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O feminismo na Itália

Foto: Jen Theodore via Unsplash

O feminismo na Itália.

O surgimento do movimento feminista na Itália – país marcado por paradoxos.

Julho de 2019, o último verão que a Europa vivenciou com tranquilidade antes da chegada do coronavírus.

Lá estava eu, aproveitando o sol em Atrani, uma das praias da cinematográfica Costa Amalfitana, quando um grupo de turistas francesas apareceu.

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Lindas e sofisticadas como só as francesas conseguem ser, elas se acomodaram na areia e com a maior naturalidade do mundo – e para desgosto de alguns e deleite de outros – retiraram a parte de cima do biquíni antes de deitar e relaxar no sol escaldante do verão italiano.

Foi então que uma das francesas, ao perceber os olhares alheios, sugeriu às amigas que seria melhor colocarem o biquíni de volta antes que alguém viesse reclamar. Outra respondeu que não, que elas eram feministas – e francesas – e que tinham o direito de fazer topless onde bem entendessem.

Neste momento que uma terceira participante do grupo disse algo que até hoje eu não consegui esquecer: “Do que adianta podermos fazer topless na praia se TODAS as outras mulheres aqui não se sentem confortáveis para fazer o mesmo? O feminismo ainda tem um longo caminho pela frente.”

Itália, um país de paradoxos

Para mim esta situação diz muito sobre a Itália, local de paradoxos quando o assunto é o movimento feminista. Um país religioso e que sedia a casa da Igreja Católica no mundo, mas que autorizou o direito ao aborto em 1978.

Uma cultura machista, na qual as mulheres ainda são responsáveis por 70% das atividades domésticas da família, mas na qual as matriarcas têm a palavra final, inclusive na máfia.

País no qual apenas 36% dos postos no Parlamento são ocupados por mulheres, mas que elegeu Virginia Raggi e Chiara Appendino para governar, respectivamente, Roma e Turim, duas das principais cidades italianas.

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E em meio a todos estes contrastes, não é à toa que as próprias mulheres italianas estejam constantemente em conflito.

Casar e ter filhos x ter uma carreira de sucesso; aprender a cozinhar as receitas da nonna x mostrar para o parceiro que ele também deve arcar com as responsabilidades da casa; viver com liberdade e fazer o que a faz feliz de fato x respeitar os costumes e as tradições.

Enfim, conflitos estes que não parecem muito diferente do que nós, mulheres brasileiras, vivemos do lado de cá do oceano Atlântico, não é mesmo? Mas antes de entrarmos nessa discussão, vamos relembrar a contribuição das italianas para o movimento feminista como um todo.

O surgimento do movimento feminista na Itália

As primeiras discussões sobre o direito das mulheres surgiram na época do Renascimento, no fim do século XIII. Neste período, a Itália passou por uma revolução cultural com o surgimento de universidades e o desenvolvimento artístico e literário.

Mesmo sem poder ingressar nas universidades, muitas mulheres da elite começaram a receber uma educação formal em casa. O objetivo não era, entretanto, dar-lhes algum tipo de emancipação intelectual, mas torná-las mais qualificadas para o papel de dama e esposa que ocupariam na sociedade.

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Foi apenas no século XIX que o movimento feminista ganhou força na Itália e na Europa em geral.

A lei Casati de 1859 estipulava a formação de professoras para atuar na educação básica, fazendo com que as mulheres se tornassem as grandes responsáveis pela formação acadêmica das novas gerações de italianos.

O Rissorgimento, movimento que levou à unificação da Itália no século XIX, também contou com o apoio de mulheres, entre elas a brasileira Anita Garibaldi, companheira de Giuseppe Garibaldi e que até hoje é lembrada como uma importante personagem histórica e protagonista de filmes e séries no Brasil e na Itália.

Em 1876, as mulheres passaram a ter acesso à universidade e em 1911, surgiu o primeiro congresso feminista no país, organizado pelo grupo Per la Donna.

O papel das mulheres italianas na guerra

Poucos sabem, mas as mulheres tiveram um papel fundamental na vitória italiana na Primeira Guerra Mundial. Na região dos Alpes que demarcam a fronteira entre a Itália e a Áustria, um grupo de mulheres habilidosas arriscava a própria vida escalando essas perigosas montanhas para levar armas e suprimentos para os soldados no front italiano.

As chamadas portatrici eram mulheres de 16 a 60 anos de idade que carregavam mais de 30kg nas costas. E isso em um terreno com desnível de 1 mil metros em pleno inverno; fora o risco constante de caírem da montanha ou de serem mortas por um atirador inimigo.

Estas mulheres tiveram uma atuação na guerra tão importante que foram homenageadas com medalhas de honra militar pelo governo italiano. A escritora Ilaria Tuti escreveu em 2020 o romance “Fiore di Roccia”, inspirado na história real deste grupo de mulheres.

O surgimento do fascismo foi um grande golpe para o feminismo italiano, especialmente após a subida ao poder de Benito Mussollini em 1922. A doutrina fascista via a mulher apenas como mãe, cujo único papel na sociedade era o de ter filhos e cuidar da família.

A revolução das mulheres no pós-guerra

Foi somente depois da Segunda Guerra Mundial que os direitos das mulheres voltaram a ser discutidos com mais força na Itália. Em 1945, as mulheres passaram a ter direito ao voto em todas as eleições, locais e nacionais.

A jovem Tina Rocci, operária da Fiat, em 1971, torna-se a primeira mulher a se divorciar legalmente em Turim e em toda a Itália. Em 1972, milhares de mulheres, incluindo a atriz americana Jane Fonda, tomavam as ruas e praças de Roma para exigir seus direitos, entre eles o direito ao aborto, aprovado apenas em 1978.

Nas décadas seguintes, o movimento feminista começa a ganhar destaque em estudos acadêmicos nas universidades italianas, com o intuito de trazer um pensamento mais crítico em relação aos próprios direitos para as novas gerações de mulheres no país.

O feminismo na Itália hoje

Assim como em outros países, o movimento feminista italiano discute principalmente a questão da paridade de gênero no ambiente de trabalho. Outros temas importantes incluem a dupla jornada das mulheres em casa e o estigma cultural de que todas as mulheres devem casar e ter filhos.

Devido à pandemia, a reclusão forçada em casa, levaram a um aumento nos casos de violência doméstica no mundo. Segundo dados do Istat – o IBGE italiano – em 2019, 49,5% dos casos de assassinato de mulheres foram cometidos pelo parceiro e 11,7% por um ex.

Ainda segundo o Istat, em 2020 houve um aumento de 73% nas chamadas de emergência para denúncias de violência doméstica em comparação com o ano anterior. O número de assassinatos de mulheres que viviam com o parceiro aumentou 10,2% em relação a 2019.

Estes dados mostram a triste realidade de que ainda estamos muito distantes de garantir a equidade de gêneros. Como afirmou a jovem francesa do início deste texto, o feminismo ainda tem um longo caminho pela frente.

E esta luta pertence a todos nós. Na Itália, no Brasil e no mundo.

Para saber mais (em italiano):

Wikipédia – História do movimento feminista na Itália.

Freeda – Canal no Youtube sobre questões da mulher moderna, como autoestima, relacionamentos, carreira.

Senza Rossetto – Podcast no Spotify e newsletter sobre o feminismo para a nova geração de italianas.

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