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Como é ser gay em Nova Iorque?

O BPM entrevistou a Stella, paulista de Jundiaí, que mora em Nova Iorque desde 2015 e trabalha com recrutamento de profissionais com experiência na America Latina. A Stella é bisexual e casada com o Cello, que é trans. Ela vai nos contar sobre a vida nos Estados Unidos, quais os melhores e piores estados e como é ser gay em Nova Iorque.

BPM – Você mora em Nova Iorque, uma cidade cosmopolita conhecida pela abertura artística, cultural. Como é ser LGBTQ+ em Nova Iorque?

Stella – A diversidade em Nova Iorque em todos os aspectos junto ao fato de ser uma grande metrópole onde as pessoas são mais independentes e mais abertas me deixa livre para ser quem sou. Nova Iorque é a cidade com maior número de residentes que se identificam LGBTQ+, e a cidade reconhece pelo menos 31 identidades de gêneros. Dentro dos EUA, é uma das cidades mais seguras para se viver para nossa comunidade.
Aqui me sinto incluída e engajada e a vida que eu e minha família levamos, trabalho, os amigos que nos apoiam são muito importantes para a nossa experiência e qualidade de vida serem as melhores possíveis.

BPM – E Como a sociedade americana, em geral, vê a comunidade LGBTQ+?

Stella – Em 2016, um ano após a aprovação do casamento homoafetivo, uma pesquisa feita pela agência Pew Research mostrou que 55% dos americanos são a favor do
casamento homoafetivo enquanto 37% se opõe. Há dez anos atrás 55% se opunham e 35% eram a favor. Ao mesmo tempo que essa pesquisa nos mostra uma evolução positiva, estamos vivendo um momento muito difícil na atual administração para as leis de proteção aos direitos LGBTQ+. Apesar da falta de proteção a nível federal, muitos estados e municipalidades tem inserido mais leis inclusivas para a nossa comunidade.

Hoje há 22 estados que proíbem discriminação baseada na orientação sexual, mas em 28 estados nos EUA você ainda pode ser despedido por ser lésbica, bissexual ou gay. Em 30 estados você pode ser despedido por ser transgênero, de acordo com a publicação da organização “Out and Equal”. As leis não-discriminatórias protegem a população como um todo, mas muitas excluem transgêneros.

Para mostrar um pouco como o que as cidades têm feito para a população LGBTQ+, a organização “Human Right Comission”, HRC, criou um índice de municipalidade  que faz um ranking de cidades baseado em suas leis municipais, políticas e o posicionamento das
cidades e direitos a igualdade LGBTQ+. Esse ano houve um aumento do engajamento de cidades e 68 cidades ficaram com a nota máxima, avançando em políticas inclusivas, o que demonstra que cidades continuam a liderar iniciativas positivas para a igualdade de direitos, um ganho significativo pelo país.  Em 2015, 47 cidades tiveram essa nota, e em 2012, somente 11 cidades.

A luta continua por mais políticas inclusivas, em um país em que a porcentagem da população de adultos que se identificam LGBTQ+ cresceu de 3.5% em 2012 para 4.1% em 2016.

Tivemos recentemente a primeira mulher transgênero eleita no estado de Virgínia a assumir um cargo legislativo. Há pelo menos oito cargos públicos preenchidos por trangêneros, uma conquista muito significativa!

BPM –  O governo oferece algum apoio? Há comunidades, associações, organizações para apoiar principalmente os jovens? 

Stella – Durante a administração anterior, houve progresso em relação aos direitos LGBTQ+, e na atual, estamos vivendo um retrocesso de nossos direitos e leis. Tivemos no último ano leis aprovadas banindo a população trans de servir ao exército, mudanças discriminatórias nas leis de proteção à comunidade no trabalho, imigrantes, dificultando a qualidade de vida de muita gente. Mas com a ajuda de organizações sem fins lucrativos, há mais recursos, programas, e mais maneiras para preencher essa falta de apoio e criar meios da comunidade se conectar e ter mais voz para mudar essa realidade.

Eu e meu marido, que é um homem trans, fazemos parte de um grupo de famílias de jovens transgêneros e gênero não-binários que nos proporciona uma das melhores experiências de vida. Esse programa é parte de outras iniciativas feitas pela ONG PFLAG.

Além de estarmos conectados com histórias similares, aprendemos muito sobre a importância do apoio das famílias. Descobrimos sobre outras identidades de gêneros que não imaginávamos existir e hoje estamos bem mais informados para continuar educando outras pessoas.
Para quem tiver interesse, seguem alguns links abaixo de algumas das organizações com atuação em direitos LGBTQ+ e muitas têm programas com foco para crianças, jovens e adultos:

BPM – Você já sofreu discriminação nos EUA, por ser LGBTQ+? Como você compararia ser LGBTQ+ nos EUA e no Brasil?

Stella – Nunca sofri discriminação nos lugares que frequento e busco sempre pesquisar lugares que sejam abertos e inclusivos quando vamos viajar, afinal, queremos ter uma experiência boa nos lugares que escolhemos.
A minha experiência vivendo no Brasil sendo LGBTQ+ sempre foi muito boa e tenho uma família e amigos maravilhosos e que me apoiam muito. Eu e meu marido até já criamos em São Paulo uma festa para mulheres LGBTQ+ anos atrás e foi uma época em que estivemos super engajados em eventos para a comunidade.

Apesar do Brasil ser um dos maiores países a ter reconhecido o casamento gay, ainda é
considerado o país que mais assassina a população LGBTQ+. Temos muito a fazer ainda, políticas públicas, trazer mais informações, discussões para diminuir o preconceito. Como temos visto, a religião também tem oprimido o direito à liberdade de direitos da comunidade no Brasil. Por esses motivos, hoje nos sentimos mais seguros vivendo aqui em Nova Iorque.

BPM – A diferença entre a geração mais velha e os jovens em relação a comunidade LGBT nos EUA é muito visível?

Stella – A geração mais velha com certeza enfrentou muito mais preconceito e abriu muitos caminhos para gerações mais novas. Em Nova Iorque, em 1969 houve o movimento histórico LGBT no Stonewall, que contribuiu para muitos outros movimentos, marchas, fortalecendo-se essa luta de direitos.

Em gerações anteriores, quantos não sofreram violência, e viveram sem se assumirem para as famílias por estigmas do que era ser gay na época, as associações, preconceitos? Tenho muitos amigos que se assumiram somente depois de anos.
Pelo que temos visto, e lido, os jovens têm sido mais espontâneos e abertos para reconhecer sexualidade e gênero e essa mudança de gerações, junto a mais inclusão irá sempre fazer com que as pessoas se reconheçam cada vez mais.

BPM – No caso de transexuais e operação de mudança de sexo, como são as opções e como funciona nos EUA? É coberto pelo governo? A partir de que idade?

Stella – Nova Iorque tem a maior população de transgêneros nos EUA, estimada em 25.000 em 2016. Os planos de saúde cobrem em geral consultas e serviços preventivos a todos, quando feitos pelos médicos da rede do plano de saúde e independentemente da identidade de gênero.
Em relação à cirurgia de mudança de sexo, muitos planos não cobrem e a política varia por plano e por estado. Jovens podem se submeter à cirurgia a partir dos 18 anos. Para menores de 18 anos cada caso é avaliado, conforme as orientações do “World Professional Association for Transgender Health” (WPATH SOC-7).

Como parte dos pré-requisitos, é necessário ter documentação comprovando disforia de gênero, consentimento para iniciar um tratamento e ter referências de psicólogos que comprovem a capacidade do paciente de tomada de decisão.
Baseado em dados do índice de igualdade corporativo do Human Rights Comission (HRC), em 2014, 46% das empresas privadas oferecem benefícios inclusivos para trans.

Enquanto há progresso nas políticas de inclusão nas empresas para transgêneros, muitas empresas nos EUA contém planos que excluem transgêneros ou negam o pagamento de tratamentos considerando “cosméticos”. Um absurdo. E quem não tem seguro saúde privado ou depende do seguro público corre um grande risco também de cada vez mais ter menos acesso a tratamentos e terapia hormonal necessários para a transição. Segue link com mais informações para quem quiser saber mais sobre o assunto:

BPM –  E no ambiente de trabalho, você acha que a sua sexualidade é relevante ou apenas a sua formação/aptidão profissional?

Stella – Trabalhar em um lugar que oferece um ambiente seguro, inclusivo, que valoriza o funcionário não só pelas aptidões e sim muitas outras linhas de diversidade (orientação sexual, raça, gênero, cultura, etc) faz toda a diferença. A forma em que essa diversidade é inclusiva, associada a políticas contra a discriminação impactam diretamente no engajamento, retenção, mais satisfação e produtividade.

Li um estudo que dizia que pessoas que escondem quem elas são no trabalho têm 73% de
probabilidade de ficarem um período de três anos somente na empresa. 92% das empresas no ranking “Fortune top 500 companies” têm políticas que protegem os funcionários contra discriminação, e isso é muito positivo. Vale a pena saber quem são as
empresas.

BPM –  Que estado/cidade americana é mais simpático/a ao movimento LGBT?

Stella – Uma pesquisa muito interessante que saiu no New York Times mostra os melhores e piores lugares para ser gay. Entre os melhores, Nova Iorque, São Francisco, Austin, Miami, Portland, LA e Chicago lideram a lista.
As cidades que levam a sério as políticas de igualdade atraem mais residentes, negócios e
funcionários, é um bom negócio para todos. Pesquisam mostram que a comunidade LGBTQ+ aumenta o nível de renda de uma cidade, satisfação, engajamento na comunidade e aumento de empresas de tecnologia.

Chegamos de mudança definitiva para Nova Iorque no dia 25 de junho de 2015, dia de que os EUA tinham aprovado o casamento LGBTQ+. Deixamos as malas e já fomos para o Stonewall comemorar! Aqui em Nova Iorque, qualquer protesto, vigília que envolva a comunidade acontece principalmente nesse lugar.

Esse ano também tivemos a oportunidade de participar pela primeira vez da marcha LGBTQ+ de Nova Iorque, que acontece anualmente no último fim de semana de junho. Quanta energia e apoio do público ao passarmos pelas ruas! Realmente estamos em um lugar especial!

Leia sobre a comunidade LGBT pelo mundo!

BPM – Que dicas você daria para os leitores LGBTQ+ do BPM que estiverem pensando em ir morar nos EUA?

Stella – Verifiquem sobre as leis de inclusão para LGBTQ+ do estado, cidade para onde vocês pensam morar, segurança e o que a cidade oferece para a comunidade. Pesquisem se a empresa que vão trabalhar têm uma cultura inclusiva e também. A qualidade de vida que levaremos é um fator importante para a felicidade no lugar que vocês escolherem. Venham para Nova Iorque!

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