BrasileirasPeloMundo.com
África do Sul

Como é morar no interior da África do Sul

Passei alguns dias me questionando sobre qual seria o tema para meu primeiro texto no BPM. O processo de visto veio como ideia, dado que foi o passo inicial para pisar no continente africano pela primeira vez. Mas, ao elencar os pontos, veio a vontade de contextualizar minha realidade em Potchefstroom, no interior da província de North-West. Digo isso porque é uma realidade bastante distinta das grandes cidades e do que ouvimos do país como um todo. Em minha opinião, o país é uma colcha de retalhos, que procura preservar ao máximo as características particulares a cada região e grupos étnicos. Muita gente sabe e isso já foi citado em outros textos do blog, mas relembrar que há 11 línguas oficiais já diz bastante a respeito disso!

Vim para cá há 12 meses, acompanhando meu esposo, que obteve um contrato de pós-doutorado com duração total de três anos. Tanto aqui na cidade, quanto nas diversas viagens em que fizemos pelo país, é muito comum ouvirmos: “Mas por que Potch?”, “Como vocês vieram parar em Potch?” ou “O que fazem perdidos em Potch?” E foram perguntas desse tipo que vieram à minha mente durante o trajeto entre o aeroporto de Johannesburg e nossa nova casa, ao ver uma região rodeada de minas e fazendas. “Onde eu vim parar?” eu me indagava, mas me mantendo otimista e aberta à experiência. E qual o motivo dessas perguntas? Bem, além do fato dos estrangeiros se concentrarem em Johannesburg e Cape Town, é porque esse é um lugar com jeitão interiorano e ligado à agricultura, onde não acontece muita coisa, em que se pode conhecer todos os bons restaurantes em questão de semanas e que possui um cinema que exibe apenas as grandes produções “hollywoodianas”. Não é um local típico de destino de “forasteiros”.

Leia também: Hábitos locais na África do Sul

Potchefstroom, mais conhecida por “Potch”, é uma cidade universitária, cuja vida econômica gira em torno da North-West University e conta com aproximadamente 43 mil habitantes (censo de 2011). Incluindo os assentamentos na área, cuja parte da população comuta todos os dias para trabalhar na cidade, esse número pula para 128 mil (dado de 2007, antigo infelizmente, de uma pesquisa feita pela comunidade local). Ela fica a 1h45min de Johannesburg e o parque nacional mais perto é Pilanesberg, a 2h30min, com boa estrutura para safáris. A costa mais próxima é a leste, com Durban a 630km. A universidade atrai pós-doutorandos de diversos países, apesar dos salários serem os menores do país para essa posição, por oferecer contratos superiores a um ano e potenciais bolsas adicionais para pesquisa.

Ao contrário da população sul-africana como um todo, esta é uma região conhecida como “cinturão bíblico” pela predominância de cristãos e dominada pelos Afrikaners (descendentes dos colonos holandeses): a cidade possui 80% de brancos, 25% de negros e 3% de mestiços. Portanto, não experimentamos a “simpatia sul-africana” como tantos turistas que visitam o país. O pessoal aqui é muito educado, porém retraídos, sem grande interesse em se relacionar com quem é diferente. Por isso, tive bastante dificuldade em fazer amizades no início, e me surpreendi com a separação racial/social que obviamente existe em todo o país, mas é bastante evidenciada aqui e ligada ao contexto universitário (considerando que pequena parcela da população tem acesso à instrução e é primordialmente branca). Ignorante, sabendo da situação apenas através de livros, eu achava que o Apartheid havia acabado em 1994, mas esse foi o político, o legal. O Apartheid social e econômico continua bem presente, vejo poucos grupos miscigenados de amigos, e aqui em Potch eu vi apenas dois casais até hoje! É muito raro também ver pessoas LGBT.

Leia também: onde morar na Cidade do Cabo

Através de trabalho voluntário do Lions Club e da igreja que estou frequentando, estou tendo finalmente a oportunidade de ter mais contato com pessoas de diferentes grupos étnicos e nacionalidades. São essas atividades que me salvam de morrer de monotonia. Como esposa de estrangeiro, o visto a mim concedido foi de acompanhante, que proíbe trabalho e estudo. Para exercer qualquer uma dessas atividades legalmente, além dos devidos documentos e autorizações, eu precisarei ir até o Brasil solicitar um novo visto. Além disso, as possibilidades de trabalho para estrangeiro na África do Sul estão cada vez mais raras, e no meu caso são quase nulas. Mas isso é tema para um próximo artigo.

Outro motivo que limitou bastante minhas atividades inicialmente foi não ter carro próprio. Várias vezes me vem a música da Ivete Sangalo à cabeça ao ver os veículos que circulam nas ruas: “Quer andar de carro velho, amor, que venha…”. A população prefere ter o carro mais velho e detonado possível, rodar sem seguro, sem habilitação ou licenciamento, do que ficar a pé. Carros com até 100 mil km de uso são considerados de baixa quilometragem. E isso porque não há transporte público fora das grandes cidades, e mesmo nelas ele é precário, pois os trens não têm horários confiáveis e os únicos ônibus que vi até hoje são intermunicipais ou de sight-seeing (turísticos).

acervo pessoal

Leia também: onde morar em Joanesburgo

O transporte coletivo existente é o black taxi, em tradução literal, taxi preto, o equivalente à nossa “lotação”. E são chamados assim porque majoritariamente é a população negra que o usa, e são a única opção de longa distância para a comunidade. Fui bastante desencorajada a utilizá-lo por questões de segurança própria por eu ser diferente, pela falta de conservação dos veículos, e pela forma como os motoristas dirigem, não respeitando sinais vermelhos e com superlotação. As outras opções locais de locomoção são obviamente os pés (mas somente durante o dia por questões de segurança), a bicicleta (também desencorajada pelo mesmo motivo), dois motoristas privados na cidade (dificílimos de encontrar após às 22hs e aos fins-de-semana), três “tuk-tuks” (normalmente lotados e funcionando com atraso), carro alugado (Avis e Bidvest têm bastante penetração no país e é uma opção relativamente barata para viajar) e a boa e velha carona. Nunca gostei de pedir ajuda, mas saí inúmeras vezes de minha zona de conforto para conseguir fazer coisas básicas como a compra de mês ou buscar um documento, o que foi um grande aprendizado pessoal.

Apesar de estar em uma cidade pequena, tudo acaba ficando longe sem transporte. Assim que consegui trazer dinheiro do Brasil, providenciamos um carro, que também foi um processo moroso, porque o sistema de tráfego não é integrado no interior do país e pela documentação adicional exigida para estrangeiros. Com nosso Suzuki SX4 com 170 mil km, senti retomada a sensação de liberdade, de poder agora explorar a cidade e o país sem depender de ninguém. Em quatro meses, pude conhecer cinco províncias a bordo dele, ir ao Kruger National Park com parte da família que nos visitava e fazer coisas simples como buscar uma pizza à noite (há apenas um delivery na cidade, que não encontrou minha casa). E já estou ansiosa para conhecer e dividir com vocês cada vez mais lugares, pessoas e experiências nesse país tão diferente, rico em cultura e belezas naturais!

Related posts

Sistema de saúde na África do Sul

Thaís Helena

Dirigindo na África do Sul

Michelle Braga

Os amigos que fiz na África do Sul

Thaís Helena

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Este site ou suas ferramentas de terceiros usam cookies Aceitar Consulte Mais Informação