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Como o Brasil repercute os protestos sociais no Chile?

Foto: Sergio Afonso Lopez (IG)

Como o Brasil repercute os protestos sociais no Chile?

Tenho acompanhado bastante pelas redes sociais a repercussão no Brasil dos protestos sociais que começaram no Chile em outubro de 2019. Para mim, que sou jornalista, esse é um tema super interessante, principalmente, com relação às fake news que circulam nos dois países. Afinal, como o Brasil repercute os protestos sociais no Chile?

Vou começar pelo tema que mais me preocupa e que mais chamou a minha atenção. As fake news. Na era das notícias virais, esse é um mecanismo super usado e cada vez mais comum no mundo inteiro. Não seria diferente no Brasil e no Chile. Até aí, tudo bem. O que realmente me incomoda é você mostrar para seus amigos brasileiros a verdade e, ainda assim, eles preferirem acreditar nas fake news.

Fake news 1

Como se já não fosse suficiente toda a angústia que a gente vive diariamente aqui por conta dessa instabilidade social, ainda temos que passar raiva. Por causa disso, me afastei temporariamente das redes sociais. Especialmente depois de um episódio com uma ex-colega de faculdade, jornalista de TV, com grande experiência.

Ela publicou um vídeo viral de uma “menina” que era levada presa pela polícia com bastante uso de violência. O vídeo foi distribuído com um texto explicando que se tratava de uma menina chamada Carolina Muñoz e que depois da prisão ela estava desaparecida. O texto exigia informações sobre o que tinha acontecido com a pessoa detida pela polícia.

Pois bem. Passei dias monitorando este caso até que, finalmente, consegui uma atualização. A pessoa no vídeo era, na realidade, um homem. O jovem Alejandro Muñoz Aguayo gravou um vídeo e concedeu uma entrevista ao portal “Diario Concepcion” onde explicava a sua prisão e o que tinha acontecido. Quem quiser conferir a entrevista pode acessar aqui e ver o vídeo também.

Na realidade, ao presenciar uma prisão com forte uso de violência por parte da polícia, ele resolveu intervir e acabou sendo preso também. Ele explica que no vídeo gritou o nome dele em voz alta para ser identificado, orientação que muitas pessoas seguem aqui no Chile para justamente evitar que sejam presas e fiquem desparecidas sem que ninguém saiba do seu paradeiro.

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Fake news 2

O segundo caso de fake news que também repercutiu no Brasil de maneira assustadora foi da artista de rua Daniela Carrasco, a Momo. A foto dela vestida de palhaço viralizou nas redes sociais depois que uma importante organização feminista chilena publicou um post exigindo explicações para o assassinato da jovem.

Ela foi encontrada morta numa praça e a última vez que a viram com vida foi durante uma ação de Carabineros. Também havia a denúncia de que a artista teria sido estuprada e torturada antes de ser morta.

Eu também fiquei monitorando esta notícia porque me chamou muito a atenção a grande repercussão internacional. Dias depois, quando a investigação foi concluída, os advogados da família divulgaram uma nota onde pediam respeito e informavam que a causa da morte foi suicídio. Junto com as evidências reveladas pela autópsia (não havia sinais de tortura, nem de estupro), a família encontrou uma carta deixada pela artista explicando as razões do suicídio. Você pode conferir a notícia completa aqui.

Esses dois casos me deixaram muito triste porque é claro que nesse contexto de violência policial e forte repressão ocorrem casos notórios de abusos e desrespeito aos direitos humanos. Não há necessidade de inventar histórias falsas. A impressão que tenho, muitas vezes, é que essas fake news são parte de um experimento comportamental porque não existe outra explicação para isso.

Além disso, as retratações da verdade jamais têm o mesmo impacto que as mentiras amplamente difundidas nas redes sociais. Considero desnecessária essa retroalimentação porque já temos demasiados casos de violência explícita. Portanto, me pergunto: para quê inventar mais histórias fantasiosas? Quem ganha com isso?

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Acredite se quiser

Mas não são apenas as fake news que me incomodam. A repercussão que os brasileiros dão aos fatos no Chile também é completamente descontextualizada. É impressionante como as pessoas fantasiam uma realidade que está longe da verdade.

Em primeiro lugar, é preciso entender que a lista de demandas dos chilenos é enorme e que qualquer sinal de boa vontade do governo a esta altura dos acontecimentos não tem o menor efeito. As primeiras medidas anunciadas pelo presidente logo depois do início da crise foram consideradas uma piada pela população. Convocar uma assembleia para o povo decidir se haverá uma nova constituição também não agradou aos chilenos.

Até o momento, tudo o que o presidente Sebastian Pîñera anuncia provoca nada mais do que rejeição por parte dos chilenos, sejam eles manifestantes ou não. Também vi outro dia várias pessoas (principalmente de esquerda) compartilhando uma notícia de que uma apresentadora de um programa de televisão expulsou um advogado que negou as torturas na ditadura chilena.

Esse fato aconteceu logo depois que essa mesma apresentadora praticamente censurou um jornalista chileno que tem estava se manifestando contra o governo. O que ela quis no fundo foi livrar-se do linchamento virtual. A própria emissora divulgou uma nota depois pedindo despolpas ao advogado Pinochista.

Até o futebol

Por último, mas não menos importante, vários amigos vibraram quando os jogadores de futebol da seleção masculina chilena recusaram-se a entrar em campo num amistoso. Eles tomaram essa atitude depois que o craque Arturo Vidal deu uma entrevista e fez uma declaração pouco empática ao movimento, o que provocou uma chuva de críticas nas redes sociais. Vidal disse que seria bom ganhar o amistoso para que as pessoas esquecessem dos últimos eventos, referindo-se aos protestos.

Depois disso, ele foi amplamente criticado nas redes sociais. Por isso, o que os jogadores queriam era livrar a cara e esquivar-se porque eles sequer deram uma coletiva explicando a decisão, apenas divulgaram no Instagram um texto. Viajaram ao Chile, tiveram as despesas pagas pela Associação Nacional de Futebol Profissional do Chile (ANFP) para visitar as famílias e depois saíram numa boa.

Por essas e outras ando num nível de tensão muito grande. Juro que passo mal com tanta falta de informação. Com as pessoas desconfiando mesmo quando você tenta mostrar a elas que a realidade é muito maior do que aquilo que elas apenas querem ver e ouvir.

Entre fake news e manifestações, vamos seguindo em frente aqui. Sem saber no que tudo isso vai dar. Muito estão esperançosos e eu realmente admiro essa determinação, mas não compartilho desse otimismo. Eu me incluo entre aquelas pessoas tomadas por uma forte depressão e um sentimento de desalento vivendo uma forte crise em outro país, longe da família. A única força que me move nos dias de hoje é a minha filha e a certeza de que com ela tenho uma enorme responsabilidade. Não fosse por ela nem sei como estaria hoje, depois de 50 dias de tensão e incertezas.

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