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Banto dos Santos – a cultura brasileira na Romênia

Banto dos Santos – a cultura brasileira na Romênia.

É sempre um prazer ver um conterrâneo fazendo sucesso em terras estrangeiras. Sinônimo de alegria contagiante e sorriso fácil, nosso entrevistado da vez para o Clube do Bolinha é Banto dos Santos, um baiano cheio de energia que escolheu a Romênia para viver, mas que mantém suas raízes divulgando no novo país a cultura brasileira.

BPM: Para começar, por favor, apresente-se para nossos leitores.

Banto: Me chamo Banto dos Santos, sou nascido em Salvador/BA, tenho 37 anos, sou casado, muito feliz, tenho 3 filhos lindos e uma esposa maravilhosa.

BPM: Qual sua história com a Romênia? Como chegou aqui?

Banto: Eu sempre quis sair do Brasil porque poderia fazer muito mais e o Brasil não era meu lugar. Então, acabei a escola, era professor de capoeira e também fazia teatro. Trabalhei por 6 anos como coordenador de animação em um hotel em Salvador, de onde pedi demissão por ter propostas de viagem, ocasião em que conheci minha esposa Andrea. Ela é romena, estava no Brasil e esticou a estada para ficar mais alguns dias comigo. No terceiro dia me fez o convite para conhecer a Romênia, que eu nem sabia onde ficava. Olhei no mapa quando ela falou do jogador de futebol Hagi, e então resolvi ir. Cheguei em Cluj-Napoca, na Transilvânia, e achei tudo horrível – tanto as pessoas quanto o lugar. Depois de 3 meses nos casamos e Andrea já estava grávida do nosso primeiro filho. Foi muito rápido, no primeiro ano foi difícil a adaptação com a cultura local, que achava meio louca, mas hoje, depois de 10 anos, amo muito o país e a cultura.

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BPM: Conte-nos sobre seu trabalho na Romênia.

Banto: Nos primeiros 6 meses, aqui, não trabalhei, só estudei a língua. Ainda no primeiro ano abri meu espaço de capoeira,  tudo bem básico e lento, porque ninguém conhecia a capoeira. Foi muito stress, mas minha esposa esteve sempre ao meu lado, e depois de 1 ano e meio recebi uma proposta para trabalhar como apresentador de TV, onde falava sobre esporte e alimentação; e, é claro, que sempre falava sobre a capoeira. Foram 3 ótimos anos, aprendi muito e fiquei muito conhecido na cidade. Hoje, 8 anos depois, tenho meu espaço de capoeira dentro da universidade de economia da cidade.

A capoeira sempre me colocou em lugares maravilhosos e com ótimas oportunidades, e sempre acreditei no potencial do esporte. Além do espaço de capoeira, hoje tenho, também, minha própria empresa de shows, chamada DeaBanto Events. Sou Capoeirista, Showman, MC, apresentador de TV, tudo graças à capoeira.

BPM: Como surgiu a ideia de usar a cultura brasileira como uma forma de trabalho?

Banto: Sempre trabalhei com a capoeira e soube que ela era rica. Então, quando cheguei aqui e vi que as pessoas não conheciam essa arte maravilhosa, pensei: “Opa! Na terra de cego, quem tem um olho só vira rei”. Em 2011, abrimos o Centro Cultural de Língua Portuguesa, onde atualmente muitos romenos falam a nossa língua, inclusive meus alunos, e isso por causa da capoeira. Amo o que escolhi para viver, cheguei aqui falando só o português, e hoje falo 5 línguas, tudo por causa do lindo trabalho com a capoeira. Tenho orgulho de ser capoeirista.

BPM: Na sua opinião, como os romenos veem o seu trabalho e a nossa cultura?

Banto: Na minha opinião, não vejo muita diferença: tudo tem os dois lados. Sobre meu trabalho, conquistei meu respeito, fiz meu próprio nome, cheguei onde tinha que chegar. Romenos só falavam de futebol e hoje eles sabem que a capoeira existe e vem do Brasil. Ao longo dos anos, o Brasil só vendeu o samba e o futebol, e nós, de classes mais baixas, da favela, e que sempre trouxemos a cultura brasileira nos pés, tivemos que fazer diferente para chegarmos ao topo.

BPM: Recentemente você participou com seu grupo do show de talentos “Românii au Talent” (versão romena do famoso America´s Got Talent). Qual foi a sensação de levar o Brasil em rede nacional de TV?

Banto: Foi uma sensação maravilhosa de poder levar meu grupo e meus alunos, que são romenos, para toda Romênia saber que a capoeira existe e que eles podem, sim, praticar essa luta brasileira. Chegamos até a semi-final, a experiência foi ótima para meus alunos, que ainda não tinham contato com palcos e TV, meu nome cresceu, meu grupo também, muita glória.

BPM: No Brasil, muitos não conhecem a Romênia, ou conhecem muito pouco. Qual é a sua visão sobre ser um brasileiro vivendo na Romênia? Pensa em voltar a viver no Brasil um dia?

Banto: Eu acho a Romênia um país lindo, e a cidade de Cluj-Napoca ainda mais linda. O que eu mais gosto aqui são a segurança, as oportunidades de trabalho, boa educação e comida, bom nível de vida, tudo mais barato que no Brasil. Não gosto das taxas de impostos um pouco altas, e acho que muitas pessoas choram de barriga cheia, reflexo do comunismo. Romenos sempre falam “não” antes de tentar, e muitas vezes não vivem suas próprias vidas, mas a do outro.

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Sinto falta da praia, das minhas comidas e frutas preferidas, do clima baiano, da energia e da música brasileira. Acredito que o Brasil é um país rico, lindo, perfeito por fora, mas horrível por dentro, por causa da corrupção. Se morasse no Brasil agora, mesmo tendo um talento, eu seria apenas mais um. Não teria meu espaço para me expressar, estaria em um lugar que não oferece quase nada – acho que o país poderia ser muito melhor se melhorasse a educação e saúde. Todo ano vou para o Brasil com minha família e sempre volto mais triste, porque 10 anos se passaram desde que saí de lá, e as coisas mudaram para pior, inclusive meu próprio povo. Me tratam com diferença porque estou melhor, porque cresci e estou acompanhado de uma loira bonita, e isso é muito triste. Como posso sofrer racismo no lugar em que nasci, um lugar onde 85% da população é negra? 

Tudo isso me faz refletir sobre o que acontece com o ser humano. Não sinto falta de viver no Brasil, não penso que me adaptaria novamente. Sempre irei para o Brasil em visita, mas voltar a viver, nunca.

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