identificação com a Finlândia em diversos aspectos. A Maila brasileira pode amar seus dois países e aceitar-se como parte e fruto de ambos, não precisa amar mais a um do que a outro. A Maila brasileira e a Maila finlandesa são uma pessoa só e, por isso, precisa destes dois países para ser feliz.

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1 comentário

Maria Outubro 13, 2019 at 3:36 pm

Maila, obrigada pelo lindo texto. Me identifiquei profundamente com ele.
Obrigada por abordar o tema da depressão em seu outro texto, me deu esperanças.

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