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Como é ser negra na Alemanha?

Mulher negra na Alemanha

Como é ser negra na Alemanha?

Querida leitora, primeiramente quero lhe dizer que meu objetivo ao escrever para você sempre é compartilhar um pouco da minha experiência e minhas descobertas. 

Desde que me mudei para a Alemanha, muita coisa mudou da minha opinião “por puro achismo” para a minha opinião “por experiência”. Essa viagem entre achismo e a experiência é algo que faço quase todos os dias, sobre vários assuntos e internamente me enriquece muito.

Quando li o texto da querida Carol Cândido Como é ser negra em Portugal?, vi-me refletindo sobre tudo que aconteceu desde que cheguei em Berlim, sobre a montanha russa na qual meus sentimentos deram voltas. E como a própria Carol me disse, “temos mesmo que compartilhar esse tipo de informação e nos ajudarmos”. Então vamos lá. 

Quero começar compartilhando algo que me deixa muito feliz: em um ano e meio de Alemanha, nunca sofri preconceito por ser negra. 

No Brasil, sofri preconceito na escola quando era criança. Meu super pai herói conversou com o menino e resolveu tudo, mas sempre ensinou a mim e aos meus irmãos que deveríamos lutar contra isso. Esse episódio me marcou bastante. Da adolescência em diante, vivenciei o preconceito velado e desenvolvi uma atenção extrema a essas situações. E foi com essa bagagem que cheguei na Alemanha, um país com forte passado nazista e que é visto pela maioria de nós, brasileiros, como a terra dos loirinhos de olhos azuis. 

Sou muito observadora e isso se tornou mais forte em Berlim devido ao meu desejo de aprender como as coisas funcionam e a me integrar. Logo de cara, reparei as pessoas me encarando, mas encarando mesmo, sem disfarçar. Fiquei intrigada com aquilo e logo associei ao preconceito, porém, em poucos dias, descobri que essa é uma característica comum dos alemães, e que todos os expats percebiam o mesmo. 

Leia também: Tudo que você precisa saber para morar na Alemanha

Pensei que talvez minha experiência fosse um caso isolado, então andei lendo sobre a experiência de pessoas negras, mesmo de outras nacionalidades. Vi dois comentários em comum nos relatos: as mulheres dizem que as pessoas pegam no cabelo delas com frequência, o que já aconteceu inclusive sem que elas dessem permissão. Também ouvi algumas pessoas dizerem que alguns alemães já se referiram a eles utilizando a N-word*, como se fosse algo completamente normal.

Eu também conversei com brasileiros e muitos outros expats, negros, pardos, asiáticos e brancos. Vejo que há quase um consenso na experiência de todos eles: em maioria, os episódios de preconceitos estão relacionados ao fato de você viver num país sem falar o idioma oficial. Os alemães valorizam muito sua língua e esperam que se você veio morar aqui, deve conseguir se comunicar em alemão. O que infelizmente não é o caso da maioria, inclusive o meu.

Outro ponto importante que notei nos relatos é que os episódios de preconceito são mais comuns em cidades pequenas, mais conservadoras, onde a população já se conhece, e alguém com aparência diferente chama atenção facilmente. Então, não acredito que meu caso seja uma exceção, mas tenho certeza de que grande parte da minha boa experiência se deve ao fato de eu morar em Berlim. Uma cidade cosmopolita, cheia de diversidade, como os próprios alemães afirmam: uma cidade onde as pessoas são mais livres e mais abertas para o diferente.

Por outro lado, ouvi relatos de pessoas que afirmam com convicção de que as pessoas são preconceituosas na Alemanha, e quando questionadas o sobre porquê dessa informação, elas contam uma situação que viveram ou que ouviram de alguém. Então, eu volto ao ponto que citei no início do texto: será que é achismo ou percepção por experiência? E mais, será que está certo generalizar devido a um fato ocorrido?

Leia também: Eu sofro preconceito no Brasil e não na Alemanha

E para compartilhar mais algumas curiosidades, para a minha surpresa existem produtos de beleza de marcas alemãs para cabelos crespos e maquiagem para pele negra. Se você quiser algo diferente, existem vários salões de beleza e lojas africanas com uma grande variedade de produtos. É comum também ver anúncios de loja com modelos negros, isso não é um máximo?!?

Porém, nem tudo são flores. Percebo que existe um preconceito evidente em relação aos refugiados e muçulmanos. Conversei com alguns alemães a respeito disso e eles me disseram que desde que a Alemanha abriu as fronteiras para receber refugiados em 2015, o índice de violência aumentou muito em cidades onde existe uma maior concentração deles. Isso gerou uma certa intolerância por parte dos alemães, principalmente dos idosos.

Por fim, a conclusão que tirei de tudo isso foi a seguinte: eu acredito que seja mais raro vivenciar um episódio de preconceito racial na Alemanha do que no Brasil. Acredito que não há lugar perfeito nessa terra. Ainda assim, para mim, mesmo com todos os defeitos, a Alemanha é um lugar maravilhoso para se viver.

* N-word é uma gíria em inglês para se referir a pessoas negras, é um termo preconceituoso e existe uma forte discussão para que ele seja abolido. Ainda assim, existem pessoas que utilizam esse termo sem se atentar para o peso que ele carrega.

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4 comentários

Suelen Pessoa Dezembro 10, 2019 at 8:48 pm

uai, irmã. não entendi.
as pessoas te encaram e ficam observando, já te contaram que elas pegam no cabelo, que acham ruim você não falar alemão, que chamam por n-word, vc vê que eles tratam árabes e/ou muçulmanos e/ou refugiados e vc ainda passando pano?
não entendi mesmo.
eu também moro na alemanha, acho o pessoal daqui muito escroto, a palavra é RACISTA mesmo.
o racismo daqui é explícito, muito diferente da nossa experiência no brasil, com um racismo diluído no cotidiano. aqui ele é claro e facilmente perceptível nas pessoas.
e eu sei que a segregação é racial porque eu tenho conhecidos brasileiros do sul do país aqui que também não falam alemão, tanto quanto eu, e nada acontece contra eles, porque eles passam por alemães por aqui.
no mais, no seu rol das experiências negativas eu acrescentaria uma minha, que eu já não aguento mais e tenho simplesmente virado as costas quando acontece, que é quando você encontra uma pessoa, a cumprimenta e ela, antes de perguntar qual o seu nome, pergunta de onde você é. a segunda pergunta é, quase sempre algo do tipo “tá fazendo o que na alemanha?”. eu não tenho tido mais paciência pra esperar a terceira, mas quando eu tinha geralmente eu ouvia “quando acaba os estudos?” ou “quando acabar você pretende voltar pro brasil?”.
enfim. zero paciência. se são racistas contra negros, contra árabes, contra asiáticos e latinos em geral, pra mim dá no mesmo. tudo um bando de gente escrota e eu quero ir embora daqui o mais rápido que eu puder.
fica bem, desejo sorte.
<3

Resposta
Carol Sousa Dezembro 15, 2019 at 10:32 am

Ei Suelen! Não acredito que eu esteja passando pano. Por certo existe racismo na Alemanha, mas o ponto que trato aqui é a minha experiência em relação a cor da pele. Acredito que negros sofrem menos preconceito aqui do que no Brasil por causa da cor da pele. Penso assim porque, como citei, todas as situações desagradáveis que vivi foram vivenciadas por outros expats, negros ou não (um colega holandês e um colega húngaro, os dois brancos de olhos claros, por exemplo, o mesmo com os asiáticos, indianos e americanos). O que temos todos em comum? Morarmos na Alemanha sem falar alemão razoavelmente bem. Logo, acredito que se eu fosse branca de olhos claros mas ainda não falasse alemão seria tudo igual. Daí que veio minha conclusão “nunca sofri preconceito por ser negra”.

Por outro lado, nas minhas pesquisas e vi relatos de negros sofrerem preconceito na Alemanha. Um ponto em comum que vi entre eles é o fato de viverem em cidades menores, mais conservadoras. Por isso o comentário “…tenho certeza de que grande parte da minha boa experiência se deve ao fato de eu morar em Berlim. Uma cidade cosmopolita, cheia de diversidade, como os próprios alemães afirmam: uma cidade onde as pessoas são mais livres e mais abertas para o diferente”. A situação muda muito quando falamos de árabes, muçulmanos e refugiados. Isso daria outro texto, porém escrito por alguém nessa situação.

Eu vim contar minha experiência porque encontrei apenas um relato sobre esse assunto em português e era o que eu gostaria de ter lido a 2 anos atrás. Fico muito triste em saber que sua experiência é diferente. Existem pessoas boas e ruins no mundo todo, ainda temos muita luta pela frente.

Tudo de bom pra você também, te desejo sucesso nos estudos e em tudo que você fizer <3

Resposta
Fernanda Janeiro 30, 2020 at 7:00 pm

Carol Voice é simplismente maravilhosa! Gostei da sua posicao, de como percebe o sei redor.
Moro aqui dessen 25 Anos , casei com um alemao e temos uma Filha linda de 21anos. Por Sorte puxou mais a minha Familia! Minha mae de origem holandesa e meu Pai negro&indio! A Ju chama a atencao de todos Por onde passa, Por ser differente !mas como chegou aqui aos 12 Dias de vida fala perfeitamente Alemāo ,como outros Cinco Idiomas.
Temos amigos incriveis , Mesmo eu sendo Morena mestiça sou Professora em uma Universität e tb VHS e Tenho admiracao de meus alunos e de quem trabalha comigo
A compartilho com a sua opiniao: Negros, indianos, holandeses, Portugiesen …somos estrangeiros , isst sim eu senti no inicio à nessecidade em falar correto. Amo a cultura es vida aqui.
Sou Feliz demais aqui, o Pior racismo é aquele que vivemos hipocrita no Brasil, negro , pobre e so o fato de Sermos mulheres, ja temos muitas portas fechadas. Aqui Valeris pelo que temos na cabeca ,mas ideias MAS no Brasil , o valor esta nos olhos e cabelos claros, ou mesmo no tamanho da bunda!
Por que perguntar de racismo aqui se em Casa o temos muitas Mais ? Preconceito existe na cabeça dos fracos.
Muita Sorte e seja muito feliz em Berlim

Resposta
Carol Sousa Fevereiro 3, 2020 at 9:17 am

Muito obrigada pelo carinho Fernanda! Seu comentário é muito importante pra mim.
É muito bom saber que você e sua família, com muito mais vivência na Alemanha do que eu tem uma percepção bem similar.
Desejo tudo de melhor pra você e sua família também <3

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