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Quando a depressão ataca e você precisa de ajuda

Quando a depressão ataca e você precisa de ajuda.

Hoje vou bater um papo sério com você, um papo sobre ter depressão e de como estamos mais suscetíveis a ela quando moramos fora.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (World Health Organization), cerca de 300 milhões de pessoas pelo mundo sofrem de depressão; um número alarmante não é mesmo?

Bullying na infância

A depressão é uma velha conhecida minha. Enquanto morei no Brasil não saberia mensurar por quantos anos estive doente. Hoje, depois de ter passado por tratamento e, por conta disso, me interessar em ler muito sobre o assunto, acho que minha depressão começou quando eu tinha 8 anos de idade, em consequência do bullying que sofri nas escolas onde estudei.

Apanhava de dois meninos quase que diariamente e eu tinha somente 4 anos. Mudei de escola e lá, além de ter que aturar mais um menino que me perseguia para me bater, eu era constantemente humilhada por causa das roupas estilo “princesa” e “boneca” que me vestiam. Sem querer culpar minha família, pois eles não sabiam a proporção do bullying, eu nunca contei. Por muitos anos tive apelidos como “garota jeca”, “cafona” e por aí vai…

Stephen King mudou minha vida

Assisti a um filme chamado “Carrie, a Estranha”, que conta a história de uma menina paranormal que também sofre bullying na escola, quando eu tinha 10 anos. Carrie passa por todo tipo de humilhação até que, no baile de formatura, depois de sofrer a pior de todas, vinga-se de todos usando seus poderes. Este filme foi um divisor de águas em minha vida.

Apesar de não ter os poderes de Carrie, acho que consegui de alguma forma incorporar seu olhar nos momentos de raiva e, por incrível que pareça, funcionou. Quando vinham me provocar, eu olhava bem no fundo dos olhos e ia andando na direção da pessoa, bem de vagar. Acredita que ficaram com medo? Isso até rendeu um apelido com meu segundo nome: “Kaarina, a estranha.” Devo confessar que amei quando ouvi isso, senti que eu tinha algum poder.

Mas é fato que muito estrago já havia sido feito e a vida que seguiu foi de altos e baixos com uma depressão que nem eu sabia que tinha, até os 26 anos de idade, quando em consequência de um burnout comecei a me tratar.

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Ao longo de minha vida também fiz grandes amizades, estou naquele grupo seleto de habitantes da Terra que podem dizer ter mais 5 amigos de verdade. Sou grata por isso, muito grata, pois ser capaz de fazer amigos foi crucial para que eu não tivesse me isolado por completo.

Foto: cena do filme Carrie, dirigido por Brian de Palma, escrito por Stephen King (1976)

Mas voltando a depressão, por que escrevi tudo isso?

Porque tenho certeza de que grande parte das pessoas que me conhece jamais me viu como alguém que sofra de depressão, jamais imaginou que eu sequer tenha passado por essas coisas na minha infância. Acho que nem mesmo meus pais sabem disso.

E é aí onde se encontra a realidade que quero mostrar: a pessoa que sofre de depressão não tem necessariamente uma cara ou um perfil. Ela pode ser a sua melhora amiga, aquela menininha doce e amigável, aquela mulher forte e guerreira que está sempre de cabeça erguida, aquele pai de família perfeito, o rapaz brincalhão, o super atleta. Pode ser qualquer pessoa. A grande maioria das pessoas que sofrem de depressão sofrem caladas, são capazes de estarem morrendo por dentro dando o sorriso mais lindo que você já viu.

Normalmente, quem sofre de depressão se sente culpado, ingrato, acha que merece sofrer. Principalmente pessoas que têm um perfil parecido com o meu; “tudo o que precisa, uma vida boa, uma família linda, não tem motivo pra isso.” Assim, sofremos calados, pois não queremos parecer injustos ou não-gratos; não queremos ser julgados ou tratados com pena.

E quando moramos fora?

Quando me mudei para a Finlândia em 2009 eu estava melhor, havia feito um longo tratamento psicológico e estava muito feliz. Exceto pelo meu segundo inverno aqui, que tive S.A.D., nunca mais tive crise de depressão. Realmente acreditei que estava curada, que isso era passado em minha vida, até que…

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9 anos depois, quando sou uma mulher finalmente realizada na vida pessoal e tenho aquela família de propaganda de cereal e todas as razões do mundo para ser muito feliz, pimba! Ela voltou com tudo e sem nenhuma piedade.

Junto às chuvas de outubro e com a queda das folhas e o começo dos dias menos claros, veio a minha escuridão mental: comecei a sentir esgotamento físico, a ter compulsão por carboidratos e açúcar, a não querer mais sair. 3 semanas se passaram e foi ladeira abaixo: crises de choro compulsivas por nada e do nada; chorava no trem, andando na rua, conversando com as pessoas, sem nenhuma razão. Não estava me sentindo triste, simplesmente não conseguia me controlar. Daí vieram os pensamentos ruins, algumas paranoias do tipo: ” E se eu ficar com câncer e morrer? Meu filho vai se esquecer de mim? E por aí foi, foi e foi, até que vieram os pesadelos e as noites sem dormir. Foram 4, quase enlouqueci.

Na quarta manhã eu sabia que não tinha mais como deixar passar. Fui para o centro de saúde e me mandaram imediatamente para o psiquiatra. Fiz um teste  de depressão, achei que minha pontuação não seria alta e que estaria de novo com S.A.D. Pelo menos comigo, o S.A.D. tende a passar com um tratamento à base de vitamina D e melatonina. Mas não, minha pontuação foi altíssima. Depressão profunda.

Não quero falar sobre o tratamento nesse texto, prometo que falarei em breve num outro, mas estou medicada e agora, dois meses depois, me sinto muito melhor, mas como estou no meio de um processo, tenho lido muito a respeito da depressão quando se mora fora.

Um turbilhão de emoções todos os dias

Minha vida aqui é muito boa, tenho grandes amigos também. Mas estou longe dos lugares, das pessoas, dos aromas e sabores de onde fui criada; de onde conhecia tudo e aprendi a buscar por afeto, de onde aprendi a me defender. Por mais maravilhosos que os novos amigos sejam eles não substituem os que conhecem cada pedaço da nossa história e a ajudaram a construí-la, pessoas são únicas e ninguém é substituível quando tem um papel em nossas vidas.

Por mais que eu ame meu marido, nosso amor não substitui a falta que sinto de meus pais, a tristeza que sinto quando penso que não vejo meu pai há 4 anos; o medo que sinto de que a última vez em que vi meus pais tenha realmente sido a última vez. Estar longe por tantos anos traz esse turbilhão de emoções todos os dias.

Essa realidade que acabei de descrever é a realidade de quase todo mundo que se muda de país e lidar com ela diariamente não é nada fácil. Num país como a Finlândia, onde as condições climáticas afetam demais o humor, o modo de vida é bem menos social e mais isolado, depressão é uma prato cheio, com sobremesa e um shot de vodka no fim. Fato.

Amo viver aqui e nem penso em me mudar, mas mesmo 9 anos depois, digo que essa é a maior diferença e o maior choque cultural e sei que não vai melhorar. Em tanto tempo aqui eu também me tornei mais introspectiva e menos espontânea. A integração faz com que adquiramos os hábitos e muitos dos comportamentos locais, principalmente quando realmente estamos imersos na cultura, que é o meu caso.

Gostaria que este texto servisse como alerta. Um alerta para você, expatriada ou expatriado, que sinta que algo possa estar errado. Procure um médico, não espere passar, não fique parado achando que é só uma fase, que faz parte da adaptação. Até pode ser, mas isso não significa que você deva passar por isso sozinho e que não precise de ajuda profissional.

E que meu texto sirva de alerta para você também, que tem uma amiga ou amigo morando fora com quem você não fala há muito tempo. Deixe um oi, “apareça”, mande uma mensagem. Você não tem noção da diferença que um pequeno gesto seu fará na vida dessa pessoa. Te garanto.

Um pensamento recorrente que tenho é que 9 anos fora do Brasil fizeram com que eu tenha perdido o sentido para grande parte das pessoas que conheci. Olha só que horror? Olha só o que fazemos com nós mesmos?

Pense nisso e faça-se presente, mude o dia de alguém hoje!

Até a próxima.

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Maila-Kaarina Rantanen

10 comentários

Fabi Lima Dezembro 10, 2018 at 7:03 pm

obrigada pelo texto! um beijo e um abraço bem grande 😉

Resposta
Maila-Kaarina Rantanen Maio 4, 2019 at 8:19 am

Muito obrigada a você pelo comentário.

Resposta
Georgina Matta Dezembro 11, 2018 at 1:18 pm

Nao é fácil enxergar a depressao em nós, nem nos demais. É uma doença extremamente silenciosa e/ou silenciada na maior parte das vezes.
Ler textos assim sao extremamente importantes para gerar instrospecçao e para que quem nao sofre com ela possa ter mais empatia.
Se cuida, um abraço!

Resposta
Maila-Kaarina Rantanen Maio 4, 2019 at 8:19 am

Muito obrigada, querida Georgina.

Resposta
Victor Dezembro 11, 2018 at 5:20 pm

Querida autora muito obrigado por compartilhar um texto tão importante relevante com todo mundo.

Eu tenho certeza que muitos brasileiros fora do Brasil que agora estão morando em países da Europa Estados Unidos Canadá e outros países frios e com pouco sol passando por uma situação muito muito muito semelhante a essa que você descreveu acima.

Não tenho uma religião em particular Mas uma coisa que eu posso te dizer que me ajudou muito com um pouco de insônia que eu tive recentemente foi rezar Qualquer que seja sua religião seu credo a sua crença coloque sua fé seu favor rezando de noite na cama isso ajuda muito a relaxar e dormir.

Sobre a falta de vitamina D o Canadá também sofre bastante disso com imigrantes que vieram de países muito ensolarados como Brasil e eu mesmo já sofri um pouco disso e ainda estou lutando para ver como consigo resolver isso da melhor forma.

muito obrigado pelo seu relato e eu torço para que você se recupere totalmente e ter uma vida maravilhosa feliz e alegre e com sua família um grande abraço.

Resposta
Maila-Kaarina Rantanen Maio 4, 2019 at 8:18 am

Querido Victor,
Muito obrigada por sua mensagem tão cheia de carinho e compaixão. Toca meu coração ver pessoas que se preocupam com as outras a ponto de cederem seu tempo para escrever um comentário tão afetuoso. Muito obrigada de verdade.
Maila

Resposta
Renata S. Janeiro 4, 2019 at 2:46 pm

Maila, obrigada pelo texto, acho extremamente necessário falarmos abertamente de depressão.
Queria aproveitar e compartilhar a situação de um amigo finlandês que há anos tenta e não consegue chegar ao estágio de ser atendido e medicado adequadamente.
Ele morava em Helsinki e só foi atendido pela enfermeira psiquiátrica uma vez, que disse para ele se alimentar e dormir melhor e deu alta, pois ele não havia chegado ao ponto de cortar os pulsos ainda. Achei um absurdo e nem é necessário falar que isso piorou a situação de sua depressão.
Agora, morando em Lahti, ele está tentando o atendimento local. Refez o teste, teve pontuação alta, foi atendido pela primeira vez por telefone e foi agendada uma consulta com a enfermeira psiquiátrica, isso entre novembro e dezembro. A enfermeira que o atendeu, agora em janeiro, disse o mesmo sobre se alimentar e dormir melhor e o encaminhou para um outro profissional, que o avaliará só no final do mês. Cada atendimento demora semanas para acontecer e penso que a pessoa com depressão tem e precisa ser cuidada com urgência.
É assim mesmo que acontece por aí? Alguma recomendação para meu amigo conseguir, de alguma forma, acelerar seu atendimento e tratamento? Fico preocupada com ele e me sinto fraca por estar longe e não conseguir ajudá-lo de forma eficiente.

Abraços e feliz ano novo!

Resposta
Maila-Kaarina Rantanen Maio 4, 2019 at 8:00 am

Olá Renata,
Sinto muito por seu amigo e espero que esteja melhor. Infelizmente o sistema pode ser bem lento, dependendo de onde a pessoa more. Uma das principais razões por eu ter feito a opção de sair da área da capital foi exatamente por conta do sistema de saúde. A Finlândia passa por um momento muito complicado no sistema de saúde. Este é muito oneroso para o governo e, infelizmente, a oferta de profissionais é baixa. Há alguns anos que o sistema abriu as portas para médicos estrangeiros, mas ainda assim, a obrigação de se falar finlandês não atrai muitos profissionais. É uma faca de dois gumes porque realmente não se pode contratar um médico que não seja fluente na língua local. O paciente precisa ser entendido 100% e não pode ser obrigado a se expressar em uma língua que não é a dele.
Helsinki é muito populosa e por isso as filas são enormes, o sistema é lento. Tem mais demanda do que serviço. Lahti é melhor, mas ainda assim está dentre as maiores cidades do país. Onde moro é muito melhor e mais rápido, pois tem menos gente.
O problema também está um pouco na atitude dos finlandeses. Eles não sabem comunicar bem as suas necessidades. A pessoa vai lá, não recebe o suficiente e volta para casa ao invés de reclamar e de dizer com todas as letras que está mal, que precisa de ajuda. Vejo isso acontecer muito.
Espero que ele esteja medicado e melhor.
Um abraço,
Maila

Resposta
Monica Paraiso Berge Fevereiro 8, 2019 at 6:08 pm

Que texto lindo, Maila! Parabens por sua coragem de abrir seu coracao e falar sobre a doenca , como voce bem falou, que afeta mais de 300 milhoes de pessoas no mundo. Me identifiquei muito com seu texto e te peco, nao deixe de nos alertar sobre o tratamento.
Nao sabia, por exemplo, que existe um exame que identifica o grau de depressao que esta acometendo uma pessoa.
Aguardo seu texto em breve.
Muito obrigada e melhoras.

Resposta
Maila-Kaarina Rantanen Maio 4, 2019 at 7:52 am

Muito obrigada, Monica.
O exame é na verdade um teste de múltipla escolha com diversas perguntas e 4 opções de respostas. Cada resposta escolhida tem uma pontuação e, ao final, identifica-se o grau de depressão. Primeiramente eu fui bem cética quanto ao teste, achei que aquilo era uma besteira, tipo teste de revista. Mas depois, pesquisando, vi que é um método universal e muito, mas muito eficaz mesmo.
Um beijo,
Maila

Resposta

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