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Crianças multiculturais

Criar filhos pelo mundo não é uma tarefa fácil, recebo diariamente no Maria Aqui e Ali muitas perguntas sobre essa experiência e resolvi dividi-las com vocês.

No meu caso a adaptação foi desde a gravidez: tipo de consulta, ultrassonografias, o parto, o pós parto, licença maternidade. Como a Lorrane, já comentou aqui, a licença maternidade nos Estados Unidos não está nem perto de ser satisfatória, então decidi passar praticamente o primeiro ano inteiro da Maria Antonia com ela.

Um pouco antes do primeiro ano resolvi matriculá-la em uma creche, por alguns dias da semana, para melhorar a sua socialização e me permitir também voltar ao mercado de trabalho.

E então começava a minha imersão no mundo das crianças de terceira cultura.

As primeiras palavras da Maria Antonia foram em inglês, algumas facilmente identificadas, outras nem tanto. Apesar de ser fluente em inglês, não fui alfabetizada na língua e se o “bebenês” já é difícil na nossa língua mãe imaginem em outro idioma. Lembro de uma situação constrangedora, pelo menos para mim, que passei ainda com ela pequena. No corredor do mercado, ela apontava para algo, pedia, chorava e eu simplesmente não sabia o que era, até que uma senhora se aproximou e perguntou se eu estava entendo o que minha filha falava e eu disse não, ela então se comunicou facilmente com a Maria e “traduziu”o pedido.

Ali eu vislumbrei o futuro que me aguardava. Cheguei em casa e comecei a pesquisar a respeito de bilinguismo, crianças expatriadas e foi quando me deparei com esse termo: TCK-Third Culture Kid, que numa tradução literal são as crianças de terceira cultura , mas até aquele momento essa realidade ainda parecia distante, mas aos poucos foi se aproximando: as brincadeiras, as canções infantis, fui aos poucos descobrindo o mundo com a Maria Antonia. Sempre sonhei em ser chamada de mamãe, mas virei  “mommy”

O português sempre foi a língua em casa, mas até os 4 anos, a Maria Antonia só falava em português pouquíssimas palavras, mas compreendia perfeitamente.

Leia também: vistos para morar nos EUA

Maria tinha muito mais contato e influência da cultura americana do que da brasileira…

Como se não bastasse recebemos a notícia da mudança para Abu Dhabi nos Emirados Árabes Unidos, e o que esperar?

Mais um desafio se apresentava a mim naquele momento e foi exatamente nesse período que ficou claro pra mim o que era uma TCK.

A turma da Maria Antonia ainda no jardim era  de 22 alunos, 14 nacionalidades diferentes, a escola em si, no seu corpo de alunos, abraçava 75 nacionalidades.

O lema da escola era: tenha uma mente aberta, respeite as diferenças, liberte-se de pré conceitos, vocês são cidadãos do mundo e são mesmo.

E eu percebia isso de diferentes formas, algumas me preocupavam enquanto muitos achavam interessante. Perguntas simples  como: “de onde você é? “, na verdade se tornam complexas para crianças que nasceram ali, cresceram aqui,  e os pais são de lá…. Quando as crianças conversavam entre elas perguntavam: “quantos aviões são até a sua casa?” Quando perguntava a Maria Antonia: qual seu lugar preferido em Abu Dhabi, ela respondia: o aeroporto!!!

Geralmente famílias expatriadas também tem como hobby viajar e explorar novos lugares, talvez para compensar a distância, a saudade ou aproveitar as redondezas daquele país onde moram , pois, de uma hora pra outra, a mudança pode acontecer. Então não é difícil ver essas crianças falarem que gostam da comida de um país específico, que essa companhia área é melhor que outra, que esse hotel é mais confortável. Pode até parecer esnobe no começo, mas na verdade é a realidade em que elas são expostas, é a vida que estão acostumadas a levar e, com isso, têm sempre um olhar crítico sobre as mais diversas situações.

Estamos de volta a Houston e a escolha da escola não foi fácil, primeiro porque podemos mudar a qualquer momento, então teria que ser uma escola internacional que estivesse acostumada a essa mobilidade. Segundo, não queríamos que a Maria Antonia tivesse dificuldade de se sentir aceita, então optamos por uma escola com perfil de crianças expatriadas onde essa realidade de ser dali e daqui é usual.

Dentre as muitas vantagens dessas crianças eu cito a maturidade cultural, a flexibilidade, adaptabilidade, independência e o poder de observação.

Um exemplo, quando vocês estiverem lendo esse texto, a minha  pequena, grande menina, terá embarcado sozinha no alto dos seus oito anos para passar férias no Brasil, eu temerosa, ela feliz e animada e me consola: “mamãe eu tenho amiga que viaja sozinha desde os sete”. Quando conversei na escola para saber se ela emocionalmente teria condições de enfrentar esse desafio, todos foram categóricos em dizer: não se preocupe. Fora do ambiente “protegido” dos expatriados as pessoas se surpreendem , mas o aeroporto, avião é o que ela mais conhece e se sente confortável. Afinal já estamos no 3° país.

Até agora mencionei as vantagens, mas e as consequências dessas mudanças e vida nômade?

Muito se estuda e o que mais já foi relatado:

  • falta do senso de pertencimento: pertenço a vários lugares e a nenhum;
  • dificuldade de se aprofundar nas relações, pois sabem que a qualquer momento podem mudar, acabam tendo dificuldade de criar laços e raízes como uma forma de defesa;
  • impotência, não ter controle sobre a sua vida e decisões;
  • problemas de identidade cultural.
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Apresentação na escola em Abu Dhabi: de onde voce é? E a dúvida cruel… Foto: arquivo pessoal

Sempre tive muitas dúvidas, como mãe, em como agir e sempre busco orientação, pois a cada mudança, novas questões aparecem.

Leia também: escolas públicas ou particulares nos EUA

Algumas dicas que funcionam muito bem na nossa dinâmica familiar:

  • amenizar o sofrimento da despedida com argumentos de ser uma criança privilegiada por estar vivendo aquilo, pela vida dinâmica pode parecer o certo, mas na verdade, tais argumentos não são aconselháveis. É importante deixar a criança demonstrar a insatisfação, a raiva e aflição e se mostrar compreensivo e externar também as suas dificuldades, engajar a criança no projeto de vencer juntos a tristeza da partida;
  • permitir que a criança, em alguma situação, crie as regras, tenha o controle da situação. Esse empoderamento suaviza a sensação de impotência;
  • crie as tradições da sua família;
  • comprometa-se a manter as relações de amizade criadas no país, seja por conversas via internet ou encontros de tempos em tempos;
  • demonstre sempre uma atitude positiva, é mais fácil educar com exemplos do que com palavras.

Você vive essa realidade? Ainda tem dúvidas de como lidar com essa situação? Estamos no mesmo barco, deixe seu comentário e trocamos mais figurinhas.

Até o mês que vem.  See you soon.

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8 comentários

Fabiana Julho 11, 2016 at 2:57 pm

Tenho muito orgulho de ser sua amiga. Lindo texto….

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Renata Salas Collazo Julho 11, 2016 at 3:12 pm

Fafa, meu orgulho e ter vc na minha vida ha mais de 15 anos… Amor eterno….

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Erika Carneiro Julho 11, 2016 at 2:59 pm

Amei, Rê! É bem assim mesmo, que maravilha poder fazer parte desse mundo.

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Renata Salas Collazo Julho 11, 2016 at 3:10 pm

Erika,
so a gente sabe como e isso… quando pensamos em morar em outro pais muitas vezes esquecemos de quantas questões precisam ser levadas em consideração… Ainda bem que fomos privilegiadas com a Maria, Luna e Stella, TCKS que mais nos ensinam do que aprendem. Bjs

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Débora Braga Julho 11, 2017 at 10:45 pm

Renata, estou no mesmo barco. Moro na NZ há 8 meses aproximadamente e tenho duas situações diferentes: um filho com 16 anos e o outro com 2 anos.
Um que deixou seus amigos no Brasil e sofreu muito com isso no início, mas ele tinha o foco no futuro e na direção de vida que estávamos tomando. Muito consciente que tudo o que estávamos fazendo era por um futuro melhor para a nossa família. Deixando pra trás um Brasil tão amado mas que estávamos fugindo das situações insustentáveis que o Brasil nos apresentava ( seguranças, instabilidade econômica, …).
E o outro aprendendo a falar em duas linguas. OMG! Sei bem como te sentiu pois tem coisas que não entendemos quando eles falam pois é uma mistura tão grande.
Mas enfim, coragem e foco pois temos certeza que estamos no caminho. Basta respirar 🙂
Um grande abraço.

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Renata Salas Collazo Julho 15, 2017 at 5:02 pm

Débora,
obrigada por dividir sua experiência também. Ser mãe do mundo também não é nada fácil…. Obrigada por acompanhar o BPM.

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Camila Jales Julho 12, 2017 at 2:40 am

Adorei o texto, estou saindo do Brasil para Dinamarca e tenho um filho de 5 anos, muito bom saber dessas coisas.

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Renata Salas Collazo Julho 15, 2017 at 5:01 pm

Camila,
você vivenciará em breve o que descrevi É fascinante, poder educar cidadãos do mundo, pro mundo. Um baita desafio, mas extremamente compensador. Estou sempre aqui, se precisar de um bate papo. Boa sorte. Obrigada pelo carinho e por acompnahr o BPM.

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