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O primeiro emprego no exterior e a síndrome do impostor

O primeiro emprego no exterior e a síndrome do impostor.

Quando cheguei na Alemanha, não tinha emprego. Diria que meu nível de inglês era básico e eu sabia falar uma dúzia de frases em alemão. Mas tudo bem, meu marido e eu tínhamos um plano. Como muitas brasileiras, me mudei para a Alemanha porque meu marido recebeu uma proposta de trabalho. Eu havia terminado a faculdade de Sistemas de Informação meses antes. O mercado de trabalho para TI (Tecnologia da Informação) na Alemanha estava aquecido, e as vagas de trabalho exigiam apenas o inglês. Sendo assim, o plano era o seguinte: eu estudaria inglês por 6 meses e então começaria a busca por um trabalho.

Escolhi fazer aula particular uma vez por semana, durante 1,5 horas. Intercalava as tarefas da casa com estudos de inglês. Eu estudava em média 4 horas por dia, usando todos os métodos e plataformas gratuitas disponíveis. Com ajuda do meu marido, traduzi meu currículo no LinkedIn para inglês e atualizei minha cidade de residência. Eu era recém-formada, com pouquíssima experiência na área que queria trabalhar, então não imaginei que esse ato surtiria algum efeito. Quanta inocência!

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Desde esse dia, recebi diversas mensagens para participar de processos seletivos em empresas, através do LinkedIn. Eu já tinha uma mensagem padrão para todas elas, algo como “Obrigada por me contatar. Infelizmente eu ainda não tenho inglês suficiente para trabalhar. Tenha uma boa semana!”. Já era a síndrome do impostor dando as caras, sem que eu notasse.

Mas um dia, um mês depois de começar minha rotina de estudos, recebi mais uma dessas mensagens. Respondi como das outras vezes, mas a simpática recrutadora insistiu para que eu ao menos começasse o processo. Depois de muito relutar, pensei: vou aceitar, eu sei que não vou passar, mas será uma oportunidade para testar meu inglês. E fui com medo, mas muito disposta a aprender. E passei na primeira etapa. Passei de novo e de novo. Fui fazer uma entrevista pessoalmente e conhecer o escritório, pois até agora tudo tinha sido feito online. Nesse dia, me apaixonei pela empresa, mas saí de lá com a certeza de que havia sido reprovada no processo. Para minha surpresa recebi uma ligação com feedback positivo, e na semana seguinte fui assinar o contrato. Consegui um emprego!

Mas esse foi só o começo do meu desafio diário. Devido ao recesso entre o natal e o ano novo, tive várias semanas para me preparar antes de começar a trabalhar. Peguei aulas extras e lá estava eu no primeiro dia de trabalho fingindo que entendia tudo, mas rindo de nervoso. 

O primeiro mês de trabalho foi um dos menos felizes, mas o que mais me fez crescer. Para mim, trabalhar falando outro idioma pela primeira vez foi muito estressante. Eu chegava do trabalho com a cabeça explodindo, aquilo sugava toda minha energia. Eu não entendia o que as pessoas diziam, o nervosismo me impedia de falar e quando eu falava, cometia uma série de erros básicos. Todo dia vinha um mundo de informações, e eu ainda tinha muito que aprender sobre meu trabalho. Eu olhava para o lado, me achava uma burra cercada por pessoas super inteligentes. 

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Eu já tinha ouvido falar sobre a síndrome do impostor diversas vezes, porém só agora estava vivendo aquilo de fato. Então, passei os meses seguintes esperando eles me descobrirem. 

Bendito seja o casamento nessas horas, ao menos eu chegava em casa e podia contar tudo em português para o meu marido. Eu chorei em casa várias vezes, fazia planos mirabolantes caso eles me despedissem. Até cheguei a pesquisar vagas em português em outras áreas.

Mas depois do primeiro mês de trabalho, adivinhem? Veio o segundo mês e o terceiro, e assim foi um passo após o outro. Felizmente trabalho em uma empresa pequena e o ambiente é muito agradável, mesmo com todo o choque cultural. Eu gosto muito do eu que faço lá, e com o tempo foram entrando outros estrangeiros. Atualmente tenho 10 meses de trabalho e ainda enfrento grandes desafios. O inglês melhorou muito, mas tenho dificuldades eventualmente. 

E a síndrome do impostor segue me acompanhando, mas agora consigo gerenciar melhor isso. Repito pra mim mesma que às vezes eu não preciso me sentir pronta para começar algo, eu preciso estar pronta para tentar.

O que aprendi com isso tudo? Saímos de algum lugar cheios de conceitos e pré-conceitos, razões e opiniões. Mas um dos presentes de mudar de país é a revolução interna que isso pode causar dentro de nós. Se a síndrome do impostor existir, que sejamos mais fortes que ela. Sair da zona de conforto não é fácil e muitas vezes nem é reconhecido. Sinta-se orgulhoso de si, celebre e valorize seus esforços. De tempos em tempos, refila se você tem se cobrado na medida certa. A vida pode ser mais leve se a gente se cobrar menos e não tomar decisões baseadas no medo. 

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2 comentários

Daniela Mares Novembro 5, 2019 at 9:52 pm

Muito linda e motivadora sua história! Feliz em saber que algumas empresas ainda estão dispostas em desenvolver pessoas e ver o potencial do profissional além do idioma. Moro na Suíça há 2 anos e infelizmente a realidade aqui é bem diferente! Parabéns! Muito sucesso!

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Carol Sousa Novembro 6, 2019 at 8:49 pm

Muito obrigada Daniela! É verdade, conheço várias pessoas lutando para conseguir o primeiro emprego no exterior e sei que não é fácil. Mas sigamos batalhando, torço e acredito que em breve você também vai poder contar sua história… e será muito mais linda que a minha 😉

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