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Como é fazer pós-graduação em Pequim?

Como é fazer pós-graduação em Pequim?

Assim que eu pisei na China, eu saí correndo do avião, entrei no banheiro e passei mal por causa da turbulência na aterrissagem em Xangai. Isso foi em 2013 – minha primeira vez aqui, sem nunca ter vindo para a Ásia e sem falar nada de mandarim. Eu vim acompanhada com o que era praticamente uma excursão: cerca de 100 brasileiros e brasileiras de todo o país, para passar 20 dias pelo Programa Top China do Santander Universidades. Foi um verão bem quente e eu nunca me senti tão perdida em algum lugar como na China. O país não era nada do que eu esperava: lembro de olhar para baixo da janela do ônibus e ver os três níveis de viaduto, enquanto eu estava na altura dos arranha-céus de Xangai.

Agora já fiz o trecho Brasil-China, com suas cerca de 25 horas de viagem saindo de Porto Alegre, sete vezes, mas viver e estudar na China continua sendo tão impressionante quanto daquela primeira vez. Meu mestrado é em Pequim, na Renmin University of China. A Renmin é uma das principais universidades vinculadas à produção do pensamento do Partido Comunista Chinês, e forma muitas das pessoas que vão entrar nele – não necessariamente na carreira política, mas na capacitação e elaboração das políticas. Sendo assim, é um ambiente extremamente interessante para quem quer aprender sobre política interna e como o pensamento ali vai impactar a política externa. No meu caso, faço mestrado em Contemporary China Studies (no CCSP), que é mais interdisciplinar – focando em economia, sociedade, ou política externa. Minha formação é em Relações Internacionais e aqui segui pelo caminho da política externa. O calendário acadêmico segue o modelo do americano e europeu: inicia em setembro e vai até janeiro, depois recomeça no final de fevereiro e segue até junho. A maioria dos estudantes mora no campus, nos dormitórios dos alunos internacionais (fazendo intercâmbio ou curso completo) em prédios diferentes do dormitório dos chineses. Essa dinâmica cria uma separação não apenas física, mas também social. Existem exceções (quem faz graduação em mandarim, quem busca language partners, quem se interessa mais por atividades tradicionais de cultura chinesa), mas normalmente os grupos não se misturam muito. Os dormitórios estrangeiros aqui são divididos entre duas pessoas ou são individuais (os mais caros), enquanto os dormitórios chineses têm até cinco pessoas no mesmo quarto. Por esse motivo, os estudantes chineses acabam usando muito o espaço da universidade para estudar: a biblioteca está sempre lotada, as salas de aula também (mesmo quando não tem aula).

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As minhas aulas são todas em inglês, com professores chineses ou estrangeiros. As turmas do meu curso têm maioria de alunos estrangeiros mesmo, já que é um mestrado em outro idioma. Cada ano varia o número de estudantes do programa, em 2016 (quando entrei) foram 12, já em 2017 foram quase 30. Apesar de muitos alunos serem da Europa ocidental, o que acho mais interessante é o grande número de alunos do leste asiático (muitos coreanos!), Ásia Central e África. A América do Sul ainda é pouco representada, mas pelo menos dois ou três estudantes do Brasil sempre estão por aqui. O governo chinês tem feito um grande esforço de internacionalizar as suas universidades e isso ficou visível no último ano ao redor do campus e da cidade. As principais universidades do país receberam verba do Ministério da Educação para ações nesse sentido e isso significa que mais oportunidades vão surgir na próxima década.

Felizmente, a China é um país relativamente barato de se viver. Apesar de ser a capital, Pequim ainda é mais barata que Xangai, por exemplo. A moradia é certamente o que custa mais por aqui, mas residir dentro do campus é o padrão (o quarto duplo sai por cerca de 500 a 700 reais ao mês, e o individual 1200 reais). Algumas bolsas incluem a acomodação também, como a do China Scholarship Council (CSC). A CSC abre todo ano, recebendo inscrições por país – via Ministério das Relações Exteriores ou Embaixada da China no Brasil. Eles aprovam cerca de 30 brasileiros e brasileiras todo ano, para graduação e pós. As inscrições normalmente encerram em final de março ou início de abril (para 2018 a data é 30 de março), com os resultados sendo divulgados em junho. Além da acomodação e da anuidade, a bolsa cobre seguro-saúde e oferece um estipêndio mensal que até dá para poupar – dependendo do seu perfil.

A Renmin é famosa por ter os melhores e mais variados restaurantes universitários na cidade, e uma refeição custa em média de 5 a 10 reais, mas pode ser até menos. As principais universidades estão localizadas no distrito de Haidian, e a Renmin fica a cerca de 15 minutos da Peking University e da Tsinghua University – que estão entre as três melhores do país. Também dá para fazer esse percurso nas muitas bicicletas compartilhadas, como da Ofo ou da Mobike, que você pode alugar usando o aplicativo no celular e elas podem ser deixadas em qualquer lugar. O coração disso tudo é a região de Wudaokou, que é onde se concentra a vida noturna e social da comunidade acadêmica da cidade. E fica do lado do Vale do Silício da cidade, onde diversas companhias internacionais (Google e Microsoft, por exemplo) estão, bem como os escritórios de muitas startups e empresas chinesas de tecnologia.

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O interessante de estar perto disso tudo é que sempre tem eventos rolando com palestrantes renomados das mais diversas áreas. Aqui, é possível sentir que se está num dos centros do mundo, em constante mudança e discussão. É impossível passar uma semana sem que você considere faltar à aula para ir em algum evento – nas universidades ou na região de Sanlitun e Chaoyang, onde ficam as embaixadas e sedes de organizações internacionais.

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1 comentário

Janete Rosa Maio 1, 2018 at 8:42 pm

Parabéns Júlia!!!
Muito interessante esse pedacinho 🔝 da China 🇨🇳 que nos apresentou. 😍

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